[Conto] Acorrentados


Há muitos anos, em uma sociedade com rígidas e resistentes regras, existia uma jovem chamada Luara. Filha do mais poderoso barão, cobiçada pelas mães de tantos rapazes predestinados a assumirem os negócios de suas famílias, era também alguém de revolucionário coração que, cansado das ordens injustificáveis, anseia por alterar tudo que foi construído ao longo das gerações.
Mas como combater?
Como deixar de ser vista como mero objeto nas mãos de homens opressores e arrogantes? Como convencer as caladas mulheres quanto aos direitos e à dignidade que mereciam apalpar? Como se levantar diante toda uma civilização escrava de discursos dominadores e ultrapassados?
Sentia-se fraca diante enorme desafio.
Até conhecer o formoso, gentil e humilde Lucas.
Apesar de conhecerem a lei que os governava, os jovens apaixonados não ousaram confrontar o imbatível amor que entre eles nascia e os envolvia, seria inútil, cansativamente inútil buscar fugir do inevitável.
Entregaram-se aos sentimentos.
Deixaram-se levar pelas muitas e intensas emoções.
A cada dia suas almas se conectavam mais e mais.

Porém, o mesmo amor que nos fortalece e enche de coragem para que vençamos quaisquer estigmas, é o que nos impossibilita de imaginar as consequências das escolhas que fazemos em nome de um sentimento tão devastador quanto ele.
Esqueceram-se de que forças fatais os rondavam.
Subestimaram a capacidade dos maldosos em descobrirem o romance que tão intensamente às escondidas viviam.
Augusto, o terrível barão, não demorou a descobrir os passos da filha que prometera a uma família influente, jamais voltava atrás em seus acordos e em nenhuma hipótese permitiria que o forçassem a posturas contrárias ao que previamente firmou. Evitou escândalos e discussões, evitou revelar o que sabia, apenas marcou um jantar no qual oficializaria o destino da jovem mulher.
— Não há mais o que esperar, nossos filhos são dois adultos e nem vimos o tempo passar, é chegada a hora de combinarmos o casamento — sem qualquer cerimônia o barão informou sua decisão —. Luara, eis o seu esposo.
À mesa, ninguém questionou, ninguém se quer vestiu um semblante de espanto, pena ou repulsa, reagiram da forma mais passiva e conformada possível, afinal, sempre foi daquele jeito, sempre os homens ditavam a vida de suas mulheres tidas como simplórias propriedades.
Lembrou-se de Lucas.
A revolucionária, pela primeira vez e para espanto dos presentes, levantou-se bruscamente, encarou o pai com severidade, desafiaria o ultimato patriarcal, agrediria os valores de uma sociedade estagnada.
— Quando fui questionada quanto a minha intenção de casar-me? Em nenhum momento! Por qual razão acreditou que decidiria algo tão importante que diz respeito somente a mim?! Recuso-me a continuar no silêncio. Viver infeliz jamais será o meu propósito!
— Aconselho que reavalie suas palavras e procure ouvir o que diz antes de pronunciar qualquer fala, não pedi sua opinião, que manifeste seus pensamentos, apenas comuniquei algo que tenho todo o direito de decidir e não será você quem mudará isso!
— Sempre há uma primeira vez para tudo, o que nunca imaginei é que seria a primeira a contestar suas ordens, não haverá casamento e se não quiser ser motivo de falatórios por conta do escândalo que causarei, acatará minha decisão! — lançando os talheres sobre a mesa deixou o ambiente, ficou o silêncio e a surpresa naqueles que assistiram à cena tão anormal.
O barão, no entanto, jamais se rebaixaria às ordens de uma mulher, nem que fosse a própria filha, alguém que compartilhava do seu sangue e não pouparia esforços até que suas determinações fossem fervorosamente seguidas.
Adentrou os aposentos de Luara tão logo os convidados se retiraram.
Encarou-a diretamente nos olhos.
— Dê-me um bom motivo para reconsiderar meus conceitos — a voz grave soou aos ouvidos sensíveis.
— Dizer que a vida pertence a mim e que, portanto, sou dona dos meus próprios caminhos não é o bastante? — não se intimidou, falou ao pai de igual para igual.
— Lembra-se de quando me viu caçar e do quanto implorou para que eu poupasse a vida de um simples e inofensivo coelho? — o barão trouxe à tona uma antiga lembrança.
— É claro...
— Não queira assistir ao mesmo evento outra vez, garanto que já não atenderei ao seu clamor e o seu bichinho adorável será privado de ver o dia amanhecer — apertou a perna da filha com força o bastante para lhe causar angústia, deixar seu aviso —. Sabe do que estou falando, meus olhos tudo percebem e meus ouvidos tudo escutam...
A ameaça estava feita.
A perigosa ameaça.

