[Conto] Ao seu lado, pela eternidade



O tempo que passamos longe de quem amamos, ainda que sejam poucas horas, mais parece uma insuportável eternidade, minutos infindáveis, nosso coração clama por estar próximo daquele com o qual sincronizou.
Imagine dias.
Ou anos.
A alma sofre a dor do amor, esse sentimento paradoxal, capaz de garantir inexprimíveis alegrias e causar lágrimas de intensa aflição. A alma sofre a dor da distância, da malquista separação, do indesejável silêncio. Os ouvidos suplicam por ouvir a voz especial, os dedos anseiam por tocar a pele inconfundível e os lábios se agitam cansados de esperar para que outra vez sejam unidos.
Bruna sentia essa amargura.
Há anos não dividia a cama com o único homem que amou, o garoto que lhe jurou fidelidade, que cresceu e se transformou na razão do seu sorriso.

Jovens ainda.
Submersos no mundo de novidades e descobertas já não se olhavam como amigos, atentavam-se à beleza que o olhar de cada um exibia; quando prestavam atenção nos próprios pensamentos se surpreendiam com os sonhos, queriam, no futuro próximo, viverem unidos, como homem e mulher, para que juntos escrevessem uma história.
— Preciso falar uma coisa. Há dias venho tentando, mas me falta coragem, porém os desejos que pulsam aqui dentro se tornaram maiores que quaisquer receios... — o ainda adolescente Hugo, tendo a face iluminada pelo sol resplendor, exibindo os primeiros fios de barba que tomavam seu corpo, encarou as íris esverdeadas de uma forma nunca feita, com seriedade, certeza sobre o que declararia.
Esperou que a amiga respondesse algo, mas ela apenas assentiu, prontificou-se a ouvi-lo, parecia saber quais palavras seriam usadas.
— Sabe como estimo os amigos que possuo, torno-me um valente guardião e os defendo com a minha própria vida, mas com você é diferente, não a vejo como alguém que precisa da minha proteção, da minha vigília, sinto a necessidade de amá-la como a mulher da minha vida... — era maduro o bastante para compreender os próprios sentimentos, com esforço abrira o próprio negócio, sabia tomar as decisões certas nos momentos precisos.
A doce Bruna, cuja pele ainda era lisa e os cabelos mais pareciam fios de ouro, levou a delicada e aquecida mão ao rosto do melhor amigo, encarou os olhos castanhos, jogou para o lado a charmosa franja que a impedia de contemplar o constante brilho do olhar juvenil, abriu um sorriso apaixonado.
– Quando percebemos que seremos correspondidos em nossos afetos a vida ganha mais cor, um significado maior e mais poderoso, enchemo-nos de coragem para então descobrir a nudez de nossas almas... Não é mais amizade, é amor... — respondeu.
Sentados na areia, com um belo e tranquilo mar à sua frente, os jovens adolescentes beijaram-se sutilmente, sorriam tímidos, sentiram o friozinho da inexperiência.

Sobre o armarinho repousava um porta-retrato cuja fotografia revelava o jovem casal, a alegria estampada em ambos os semblantes, quando a distância não os separava, quando o tempo não parecia tão longo assim, quando nada se colocara entre eles e o amor que viviam.
Ela já estava avançada na idade.
Perdia as esperanças.

Finalmente, alguns anos depois da tarde especial na qual confessaram o amor, homem e mulher se casaram e para comemorar em grande estilo optaram por uma viagem ao Sul do país, onde fazia frio, justificativa para que os grandes amantes nunca se desgrudassem um do outro.
Hugo pediu que a esposa fechasse os olhos antes que entrassem no apartamento alugado.
Bruna, que cegamente confiava no esposo, atendeu ao pedido.
Em seus braços, o homem pegou a mulher, subiu com ela as escadas, abriu a porta do quarto, flores o enfeitavam, som melodiosamente romântico tocava ao fundo, o aroma remetia ao doce amor.
— Nem acredito que meu maior sonho hoje é realizado — Hugo se tornara um homem galanteador, perdera a franja que lhe garantia o aspecto infantil, mas as encantadoras covinhas continuavam a marcar presença em cada sorriso compartilhado. Atraiu a esposa para si, deu início aos primeiros passos da dança sincronizada com a suave música.
— Não existe maior prazer... — Bruna, que a cada dia se mostrava uma bela mulher, lançou o olhar apaixonado àquele que inegavelmente amava, acariciou os fios castanhos, entregou-se ao momento de paz e sossego.
— Promete que sempre estará ao meu lado? Promete que não importa o que aconteça não me deixará por coisa alguma? — dispensava beijos sobre o pescoço da amada, sentia-se o mais realizado dos homens por tê-la em seus braços —. Prometa-me isso porque não sobreviverei sem o seu amor.
— Prometo que o amarei enquanto aqui estivermos, enquanto aqui vivermos, alimento-me desse amor inigualável — mantendo os olhos fechados, recebendo as demonstrações de afeto daquele que nunca deixava seus intentos nem enquanto dormia, a mulher fez sua promessa, talvez não tivera refletido sobre o que prometia, algum dia teria tempo para isso.
Do pescoço, os lábios de Hugo procuraram os de Bruna.
Naquela noite separada apenas a eles, entregaram-se à paixão, renderam-se completamente ao amor, envolveram-se intimamente um com o outro.

