[Conto] Sorriso Fatal 2
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(Aviso! Essa história pode conter conteúdo perturbador a alguns leitores)
O vento gelado fazia sua capa dançar, erguer-se, descontrolar-se com o ritmo agitado. Seus lábios eram pressionados um contra o outro e de sua testa escorria o suor provocado pela força que investia nos braços tremulantes. As pernas queriam fraquejar em virtude do peso a elas imposto, mas se mantiveram firmes, irredutíveis, avançando a passos certeiros.
Seus olhos não demonstravam nenhuma reação a não ser o ódio de, no meio da madrugada congelante, ser obrigado a sair da cama para resolver um problema que precisou provocar.
Parou atrás de grades metálicas que serviam de segurança.
Abriu um discreto sorriso.
E lançou o corpo que carregava contra as águas agitadas que sob seus pés transcorriam.
Alguns dias antes
Os noticiários não falavam de outra coisa se não do desaparecimento injustificável e inesperado de Jessica Taylor, filha de um dos mais poderosos empresários do país que desde o afastamento da moça se arrependeu por não ter dado crédito aos seus pedidos e admitido que ela trabalhasse ao seu lado. A justificativa sempre fora que ela não era um homem, que somente homens eram capazes de administrar empresas tão bem conceituadas, o empresário teve que assumir o arrependimento pelo erro passado.
— Senhor — um de seus subordinados o fez despertar dos pensamentos que assolavam sua mente —. Tem alguém na linha. É da polícia.
Mais do que depressa, Donald Taylor tomou posso sobre o telefone que descansava em sua mesa, queria notícias, queria sair daquela angústia que a falta de informação causava, queria ter razões para tornar a sorrir e a oportunidade de corrigir o passado.
— Senhor Taylor, precisamos conversar — a voz soou densa.
— O que aconteceu? Encontraram Jessica?
— Sim, encontramos — a voz fez uma pausa incômoda —. Não gostaria de conversar pessoalmente?
— Diga logo o que sabe! — irritou-se com tanto suspense.
— Ela está morta.
As esperanças se esvaeceram. Não teria a oportunidade que tantas noites passara em claro suplicando para que tivesse.
A praça estava cheia de crianças enérgicas que brincavam incansáveis, que pulavam de um lado ao outro sem demonstrar nem uma diminuição na motivação infantil, que provocavam seus pais a resistirem ao próprio cansaço para correrem atrás delas ou para entrarem na brincadeira ou para não as perderem do campo de visão. Jake Summers queria saber de onde vinha tanta energia, queria entender por qual razão não conseguiam simplesmente ficar em um canto pensando sobre a vida.
Ou, pensando nos próximos passos.
Ele não estava ali pelas crianças, não era de sua natureza nem de seu feitio fazer companhia a uma cambada de bagunceiros como ele mesmo as chamava, sua presença naquele lugar aberto, envolto pela natureza, rodeado pela positividade de grupos de amigos ou pelo romantismo de casais apaixonados era por uma razão que jamais deixaria de incentivá-lo em suas peripécias. Observava uma moça em especial, a enfermeira que conhecera no hospital onde começara a trabalhar há poucas semanas como um dos responsáveis pela manutenção do sistema de informática. Encantava-se pelos seus traços sutis, por sua maneira exuberante de sorrir, pela delicada forma com que gesticulava com as mãos ao falar. Mas o que mais atraía nele era o desafio.
Anne Stevens, apesar do pouco tempo de carreira, se tornara uma das enfermeiras-chefe no bem falado hospital. De reputações adoráveis, zelava não apenas pela vida profissional, como também pela pessoal. Amava o namorado. Sonhava com um futuro no qual ele estaria presente, o qual não poderia acontecer se ele não estivesse presente. Não dava atenção às paqueras de outros rapazes, nem dera muita abertura às tentativas frustradas de Jake quando a convidou para almoçar ou para algum passeio ao fim do expediente. Seu compromisso era com Levi Porter, aquele que estava ao seu lado naquela tarde outonal, acariciando seu rosto, despertando seus sorrisos e sendo terrivelmente invejado por Jake Summers.
