[Conto] Amor Genuíno



Quando poderia imaginar que viveria uma história de amor? Nunca passou pela minha cabeça que alguém como eu, sempre tão tímida, tão retraída, tão discreta, pudesse despertar os olhos de alguém, pudesse ser notada pelos olhos de outra pessoa. Mas aconteceu. No final do ensino médio, apaixonada pelo garoto inteligente, dócil e gentil, fui surpreendida: meu sentimento era recíproco.
Fomos nos conhecendo a cada dia. Descobrimos tantos gostos em comum como nos adaptamos ao jeito de cada um ser. Ele, sempre que envergonhado, pressionado pelos protocolos do que “se espera de um namorado”, recolhia-se ao silêncio após um suave, por vezes intenso, mas sempre demorado beijo. Quando nossos lábios se uniam nada mais importava, queríamos apenas sentir um ao outro, trocar a respiração, perceber as batidas dos corações, permitir que as mãos se conectassem. Íamos ao limite. Desafiávamos nosso fôlego. E lá ficava Luís, corado, tímido, sem saber o que fazer.
Mas e quando ele me olhava sem piscar? Minhas pernas tremulavam sempre que ouvia a frase mágica “você é linda, não me canso de contemplá-la”. Seus olhos fixos, seu semblante sério, ele devia saber o quanto eu ficava perdidamente apaixonada, sem reação, aposto que usava tão poderoso artifício por conhecer meu frágil coração.
Ninguém poderia contestar, nem mesmo nós negávamos, o amor que nos unia era forte o bastante para que nem a morte pudesse nos separar. Sempre acreditei nisso, sempre confessei que não importava o que acontecesse, jamais esqueceria aquele a quem me entreguei, jamais o substituiria, ninguém seria capaz de ocupar seu lugar.
Casamo-nos em uma cerimônia que ficou marcada. Foi um momento lindo, de realização, no qual olhei para trás, enxerguei aquela garota solitária, sem expectativas e sorri para ela, foi sim capaz de reviravoltas, era naquele dia a mulher mais feliz do mundo.
Em nossa lua de mel viajamos para o sul. Fazia frio, parecia que o clima quisesse nos congelar, mas nossa paixão era quente, nosso amor ardia em chamas, nossos corpos se aqueciam em momentos de puro êxtase, em horas de utópica magia. Entregávamo-nos aos nossos sentimentos, embriagávamos no perfume um do outro, éramos transportados da realidade a cada toque sedento por mais.
Amávamo-nos loucamente.
Em uma das noites durante os quinze dias que passamos no Paraná, deitados sobre o tapete macio, aquecidos pela lareira cuja chama dançava graciosamente, cobertos por um generoso cobertor, encostados um no outro, sentindo o calor dos corpos ofegantes, discretamente molhados pelo suor da paixão, Luís declarou suas palavras, as que se eternizaram em meu coração.
— Se existisse medida que mensurasse o tamanho de meu amor por você, ficaria surpreendida pelo número infinito... — soando a voz aveludada que prometia me acompanhar pelo resto dos anos, envolvendo-me em seus braços que firmemente me prendiam a ele, o grande amor de minha vida alisou meu rosto, seus olhos verdes refletiam a chama às minhas costas, exibiam paixão —. Você é a mulher que sempre sonhei em ter, é quem me faz feliz, nunca se esqueça disso. Não importa coisa alguma, quero que seja minha e quero ser seu por toda a eternidade... — beijou-me selando tão maravilhosa promessa. Não era mais o garoto que se envergonhava, era um homem que não se enfadava de demonstrar seus descontrolados sentimentos.
— Você mudou a minha vida, transformou meus pensamentos e desvendou meus olhos para que pudessem contemplar horizontes novos, belos e esperançosos. Jamais fugirei de seus braços, seria um erro... — sempre fui apaixonada por Luís, sempre desejei tê-lo vulnerável a mim e naquele momento meu sonho se concretizava. Alisei seu rosto áspero, passeei os dedos pelos lábios que me garantiam prazeres carnais e sentimentais, não me via sem a sua companhia —. E também nunca deixarei que escape de minhas mãos!
Os meses se passaram.
Nossos laços apenas se fortaleciam.
Porém novos sonhos passaram a existir. Como todo casal que se ama desejávamos ampliar nossa família, fazer nascer de nosso amor um fruto de alegria. Queríamos abraçar um filho. No entanto, o que para muitos é a tarefa mais simples, para outros pode ser uma batalha que deixa cicatrizes profundas. Não engravidávamos.
Buscamos ajuda.
O problema não era com Luís, cheguei a torcer para que fosse, eu compreenderia, não o trocaria por motivo algum, não lhe daria as costas por algo que seria possível enfrentar...
O problema era comigo...
Quando recebi a notícia voltei a me sentir como aquela garota desprezada, sem nada a oferecer. Senti-me inútil, inválida, incapaz de realizar o sonho de quem mais amava. Chorei como se as lágrimas pudessem me libertar, lamentei como se nada mais fizesse sentido. Isolei-me. Afastei-me até mesmo daquele que prometi não fugir.
Ele merecia ser feliz.
Eu não poderia lhe garantir esse direito.
Algumas semanas desde que pedi por um tempo, convicta de que abriria o caminho para que Luís concretizasse seu anseio por ser pai, a campainha tocou desesperadamente. Pensei que fosse algo sério. Alguém precisando de ajuda. Fui surpreendida.
— Flávia... — um homem abatido, visivelmente ansioso, abraçou-me como se fosse tudo o que tinha, derramou seu choro sobre meu ombro, feriu meu ser e motivou minhas lágrimas —. Flávia... Por que está fazendo isso? Por que me ignora? Por que me trata como um desconhecido?
— Luís, precisa entender, precisa saber que não posso lhe dar aquilo que por certo seria seu maior presente, não posso fazê-lo feliz como sei que almeja, como merece! — ainda que chorando, ainda que relutando contra minha vontade de sentir aquele que perdidamente amava, fiz minha declaração na esperança de que me esquecesse –. Não posso arruinar seu futuro, não posso...
— Arruinaria meu futuro se me abandonasse... — beijou-me como das outras vezes, cheio de desejo, cheio de paixão. Tentei combater contra meus desejos, mas me rendi, retribuí, era fraca demais diante tudo o que sentia –. Não importa nada, lembra? Quero que seja minha e quero ser seu por toda a eternidade...
Com os rostos colados, sentindo os corações balançarem desesperados, sorri, sorri aliviada, sorri apaixonada. Fui ignorante. Fui tola. Quando o amor é genuíno não há desafio que o vença!



