[Conto] De Repente é Amor



Quem sabe quando vai se apaixonar? Quem prevê a aparição de uma insistente paixão? Quem é capaz de ordenar ao coração o momento certo de palpitar por amores? Todos são pegos de surpresa, o amor não avisa quando vai acontecer, de repente ele floresce.

Eram amigos inseparáveis.
Eram cúmplices fiéis.
Os anos que juntos viveram serviram para que um conhecesse mais sobre o outro, compartilhassem segredos, vivessem aventuras e gargalhassem para a vida. Pensavam que para sempre teriam a tão agradável amizade os cercando, desejavam que pela eternidade pudessem contar com o apoio um do outro.
O desejo, até então, era atendido.
Mas o destino propôs uma forma diferente para que o desfrutassem.

Diego, sempre tímido e reservado, enfrentava um dilema nunca antes experimentado, sentia-se oprimido pelos desconhecidos sentimentos que se manifestavam em seu peito quando se aproximava  da melhor amiga, alguém que gostaria de preservar em seu caminho. Não a via mais como a garota de antes, com o olhar infantil que por tanto tempo tivera, seus intentos eram outros, seus anseios se transformaram, a cada dia se convencia do que mais temia: estava apaixonado.
Mas não queria provar da doce paixão.
Ao seu paladar era ela amarga.
Se confessasse o que sentia correria riscos que não suportaria, se revelasse o oculto de seu coração poderia afastar quem muito estimava, contudo sentia-se fraco para combater a força dos impulsos juvenis, talvez não conseguisse guardar o segredo pelo tempo necessário para que o esquecesse, afinal, todos os dias, a cada aproximação, ele se manifestava com maior ímpeto.
O adolescente não sabia como agir.
Lamentava-se por não ser mais um menino.

Bianca, focada em seus estudos, ansiosa pelo vestibular que prestaria ao final do ensino médio, não imaginava que fosse tão vulnerável a um sentimento que não desejava provar, sentia-se indefesa diante os pensamentos involuntários que surgiam em sua mente e lhe arrancavam suspiros, sentia-se fraca a cada vez que ouvia o som de uma voz especial.
Teve que aceitar e confessar a si própria.
Apaixonara-se.
Não entendia como aquilo acontecera. Durante todos os derradeiros anos viveu uma amizade tão ingênua e despretensiosa, por que agora via seu melhor amigo como alguém capaz de acolher seu coração? O sentimento de amizade há muito deixara de existir, amor era o que persistia em abrasar sua alma. Com ele as dúvidas também chegaram, os anseios surgiram e o medo de perder alguém querido não permitia que seu desejo fosse exposto.
Quem melhor que o amigo para ser seu primeiro amor?
Mas e se tudo terminasse da pior forma?

Naquela manhã de sábado, ensolarada e agradável, os adolescentes despertaram decididos a arriscarem suas chances, a assumirem suas vontades e enfrentarem o futuro. Precisavam tentar, além de todas as ideias pessimistas existiam as possibilidades de coragem: e se fosse para acontecer?
Por mensagem marcaram um encontro.
Davam o primeiro passo.