Discreto, usando os óculos escuros que o deixavam com ar mais atraente, fingindo que lia um livro sobre as aventuras de uma viajante no tempo que se passava na Escócia, um dos prediletos de Anne, algo descoberto quando entrou em sua sala e observou com atenção cada um dos detalhes, ao invés de se deliciar com as palavras ali inscritas, dirigia sua atenção ao casal que parecia feliz, que parecia perfeito, o casal que ele precisava separar.
Desviando o olhar por alguns rápidos segundos, se viu mais uma vez observado pelo homem esquisito que dias antes vira seguir seu carro. Bufou irritado. Detestava que apenas o analisassem sem nada dizer, sem se aproximar, sem abrir o jogo de uma vez por todas. Fechou o livro. Levantou-se. E seguiu até o estacionamento.
— Pensei que continuaria a apreciar a paisagem a distância — pelo reflexo no vidro, viu o homem finalmente de perto —. Não precisa ter medo de se aproximar — virou-se ao perseguidor.
— Jake Summers? — o homem interrogou.
— Em carne e osso — acendeu o cigarro exibindo o sorriso provocador.
— Tenho algo para você — do casaco que o vestia tirou um envelope, mas junto dele sacou o revólver —. Deve comparecer nesse endereço no horário marcado — arrancou dos dedos de seu ouvinte o cigarro aceso, tirou também os óculos que o impediam de encarar os olhos diretamente nas íris —. Há mais por aí observando seus passos, caso pense em fugir.
Incomodado, confuso, Summers pegou o envelope, encarou o desconhecido, mas nada disse, não retrucou, se tinha algo que ele fundamentalmente sabia era que as palavras precisavam ser poupadas para momentos específicos.
O relógio se aproximava das onze da noite, por conta do frio as ruas estavam vazias, apenas alguns poucos pedintes passavam pelo monumento famoso que era estudado por Jake, um apreciador de arte, um artista diferente dos outros, alguém com estranha sensibilidade. O horário combinado já havia passado. Talvez estivessem zombando de si, brincando com o perigo, não tardou para se convencer de que tudo não passara de uma grande sabotagem. Dando as costas à estátua precisou interromper os próprios passos quando encarou o homem conhecido lhe apontando um revólver.
— Jake Summers? — o sujeito indagou.
— O único — respondeu indiferente, como se ignorasse a presença de uma arma capaz de tirar a sua vida, não temia a morte nem poderia demonstrar tal temor caso o sentisse, aprendera que nunca deveria se mostrar vulnerável ao inimigo.
— Conheceu Jessica Taylor?
— O que quer saber?
— Sou o pai dela — Donald anunciou a informação que Summers já conhecia, ele esperava por aquele encontro, sempre esteve preparado para a consequência de uma aventura perigosa que assumiu para si.
— Acompanhei os noticiários. Sinto muito — avançou alguns passos.
— Pare aí! — o empresário ordenou —. Sei que estava com ela.
— Estive com muitas pessoas nos últimos dias.
— Estavam em um relacionamento.
— Não... Não pode ser... Estavam demorando — desenhou o sorriso despreocupado —. A filha desaparece e o principal suspeito é o namorado que nada lhe fez a não ser dar amor, um amor que nem sempre ela teve, um amor que deveria ter recebido na família, mas não recebeu...
— Eu ainda não o acusei de nada...
— Não é necessário, senhor Taylor — falou com desdém —. Sabemos como são as coisas, não precisa bancar o investigador. Você me procurou, mandou que ficassem me vigiando, porque tem certeza de que sou o responsável pelo sumiço da sua filha. Mas tudo o que fiz foi entendê-la, ela queria isso, queria ser entendida — falou como se a conhecesse mais que qualquer pessoa, de fato a conheceu, com um propósito insano —. Se quiser mesmo travar essa guerra, se quiser mesmo um bode expiatório para compensar a sua culpa, procure outro babaca, por que esse não está disponível.
