[Conto] Moldar-se
A vida em
conjunto não é tão fácil quanto parece, cada um de nós possui seus próprios
interesses, seus característicos gênios que muitas vezes conflitam com o modo
diferente do outro ser. Talvez o maior segredo do mesmo tamanho difícil de
realizar para que os relacionamentos sobrevivam, seja o de moldar-se um ao
outro.
Luana, uma
gerente de banco muito bem sucedida, orgulhava-se de seus prêmios, deixava-os
expostos na estante que ornamentava a sala onde recebia os amigos e parentes
que a visitavam esporadicamente, via no trabalho uma forma de extravasar,
descarregar todo o estresse, gastar energia.
Mas não poderia
falar que na vida pessoal, mais especificamente amorosa, conquistara o mesmo
êxito. Às quatro da madrugada, com os olhos abertos e submersos à escuridão do
quarto, sentia a falta da companhia do esposo, com quem se casara há dois anos,
quando acreditava que as declarações de amor e o intenso envolvimento durariam
para sempre.
A cama estava
vazia.
Entregue apenas
a ela.
Aquele vazio
indesejável manifestava-se também em sua alma. Não ouvir a voz do marido, não
implicar com suas manias que a irritavam, não sentir o seu perfume amadeirado e
nem receber os abraços inesperados ao longo do dia tornavam a saudade ainda
maior. Estavam sem se falar a quase um mês. Luana esperava pelo dia que dos
correios receberia o pedido de divórcio.
Mas o que
poderia fazer?
Ele que
decidiu sair.
Marcos, um
professor de educação física amado pelos alunos e que nas horas vagas não
deixava o violão descansar, não se importava com conquistas profissionais,
buscava mesmo era pela simpatia das pessoas, em falar a língua do outro, em ser
compreensivo com o próximo.
Contudo,
talvez esquecera que a esposa também representava o próximo.
Talvez tivesse
que ser mais compreensivo com ela. Não estaria no pesqueiro, segurando o anzol
e contando as horas solitariamente.
Era romântico,
amava receber a mulher após um longo dia de trabalho com um lanche especial
preparado por suas mãos, amava em ocasiões especiais organizar uma viagem para
que ambos se refugiassem do agito da cidade grande e tivessem apenas a
companhia um do outro no interior, amava também as noites de intensa paixão nas
quais fazia Luana se sentir a mais amada de todas as mulheres.
Gostava de ser
meloso.
Chegava a ser
grudento.
E quando
chegava nesse ponto a esposa parecia jogar um balde d’água fria, murchava suas
expectativas e parecia ser ingrata quanto tudo o que ele procurava demonstrar. Naquele
pesqueiro, sentindo falta da parceira, tendo-a apenas nas lembranças, sendo
acompanhado pelas estrelas, Marcos confessou que queria mudar as coisas.
Mas teria
mesmo que dar o primeiro passo?
Bem que ela
poderia ser menos insensível, era o que pensava.
Mas a saudade
nos corações sufocava as almas que ansiavam por estarem juntas. O casal se
amava apesar das diferenças, mas o orgulho, a falta de humildade em pedir
desculpas, mantinha dois intensos amantes inutilmente afastados.
Precisavam aniquilar
o abismo.
Antes que
caíssem nele.
Luana se
lembrava perfeitamente do primeiro encontro com o esposo, era primavera, vestia
um vestido leve, florido e entre os fios louros prendera uma flor. Foi assim
que o conquistou. Foi até mesmo chamada de linda. E foi assim que se vestiu
outra vez.
Marcos se
recordou do dia especial no qual pedira a mão da esposa em casamento, escrevera
uma música e fizera dela sua meiga proposta. Lembrou de ter provocado as
lágrimas emotivas, lembrou de que recebera um suave sim e de que sob os
aplausos da admirada plateia beijaram-se apaixonados. Pegou o violão, faria
outra vez o mesmo pedido.
Luana sabia
exatamente onde encontrar o companheiro, estava na fazenda dos pais, e Marcos
sentiu o coração acelerar ao ver passar pela porteira o carro da estimada
parceira.
Ela, de
vestido florido.
Ele, com o
violão no braços.
Ela entendeu o
que significava aquele gesto, recordou-se do pedido de casamento.
Ele rememorou
o primeiro encontro e o quanto se apaixonara em um simples olhar.
A passos
velozes, sob o pôr-do-sol envoltos pela bela paisagem da natureza, romperam o
abismo.
Abraçaram-se
saudosos.
Beijaram-se
nostálgicos.
— Eu sei que não
tenho me preocupado com a nossa união tanto quanto me preocupo com o trabalho,
mas esses dias me serviram para entender que não posso viver sem a sua presença
em meu caminho, você me completa — com lágrimas nos olhos, sorrindo
alegremente, Luana dava voz ao coração.
— Também sou
dependente do seu amor e preciso da sua companhia para que me sinta protegido,
realizado e satisfeito nesse mundo cheio de tantos inconvenientes, contextos
que só suportamos ao lado de quem amamos — aliviado pelo encurtar das
distâncias, acariciando o rosto delicado daquela que tão profundamente morava
em seu coração, Marcos declarou a pureza de seus sentimentos —. Prometo entendê-la
melhor, prometo que nunca mais soltarei suas mãos!
— E eu prometo
ser menos exigente, mais romântica, lutar pelo nosso amor!
É...
Poderiam
comemorar.
Tiveram a
chance da reconciliação.
Mas e quem
perde tempo por motivos tão bobos?
<<>>
Não
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É tao bom quando se percebe o que está se fazendo de mais ou de menos, quando através de um bom diálogo tudo se resolve né? Que lindo conto e que final feliz!
ResponderEliminarSomos pessoas diferentes ,com vida e criações diferentes . Quando realmente é um amor , verdadeiro, correspondido , nos moldamos um ao outro , criamos afinidade e aceitamos as diferenças.
ResponderEliminarAdorei o final que o conto teve, é muito bom usar a amigável conversa para se resolver os conflitos. Parabéns pela bela e emocionante escrita.
ResponderEliminarOlá tudo bem???
ResponderEliminarÉ tão bom quando lemos algo e notamos que ao decorrer percebemos o final.Ainda mais quando o final é feliz.
www.robsondemorais.blogspot.com.br
Que conto lindo, amei o fato da conversa se resolver tudo, muitas vezes é só isso que precisamos para resolver as coisas. Parabéns, você escreve muito bem.
ResponderEliminarLembrei de um roteiro de Grey's Anatomy... como as pessoas são bem resolvidas e conversam e são capazes de se entender. Eu admiro mesmo! <3
ResponderEliminarQue bom que o tempo em que ficaram afastados serviu para os dois refletirem sobre o relacionamento. Muitas vezes por falta de uma conversa o casal destrói a chance de ser feliz.
ResponderEliminarTextos que nos ensinam como se comportar diante de uma conversa, lindo demais! As pessoas tendem a desligar quando você aponta um dedo para elas e diz "você sempre faz isso" ou "você está sempre fazendo isso"Tomar posse do seu comportamento e ser responsável por trazer o seu melhor para o relacionamento pode ser uma boa maneira de acalmar as coisas.
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