[Conto] "Tenha misericórdia..."
De cabeça
baixa, olhos estáticos, pensamentos distantes, caminhava pelo prédio que
cheirava a castigo, que soava maldade, que abrigava gemidos de dor, gritos de
ordem, ouviu em seus ouvidos um doce pedido, o que machucava sua alma,
desmantelava seu coração.
“Tenha
misericórdia, pai...”
Roberto
era um metalúrgico muito exigente em seus relacionamentos, cumpria acordos,
zelava pela confiança das pessoas e prezava por manter as boas aparências
diante da sociedade. Era um homem rígido, um tanto machista, de sua forma
confusa amava a esposa, quem recebia seu amor de forma nítida era Paco, o filho
com o qual muito se divertia, do qual esperava se orgulhar grandemente, naquele
que colocava expectativas para que se tornasse um grande e honrado homem.
Além
de metalúrgico, era um brilhante carpinteiro, bastante requisitado em sua
região, possuía clientes em lugares longínquos, sua fama corria pelos móveis
que produzia, não deixava de ensinar ao filho a atividade que aprendera de seu
pai que aprendera com o avô que fez questão de suplicar para que a tradição
jamais se acabasse.
Paco
crescia como qualquer criança, cheio de energia para aventuras, disposição para
descobertas e com uma sensibilidade incrível para ajudar o pai nos detalhes que
embelezavam as cadeiras, ornamentavam as estantes e deixavam irrecusáveis os
bancos de balanço. O talento corria em sua veia de uma forma muito mais
sofisticada.
Tornou-se
um adolescente adorável, querido entre os amigos, estimado pela vizinhança e
admirado pelos parentes, sempre disposto a ajudar, a estender a mão inclusive
aos que o pai considerava indecentes e por esse motivo ouvia sermões cujo
significado não conseguia encontrar, em seu coração acreditava que todas as
pessoas eram dignas de amor.
Amadureceu.
Por
volta dos dezessete anos fez uma descoberta que mexeu com o seu ser, que atraiu
pensamentos turbulentos e criou inúmeras dúvidas, incertezas e fez nascer um
medo que jamais imaginou sentir: medo do próprio pai.
Quanto
mais o tempo passava mais se sentia sufocado e angustiado por guardar um
segredo que se tornava insuportável de manter, por guardar um segredo que
transformaria o modo de muitos o enxergarem, que em alguns despertaria repulsa,
em outros espanto, tinha a noção de que poucos o apoiariam em sua essência,
naquilo que ele era, mas precisava negar.
Nunca
foi de esconder a verdade.
Nunca
foi de viver escondido dos pais algo que quisesse.
Sempre
confiou neles para qualquer desabafo.
Confiaria
mais uma vez.
Sentados
ao redor da mesa, curiosos pelo que Paco tinha a declarar, imaginando até mesmo
que o filho conquistara alguma bolsa pelo ótimo desempenho escolar, seus pais
balançavam as pernas, sorriam ansiosos, se incomodavam pelo tamanho suspense
criado.
—
E então? — Roberto questionou —. O que é de tão importante para nos reunir
dessa forma?
—
Primeiro quero que saibam que meu amor por vocês é maior que qualquer desejo,
supera qualquer outro sonho e por isso preciso ser transparente, verdadeiro,
preciso confiar a vocês cada passo que pretendo dar, cada conquista que venha a
ter, sempre moraram, moram e morarão no meu peito — os olhos esverdeados não
puderam conter as discretas lágrimas que atravessaram o sutil sorriso.
—
Também te amamos, meu querido, sempre poderá contar com o nosso apoio nos
caminhos que deve seguir — Eunice, a sensível mãe, acariciou as mãos do filho,
ofertou seu olhar de compreensão, acima de tudo queria vê-lo feliz.
Roberto,
no entanto, percebendo o teor sentimental daquela conversa, preferiu o
silêncio, preferiu avaliar com cuidado tudo o que ouvia, criava hipóteses, não
eram as melhores.