— Não posso falar com certeza, nem comprovar o que penso, mas dentro de mim algo diz que você tem relação com tudo o que aconteceu — Donald, tendo os olhos encharcados, perdendo o controle sobre as mãos que passaram a tremer, sentia sua alma ser afligida pelo encontro com aquele que lhe despertava repulsa de uma forma nunca antes experimentada —. Só quero que saiba que eu estou em cima de você, analisando cada passo que dá, estudando sua vida a fundo e no primeiro vacilo que der, no primeiro descuido que mais cedo ou tarde vai acontecer, eu destruo você! — guardou o revólver, afastou-se do inimigo que fazia.
— Quer um conselho? — Jake aumentou a voz interrompendo os passos do empresário —. É melhor não errar, porque eu não perdoo erros.
No ateliê, sendo envolto pela conhecida e repetida 9ª Sinfonia de Beethoven, Jake observava os quadros que pintara, lembrava-se com perfeição de como conseguira a inspiração e o material de suas obras, uma forma peculiar e pervertida de conseguir. Separou uma tela em branco. Pensou consigo mesmo que a reservava para a próxima vítima.
Chorava.
Chorava feito um sujeito desamparo, abandonado, sem esperança, sem caminho a seguir, sem um destino que o abraçasse, sem uma forma de encontrar prazer na vida. Chorava como se aquilo fosse o que lhe restasse, como se fosse tudo o que tinha direito a fazer.
Não chorava em qualquer lugar.
Derramava as fingidas lágrimas em um lugar estratégico, onde sabia que a enfermeira passaria e não negaria ajuda, afinal, era para aquilo que estava formada, para nada além de ajudar a quem necessitasse de ajuda fosse como fosse.
— Algum problema? — celebrou o objetivo alcançado ao ouvir a voz na qual desejava que fosse pronunciado seu nome.
— Nada demais... Desculpe... — soluçava, as palavras saíam abafadas —. Nada com o quê se preocupar... — enxugou o choro, demonstrou recuperar a postura, fingiu que não queria a atenção oferecida.
— Ninguém chora por nada — caindo na cena, sendo seduzida pelo enredo premeditado por conta da própria fraqueza, a enfermeira se sentou ao lado do TI na entrada do centro cirúrgico —. Pode confiar em mim...
Encarou a bela mulher antes de tornar a ser tomado por lágrimas que surgiram tão facilmente como haviam desaparecido.
— Vi uma mulher — apontou para o local onde eram realizadas as muitas operações —. Lembrei-me de alguém que entrou por aquelas portas e nunca mais saiu, nunca mais pude ver, nunca mais pude ter a companhia — levou o olhar para onde apontava como se as lembranças o paralisassem —. Era minha mãe — falou com a voz rouca voltando a atenção à enfermeira —. Sabe o que é passar uma vida inteira com saudade de alguém que você ama? Com o desejo de tornar a vê-la e abraçá-la?
— Sei... Sei muito bem... — aquela era a sua história, algo estudado por Summers, friamente descoberto e agora usado. Não resistiu ao abalo, envolveu o homem aparentemente frágil em um abraço amistoso —. É normal que se sinta assim, angustiado, a dor vem e vai, apenas precisa se acostumar com isso e verá que a dor dará lugar apenas a saudade...
— Talvez, talvez fosse mais fácil para alguém como você, como tantos outros, mas não para um homem como eu, um desconhecido, um solitário, alguém que não pode dividir esse fardo com ninguém... — interrompeu as próprias palavras —. Ignore o desabafo... — tornou a enxugar as lágrimas forçando um sorriso, o mesmo sorriso que a tantos conquistara, o sorriso que agora escamava os olhos de Anne —. Não perca tempo com isso, sei que tem muito o que fazer...
— Era por isso? — sentiu-se culpada —. Era por isso que me convidada para um almoço? Queria alguém para conversar...
Ficando em silêncio, Summers apenas encolheu os ombros em um gesto que denunciava que a mulher desvendara seus supostos interesses.
— Desculpe-me... — tentou se livrar do sentimento desagradável que passara a sentir —. Quero dizer, talvez possamos marcar alguma coisa...
— Não quero que faça isso por pena...