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Comentários

  1. Olá tudo bem ? Depois da leitura um suspiro vindo do fundo do coração. Os tímidos também amam. Não perderei os contos das sextas feiras. Bjsss

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  2. Nossa, que conto!
    O amor supera tudo, quando tem um amor assim, acredito que se torne mais forte ainda.
    Muuiito legal.

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  3. As intempéries da vida existem para muitas vezes colocar um amor à prova. O sentimento que une Flávia e Luís se mostrou mais forte que qualquer dificuldade que possa surgir. Tenho certeza que juntos vão conseguir vencer esse obstáculo e formar a família que tanto almejam.

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  4. Meu Deus, o meu coração bateu ainda mais forte quando achei que tudo ia dar errado por ela o afastar! Isso aí, sim, é amor <3 :') Adorei o conto! Identifiquei-me com a Flávia e espero que o amor que sinto também consiga ultrapassar todas as adversidades que a vida nos proponha.

    Beijinhos :)

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  5. Muitas vezes pensamos que ninguém vai se interessar por nós mais de repente o amor acontece, que história linda e emocionante desse dois personagens, quando existe o amor tudo é superado, abraços.

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  6. O amor, se verdadeiro, supera todo e qualquer desafio. Esse conto é uma ótima reflexão para muitos casais que assim como os protagonistas passam por algo semelhante.

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  7. Olá, tudo bem?
    Dessa vez saio daqui com os olhos molhados. Conheço uma história semelhante, por isso foi mais real para mim. Além disso, eu consegui sentir todo esse amor, suas palavras ultrapassaram a tela do computador e me atingiram. Parabéns, lindo!!!!!!
    beijinhos.
    cila.

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