—
Tem sido muito difícil tomar a decisão de revelar a vocês o que está aqui
dentro, o que todos os dias me pressiona a contar a verdade, a desabafar meus
intentos, tem sido cansativo guardar um segredo que não aguentaria ocultar por
muito tempo, esconder algo que faz parte de quem eu sou, do que represento, do
que quero viver.
—
Aonde quer chegar? — a grave voz do pai soou imperativa.
Paco
gaguejou.
O
pranto travou sua garganta.
Os
lábios estremeceram e o coração balançou.
As
mãos foram recolhidas.
Os
ombros encolhidos.
O
rosto abaixado.
—
Paco... — Eunice já sabia, ninguém precisou lhe contar, sempre soube a verdade
oculta, não se deixou dominar por muitos conceitos que julgava inúteis, abrir-se-ia
ao filho, seria a mãe que ele precisaria.
O
jovem garoto ergueu a face.
As
lágrimas o tomavam.
—
Vocês sabem — a voz fraquejou —. Eu não preciso dizer...
A
louça saltou.
A
mesa foi duramente golpeada.
Bufando
iradamente, passando a mão sobre os olhos como se a visão estivesse agarrada,
sem conseguir ordenar os furiosos pensamentos que subiam à sua mente e
aceleravam o coração, Roberto dirigiu o olhar severo ao filho, esqueceu-se do
quanto o amava, das alegrias que conquistara, dos elogios e parabenizações que
recebia por ser o pai de um jovem tão querido e admirado, encarava-o como se
fosse um abominável inimigo.
—
É a sua escolha?
—
Eu não escolhi... Apenas sinto... — respondeu em lamento.
—
Não pode estar falando a verdade, precisa ser muito imbecil para dizer uma
coisa dessas olhando para a minha cara, quem colocou isso na sua cabeça? — não
aceitaria, se recusaria ao que tinha por humilhação, demonstraria toda a
repulsa que era capaz de sentir —. Quem foi que o encheu de dúvidas perversas?
— segurou o braço do filho, pressionava-o com determinada força, queria mais
que tudo estar passando por um pesadelo, queria despertar e perceber que tudo
não passava de um sonho maldito.
—
Não são dúvidas, é a verdade que está dentro de mim, ninguém precisou me
manipular ou seduzir, descobri por mim mesmo! — não acreditava que pudesse ser
tratado como um criminoso apenas por ser diferente da maioria, mesmo com todo o
amor que compartilhava agora era visto como um terrível meliante.
Um
tapa.
Na
face.
Paco
caiu da cadeira.
Eunice
se levantou na intenção de conter o esposo.
—
Roberto, precisa se acalmar, precisa entender que nossos filhos seguem caminhos
opostos aos nossos, não são como nós, possuem os próprios meios para serem
felizes e se sentirem realizados.
—
Não... Meu filho não me garantirá tal desgosto! — a voz soava firme e fria,
impiedosa.
—
Que desgosto, meu esposo? Todos o amam, chegam a dizer que o desejavam ter como
filho, vai deixar que uma ignorância ultrapassada seja maior que todo o orgulho
que ele nos dá?! — tentou convencer, mas foi empurrada.
—
Sabe o que penso de pessoas como você, não sabe? Para mim são como vermes
capazes de nos garantir as piores doenças, as mais humilhantes vergonhas, são
dignos de serem extirpados! — levantou o filho pelo colarinho, fixou os olhos
ardentes contra os assustados, intimidava-o grandemente —. Vou lhe dar a última
oportunidade para que volte atrás e me prometa manter essa loucura bem
escondida!
Paco
permaneceu em reflexão, não seria capaz de se esconder atrás de uma vida que
não lhe pertencia, não poderia viver episódios que a sociedade esperava, seria
infeliz, faria outras pessoas infelizes, não conseguiria negar quem era.