Viveram tantas coisas juntos.
Construíram uma bela família.
Ensinaram aos filhos a nobreza do amor.
Mas agora estavam distantes.

A distância, contudo, não era física.
As almas já não conseguiam se comunicar.

De olhos fechados – ninguém sabia dizer quando fora a última vez que estiveram abertos –, Hugo era monitorado por aparelhos há três anos. Vítima de um acidente grave, não conseguia sair do coma.
Bruna, porém, cumpria com sua promessa. Durante os três anos se mantivera ao lado do homem que tinha rugas na pele, perdera a cor dos cabelos e o olhar já não exibia o brilho juvenil, mas ainda assim era o mesmo menino pelo qual se apaixonara, para o qual prometera ser fiel, com o qual era sincera.
Ficaria ao seu lado por quanto tempo precisasse.
Apenas a morte teria o direito de separá-los.
Amavam-se verdadeiramente.



<<>> 

Não perca, toda sexta, um novo conto!

Livros gratuitos:

Encontre o blog pelas redes sociais:

Obrigado pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários

  1. Olá , lindo conto , um amor verdadeiro o qual não se vê ou vive mais . Que só a morte tem direito de separar !!!

    ResponderEliminar
  2. Um maravilhoso conto falando sobre o amor, realmente quando ficamos longe da pessoas amada parece um eternidade, pois quando estamos apaixonada a única coisa que desejamo é ficar bem pertinho do nosso amor, lindo o conto, abraços.

    ResponderEliminar
  3. Realmente esse é o verdadeiro amor. O amor que tudo suporta, que não se abala e que enxerga a alma da pessoa e não que ela envelheceu, está doente ou seus defeitos. Passa por cima de tudo isso e se fortalece dia após dia. Lindo conto!

    ResponderEliminar
  4. Amores perfeitos e verdadeiros, só em contos como o que escreveu, pena que na realidade não é mais assim. Lindo conto, muito emocionante.

    ResponderEliminar
  5. Amei o conto, a escrita é super sensível e nos transmite exatamente o que é passado na escrita.
    Eu me identifiquei muito ♥

    ResponderEliminar
  6. Que linda história de amor! Esse sim é o amor verdadeiro, até que a morte os separem. Como disse o Gustavo, hoje em dia muitos casais não ficam muito tempo juntos como antigamente. Eu sou de antigamente, rsrsrs (39 anos de casamento).
    Abraço!

    ResponderEliminar
  7. Olá!Lindo conto,com uma bela história de amor,pois o amor de Hugo e Bruna é lindo e verdadeiro,quem ama cuida e fica ao lado da pessoa amada até nos momentos difíceis,onde a morte separa os corpos mas o amor eterniza.
    Nos dias atuais não vemos mais este amor verdadeiro,infelizmente.
    Entendo perfeitamente este amor,pois já estou com meus 42 anos de casamento e também espero que só a morte nos separe.
    Parabéns,belíssimo conto! Abraço!

    ResponderEliminar
  8. Ahhh o amor, inspira as mais belas coisas da vida, como esse belo conto! Sempre me encanto!





    wwww.meloleticia.com.br



    Redes Sociais




    Youtube


    Facebook


    Instagram


    Pinterest

    ResponderEliminar
  9. Que coisa mais linda e gostosa de se ler! Se vc escrever algum livro de contos ou algum romance, compro com certeza. Uma história linda, que exemplifica a frase "até que a morte nos separe".

    ResponderEliminar
  10. Que conto lindo e cheio de amor, me emocionou bastante lendo essa historia de amor.
    Apesar de não ter um final feliz, foi uma amor que sobreviveu ao tempo e ela continua ali ao lado dele até o fim.
    Bjinhos,
    www.prosaamiga.com.br

    ResponderEliminar
  11. Oi,tudo bem ?

    Um conto lindo sobre o amor, para adoçar nosso dia. Gostei bastante e já quero mais posts assim.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!

Mensagens populares deste blogue

[Conto] Vazias de Amor

[Conto] Homens de Paz

[Conto] Fascínio Coibido