Lançando pedras sobre o rio e vendo-as afundarem tão logo tocavam a superfície da água, Lucas escutou os passos sobre as folhas caídas ao redor da mata, aguardava por eles, não hesitou em receber a amada com o beijo quente de todos os encontros.
Ciente de que aquela era a última demonstração de afeto, Luara se entregou aos lábios do galanteador rapaz, até que se afastou bruscamente, empurrou o amante para trás e, com os olhos marejados, proferiu as palavras que pensou nunca declarar.
— Temos que nos separar...
Lucas não compreendeu de imediato, encarou a mulher pela qual se apaixonara exibindo confusão no olhar, como duas pessoas que se amavam daquela forma teriam que se afastar de repente? Seria isso possível? Claro que não!
— Por que disse isso?
— Se quiser continuar vivo terá que me abandonar... — não resistia aquela insuportável distância, rendeu-se ao abraço afetuoso e protetor do único capaz de lhe garantir segurança e paz, permitiu que as lágrimas caíssem bruscamente —. Ele exigiu que me casasse com alguém que nem conheço, sabe sobre nós e prometeu que o machucaria se eu me recusasse às suas ordens. Não suportaria essa culpa. Não sobreviveria sabendo que sofreu alguma dor por me amar. Prefiro vê-lo vivo, nem que para isso precise renegar minha própria felicidade!
O jovem comerciante, alguém de espírito trabalhador e coração aplicado, apertou o que poderia ser o derradeiro abraço, intensificou-o, sentiu as lágrimas densas molharem sua camisa.
Mas não desistiria daquele amor.
E se Luara o amasse de verdade também não desistiria.
— Pode parecer loucura, uma decisão difícil de escolher, mas tenho a solução. Se aqui não podemos nos unir que outro lugar nos conceda essa dádiva! Estou disposto em fugir com você e cumprir a mais importante das promessas que fiz, fazê-la a mais realizada de todas as mulheres!
Partir a destinos desconhecidos, deixar para trás uma história vivida, afastar-se de pessoas que valiam à pena. Tudo isso pesou no coração da jovem mulher que não se deixou abalar por inseguranças, queria ter o amor de Lucas, desejava amá-lo por todo o sempre. Ciente de que sua escolha a forçaria a importantes renúncias, a filha do temido barão aceitou a proposta, quem sabe um dia teria a chance de retornar e mostrar o quanto era feliz? Naquele momento o que de fato importava era viver seu maior sonho.

Na calada da noite, quando todos deveriam estar rendidos ao cansaço, Luara escalou as paredes da fazenda, libertou-se da prisão que a impossibilitava de uma vida plena.
À cavalo, Lucas a aguardava.
Cavalgariam contra o vento.
Partiriam rumo ao amor.

Tão logo adentraram a estrada ouviram disparos violentos.
Assustado, o animal passou a ignorar os comandos do cavalheiro, penetrou a mata à procura de refúgio, quando finalmente se acalmou voltou a dar atenção às investidas de seu dono.
Luara gemia.
Suas vestes estavam manchadas.
Seu corpo tremulava e suava.
Enfraquecia.
Fora atingida.
Com a ajuda do lampião que garantia luz em meio à escuridão, Lucas acolheu a namorada em seus braços, sentou-se sobre a relva, repousou o corpo que desfalecia em seu colo, identificou que o disparo fora direto ao peito da amante, um disparo que deveria tê-lo atingido.
— Precisamos voltar... — contra sua vontade as lágrimas rolavam desesperadas —. Você precisa de um médico!
— Não, não há o que fazer... — com dificuldade para respirar, Luara abriu um sorriso gentil, seus olhos se esforçavam por contemplar o rosto do bondoso rapaz, a última visão que teria —. Não daria tempo... — gemeu pela fisgada que sentira.
— Precisa ser forte! — tentou erguer a jovem, mas ela já não conseguia reagir —. Precisa continuar ao meu lado...
— E eu estarei... — tocou o peito do estimado guerreiro, alguém que nunca a decepcionaria —. Não deixe de acreditar no que vivemos e ajude outras pessoas a se libertarem da opressão, sabe que esse sempre foi o meu sonho, ser livre, livre para amá-lo... — as mãos frias tocaram o rosto molhado por lágrimas, era o derradeiro toque —. Partirei feliz...
A mão perdeu sua força.
Angustiado, Lucas deitou-se sobre a mulher.
Jurava vingança em meio ao pranto.

Unir-se-ia a tantos outros injustiçados para que as correntes fossem arrebentadas.

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Comentários

  1. oi!
    Eu sempre fico encantada com suas historias :D parabéns você escreve super bem.

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  2. Muito parabéns pelo seu talento, amei a historia realmente o amor fortalece tudo!

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  3. A historia fala de um amor verdadeiro , onde a promessa de estar juntos té apos a morte esta firmada . seus contos me facinam , pela criatividade e escrita . Parabens.

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  4. Infelizmente nos dias de hoje ainda uma boa parte da sociedade é rígida, quando se trata de família, muitos homens ricos não querem que os filhos se envolvam com pessoas de classe baixa. Mais quando existe o amor as leis, regras não tem como matar o amor, esse conto expressa a força do amor, abraços.

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  5. Gente, mas que história intrigante e emocionante também. Você realmente escreve muito bem!
    Louca para ver o próximo.

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  6. Confesso que não estava à espera desse desfecho, fiquei com muita pena da Luara. Infelizmente sua vida foi ceifada por conta de sua coragem em buscar sua felicidade. Acredito que Lucas vá lutar por justiça, vou aguardar os próximos capítulos.

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  7. Infelizmente ainda existem essa separação de classes o que é triste, mas quando o amor fala mais alto tudo é igual.

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  8. O amor verdadeiro é intenso e não aceita nenhuma amarra. Diante desse desfecho, Lucas ganhará mais força para mostrar a magnitude de seu sentimento que jamais se apagará.

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  9. Como se diz vale tudo no amor e na regra. Porém há excessões não é! Vou aguardar o desenrolar dessa saga!

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  10. Olaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
    Que escrita lindaaaa <3
    Ai o dinheiro tem sempre de estragar tudo. Ao menos, paga as contas para se redimir...
    Beijokitaz









    www.devaneiosdemissl.com

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