—
Somos diferentes, nenhum de nós é completamente igual e as pessoas precisam
entender que nem todos trilharão pelo mesmo caminho, não teremos os mesmos
pensamentos, sempre divergiremos em algum ponto... Não posso prometer o que não
serei capaz de fazer.
—
E eu não passarei pelo que não posso suportar — jogou o filho contra o chão,
subiu em seu corpo, passou a distribuir socos ferozes —. É isso o que merecem!
— gritava em meio ao choro de raiva —. Custa controlar seus desejos doentios? Custa
não se transformar em um animal desprezível? — mantinha-se nas agressões —. Prefiro
ter um filho morto a servir de zombaria!
Sentindo
o coração arder, vendo o filho se debater sem conseguir liberdade, recebendo
hematomas pelo corpo, tendo o resto deformado por feridas desumanas, cuspindo
sangue e quase engasgando com ele, Eunice avançou contra as costas do esposo,
mas foi assustadoramente lançada para trás pelo homem descontrolado, bateu a
cabeça contra a parede, caiu desmaiada.
Paco
não aguentava mais.
Sua
alma ardia em indignação.
—
Tenha misericórdia, pai... — foi a última súplica.
—
Vá para o inferno!
Os portões se
abriram.
O homem cabisbaixo
cumprira toda a pena.
Não era mais
castigado pelos homens por um assassinato frio e sem justificativas.
Mas sua
consciência era oprimida por enorme culpa: não soubera amar quem acreditava no
seu amor, não pôde aceitar quem compartilhava do seu sangue, antes se vestiu de
arrogância e destruiu o próprio filho, o único que em todos os momentos estaria
ao seu lado, em nome de preconceitos e da preocupação com o que os outros
falariam, outros que nunca mais o procuraram, que esqueceram sua existência.
Não suportava
aquela culpa.
Esperou anos
por aquilo.
Subiu no
edifício abandonado.
Jogou-se da
altura de mais de cem metros.
“—
Tenha misericórdia, pai...”
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Seu conto é muito verídico pois o pré conceito é distruir e muitas vezes maior que o amor que as pessoas dizem ter. Pois o amor de pai e mãe supera qualquer adversidade. A famlifa e a base que tem que ficar inabalável .
ResponderEliminarA família é super importante na criação de uma pessoa, se você não tem amor você cresce sem saber demostrar... E infelizmente isso ocorre em varias lares onde existe violência.
ResponderEliminarA família é a coisa mais importante que uma pessoa tem, muitas vezes os filhos vão para uma direção errada, mais o amor de um pai e uma mãe não muda, abraços.
ResponderEliminarMuitas vezes os pais afastam mais ainda seus filhos com atitudes grosseiras e com falta de compreensão em corrigir, triste texto...
ResponderEliminarSeu conto transmite o que infelizmente tem feito parte da nossa sociedade nos dias atuais. Temos que amar mais e julgar menos
ResponderEliminarFamilias saudáveis , que dão amor fundamental tem grande probabilidade de semear outra familia saudável.
ResponderEliminarMuito chato essa situação. Sou incapaz de entender o quanto coisas tão pequenas abalam tanto o "amor" de algumas pessoas. Família é algo muuuuito importante, mas se não te respeita, se não respeita sei caminho, sua história, não é família
ResponderEliminarAfinal, nosso sangue até pernilongo tem!
O Antigo Testamento está repleto de referências ao estreito relacionamento entre pais e filhos. “Treine uma criança no caminho que ele deve seguir e, mesmo quando for velho, não se afastará dela”O amor de um pai a um filho não muda mas as crianças geralmente são rebeldes não demonstram o amor que os pais merecem.
ResponderEliminarOlá, tudo bem?
ResponderEliminarGostei muito do seu conto, ficou bem escrito e super reflexivo. É necessário amar mais e julgar menos, mas isso está completamente invertido nos dias de hoje.
Abraço!