— Não. Não é por pena... Imaginei bobagens, as pessoas podem sim se interessar por nós apenas com um propósito de amizade, ainda existem pessoas decentes — sorriu desconcertada —. Você precisa de amigos, posso ajudá-lo com isso...
— Se insiste... Que tal um jantar? — sugeriu —. Pode levar o namorado — apontou para a mão com aliança —. Será um prazer — não parecia mais o homem fragilizado, destruído por memórias —. Coloco o endereço em sua mesa?
— Tudo bem, pode ser — respondeu incomodada, não sabia se com a ideia de começar uma amizade tão de repente ou com o fato de ter ignorado o possível pedido de ajuda de alguém que tantas vezes o fizera —. Nos vemos então...
Seria uma noite perfeita caso os procedimentos fosse cumpridos, ao menos para uma mente doentia haveria razões de sobra para que a comemoração e a celebração fossem constantes.
A campainha tocou.
O anfitrião não deixou seus convidados se entediarem.
Recebeu-os com uma animação surpreendente, parecia animado por fazer novos amigos, conhecer novas pessoas, estava animado com um fato especial: seu sórdido plano se iniciava.
Os diálogos foram se desenrolando.
A cada minuto Summers deixava o ambiente mais aconchegante para que seus visitantes se sentissem confortáveis e seguros para se entregarem a uma bela noite entre seres humanos que queriam apenas uma coisa: boas doses de diversão.
— Foi assim que nos conhecemos — Levi finalizou a história —. Na detenção do colégio — provocou as risadas.
— Sinto falta dessa época, quando tudo parecia mais fácil, quando eu só me preocupava em ir bem nas provas bimestrais, mas que mesmo assim conseguia tirar os professores do sério ao ponto de ser suspensa — Anne enfeitiçava Summers com o seu passado aventureiro, com a energia em cada palavra —. O tempo passou e tudo mudou, menos uma coisa — juntou a mão com a do parceiro ao seu lado —, continuamos a nos amar — para o incômodo de Jake o casal se beijou —. E quanto a você? Nem mesmo uma namorada?
— O que iriam querer com um nerd como eu? — apontou para os objetos que enfeitavam as casas, todos remetendo a filósofos ou épocas históricas, desde quadros com frases impactantes até utensílios em desuso para o século vinte e um —. Não tive a sorte que vocês possuem, nem no amor nem na amizade, mas também não desisti de encontrar minha outra metade, como dizem, sei que ela está por aí em algum lugar, esperando para que eu a resgate! — sorriu da melhor forma que pôde —. Bom, se me permitem, tenho mais uma surpresa! — levantou-se —. Sobremesa de família! Aprendi com a minha mãe, tenho certeza de que serão surpreendidos!
Dirigiu-se à cozinha.
Quando as luzes se apagaram de repente e do lado de fora um barulho assustou quem o ouviu.
— O que houve? — falando baixo, sem saber o motivo para fazê-lo, Anne perguntou.
— Deve ser algum adolescente irresponsável — pegou a lanterna —. Eles sempre fazem esse tipo de brincadeira. Fiquem aqui, volto já.
— Vou com você.
— Levi... — a mulher tentou impedi-lo.
— Fique aqui — seu noivo orientou —. Voltamos já.
Os homens olharam ao redor do quintal, nada encontraram, começaram a caminhar pela casa, em sentidos opostos, um deles procurando pelo motivo do apagão e do estranho barulho, o outro aguardando o momento exato para o ataque que não poderia errar.
— Jake — Levi chamou pelo dono da casa —. Acho que descobri — analisou os blocos quebrados e o tambor amassado.
— Também acho — Summers falou em tom baixo —. É você, caro Levi. É você! — disparou contra o convidado sem lhe dar tempo para fugir, conseguindo êxito no que planejara, fazendo o corpo tombar sobre o mato que crescia no jardim e ficar escondido pelo breu da noite, disparou também contra o próprio braço.
Ao ouvir o segundo disparo, Anne saiu da casa, desesperou-se ao ver Jake baleado, perguntou pelo noivo com os olhos já apavorados.