O sol raiava sua luz, aquecia a terra e iluminava o céu. As nuvens discretas e leves vagueavam pelo tecido azulado, eram carregadas pelo vento que soprava no mar e fazia as ondas saltitarem em harmonia. Ansioso, balançando as pernas sem que percebesse ou pudesse controlar, o jovem adolescente encarava o oceano, aguardava pela garota que deixara de ser uma amiga e passara a ser o desejo ardente de seu embriagado coração. Pensava nas palavras que poderia dizer, no discurso a declarar, em como venceria a timidez e se permitiria ao amor, seu primeiro amor.
Bianca, avistando o garoto pelo qual descobrira sentir desejos diferentes do que acreditava cultivar, abriu um discreto sorriso, o formigamento nas mãos aumentou a ansiedade por estar ao seu lado, pedir emprestada a sua atenção e revelar de uma vez por todas o que já não era capaz de esconder.
Finalmente, estavam frente a frente.
Encaravam-se apaixonados.
Sentados no mesmo banco, mantendo os trinta enormes centímetros de distância, os adolescentes confusos não trocavam palavra alguma, apenas se permitiam perder na imensidão do mar agitado, tentavam encontrar coragem dentro de si mesmos. O silêncio se quebrou quando ambos se chamaram pelos nomes, sorriram envergonhados, mas o cavalheiro admirado deu vez à sua dama conquistada.
— Preciso que me ouça com atenção, não será fácil depois que eu revelar o que tem me sufocado... — Bianca, desbravando a novidade do se apaixonar, descobriu em seu parceiro o mais belo dos sorrisos, percebeu uma beleza ímpar nas brilhantes íris castanhas que a encaravam atentas e não deixou de notar o charme especial que Diego possuía tendo a testa coberta pela desgrenhada franja. Queria tocá-lo. Queria senti-lo. Queria tê-lo para sempre.
— Por favor, pode confiar em mim... — o ingênuo Diego, acreditando ser aquele só mais um diálogo como os outros, sentiu mais uma vez a ardência no peito ao observar com meticulosidade os olhos azuis que o enfeitiçavam, os lábios delicados que pareciam convidá-lo para um gesto transformador, romântico, um beijo que mudaria toda a realidade.
— Pode parecer estranho, confuso talvez, mas não sinto mais que sejamos amigos, pelo menos não como nos tempos antigos, as coisas mudaram...
— O que quer dizer? — preocupou-se rapidamente, pensava no que poderia ter feito para que causasse aquele desabafo, faria o impossível a fim de alcançar reconciliação, mas não deixaria partir quem tinha por especial —. Se foi algo que fiz peço que me perdoe, nunca será minha intenção...
— Diego, quero que me ouça... — tranquila, com a serenidade que deixava o atordoado adolescente ainda mais perdidamente apaixonado, a jovem garota interrompeu o mover dos lábios de seu ouvinte com um toque discreto, abriu o sorriso compreensivo, diria tudo o que precisava —. Nós crescemos, guardamos memórias incríveis e se parássemos para assistirmos ao nosso passado nos divertiríamos incansáveis, mas sinto que a ingenuidade infantil se acabou, não consigo mais vê-lo como o irmão que sempre considerei, meus desejos mudaram, estão intensos, descobri que me apaixonei por você... — suspirou aliviada, esperaria por respostas.
Diego, em sua atônita surpresa, em sua falta de versejares, desenhou no rosto um sorriso empolgante, exibia o olhar animado, seus olhos brilhavam como quando ganhava os mais desejados presentes. Amava e era amado.
— Por tanto tempo tenho relutado contra mim mesmo, tenho ofuscado o que sinto por medo, por incertezas e se não me declarasse o mais agradável dos segredos talvez nunca tivesse coragem para dizer que, inegavelmente, também me apaixonei pela única garota a qual posso confiar meu coração, alguém que quero amar como merece! — finalmente se livrava de um peso tão incômodo.
Fora mais fácil do que imaginaram.
Se deixaram guiar pelas emoções e saborearam o doce sabor do primeiro de muitos beijos que os uniriam mais e mais.

Entregar-se ao amor não é tarefa fácil, mas quando conseguimos abrir os nossos corações àqueles que se dispõem em neles viver, conquistamos felicidades preciosas, incalculáveis.




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Comentários

  1. O amor chega de repente quando menos se espera ele bate na porta, mais muitas pessoas ainda fica fechada para o amor, mais quando damos chance para o amor tudo flui em nossa vida, que possamos sempre abrir a porta para o amor, abraços.

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  2. Que lindo, a descoberta do primeiro amor é um dos momentos mais doces da vida. Quando o sentimento é recíproco tudo se torna mais belo e fica eternizado na lembrança. Que bom seria se todos abrissem seus corações e se permitissem viver esse sentimento sem medo de se entregar.

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  3. Que história mais linda, realmente se entregar ao amor nem sempre é tão fácil.

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  4. Adoro tua escrita, Amilton! Este texto em especial muito me tocou, a descrição dos sentimentos de temor, ansiedade... Revivi nas tuas palavras o momento em que Brayan w eu nos declaramos rs a diferença é que foi pelo whats, como já contamos lá no blog... rs
    Enfim, parabéns! Te desejo sucesso sempre!

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  5. Tememos tanto os fins, e o imprevisível, que temos medo de começar algo que envolva o amor. Mas muitas vezes é assim: mais facil do que imaginamos. Adorei o conto!

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  6. Oi,tudo bem?

    Gosto de pensar que o amor nos encontra quando menos esperamos e não quando mais procuramos, então gostei bastante do post e concordo com o amor chegar de repente. Gostei do conto e já quero muitos outros.

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  7. É tão bom quando o amor se encontra em sintonia harmônica. Quanto os sentimentos são plenos e se complementam. Cada dia tende a fortalecer mais esse elo e nada poderá destrui-los.

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  8. Esse conto me trouxe algumas lembranças. Tive um amigo na infância, éramos inseparáveis. Ele dizia para minha mãe que ia se casar comigo. No nosso caso, não aconteceu como aconteceu com o Diogo e a Bianca. Casei com outro e ele não foi ao meu casamento. Anos depois ele se casou. A amizade permaneceu. Quando nos encontramos casualmente conversamos sobre vários assuntos. Durante muito tempo notei que a esposa dele sentia ciúme de mim.

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  9. Nossa que conto lindo!!! Me trouxe muitas lembranças sobre a minha própria vida, eu tive um amigo que seria meu marido, mas a vida o tirou de mim e achei que nunca mais iria me apaixonar, ah como eu estava errada.

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  10. Olá, tudo bem?
    Que lindooooooooo!!! Eu adoro romances entre amigos. E sei que é difícil, mas é muito mais difícil perder a oportunidade. Então, eu prefiro arriscar e queria que todos arriscassem. O argumento de perder a amizade, é mais fraco do que perder seu melhor amigo e amor para outra pessoa.
    beijinhos.
    cila.

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  11. Adorei a forma como você construiu o seu conto, achei ele delicado e muito fofo. Se arriscar às vezes pode ser a melhor coisa.

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