— Eu tentei impedi-los, tentei evitar — falava ofegante —. Eles o levaram — colocava a mão contra o ferimento que causara em si mesmo na intenção de estancar o sangramento, apontou para o portão aberto —. Vá atrás dele — arriscou a sugestão —. Se tiver sorte conseguirá alcançá-los! Eu ligo para a polícia.
— Meu Deus! — levou as mãos à cabeça, não sabia se prestava ajuda ou se partia em busca daquele que amava.
— Vá, Anne, vá! — ordenou —. Vou ficar bem — encostou-se na parede. — Vá...
A moça apaixonada obedeceu.
Deixando para trás o objeto da sua busca.
Gemendo pela dor que parecia insuportável, fazendo o possível para vencer a si mesmo, Jake pegou o corpo desfalecido, investiu toda a força possível lutando contra a dor no braço atingido. Jogou o corpo no porta-malas do veículo. Trancou-o ali e se dirigiu ao hospital.
— Jake? — ao abrir os olhos encontrou o cobiçado rosto de Anne.
— Oi — falou enfraquecido, efeito do sedativo que precisou tomar para que removessem a bala de seu braço.
— Como se sente?
— Bem... — tentou mover o membro, sentiu a dor imobilizadora —. E Levi?
— Não pude encontrá-lo. Os policiais devem começar as buscas. Faz ideia de quem eram?
— Eu não sei... Seu noivo não parece ser do tipo que coleciona inimigos, quero dizer, não havia razões para o que fizeram.
— Não, não havia — abaixou o rosto relutando contra o choro.
— Anne — com o braço saudável levou a mão ao rosto que finalmente tocava —. Conte comigo — assegurou —. Não quero que nada de ruim aconteça, mas conte comigo.
— Está bem... — engoliu o choro forçando o sorriso desanimado —. Obrigada...
Recebera alta pela manhã depois de ter conversado com os policiais e contado sua fantasiosa versão sobre o que acontecera na noite anterior. Passou o dia contando as horas que se passavam e resmungando a cada fisgada que sentia no braço enfaixado. Finalmente a noite caiu. A madrugada chegou. Colocou-se a caminho da distante estrada de terra onde nenhum olho curioso poderia observá-lo.
Parou próximo da ponte que, acreditavam, suportava somente o peso de um homem, mas ele bem sabia que não era verdade
O vento gelado fazia sua capa dançar, erguer-se, descontrolar-se com o ritmo agitado. Seus lábios eram pressionados um contra o outro e de sua testa escorria o suor provocado pela força que investia nos braços tremulantes. As pernas queriam fraquejar em virtude do peso a elas imposto, mas se mantiveram firmes, irredutíveis, avançando a passos certeiros.
Seus olhos não demonstravam nenhuma reação a não ser o ódio de, no meio da madrugada congelante, ser obrigado a sair da cama para resolver um problema que precisou provocar.
Parou atrás de grades metálicas que serviam de segurança.
Abriu um discreto sorriso.
E lançou o corpo que carregava contra as águas agitadas que sob seus pés transcorriam.
Virou-se para retornar ao carro.
Não acreditava no que estava acontecendo.
Fora perseguido sem se dar conta.
— Donald Taylor — aproximou-se do próprio veículo —. Quanta obsessão — acariciou o braço machucado —. Confesso que dessa vez me surpreendeu.
— Disse que não perdoa erros — saiu da direção do carro que não lhe pertencia —, não queria desapontá-lo — mostrou o celular que exibia perigosa gravação —. De quem era o corpo?
— Não sei do que está falando.
— Não se faça de inocente! Poupe suas caretas surpresas quando for interrogado — deu às costas.
— Vai mesmo me denunciar?
— O que esperava que eu fizesse? — tornou a encarar o sujeito cruel —. Um acordo? Concedesse uma chance? Você não pensou em nada disso quando, sabe-se lá por qual motivo, assassinou a minha filha. Eu poderia matá-lo, poderia mandá-lo para o inferno, mas a morte para alguém como você não é o castigo ideal, antes dela você precisa sofrer, ser torturado, ser forçado a implorar pela morte e eu posso garantir o devido tratamento!
— Não duvido de que seja um homem influente, mas também não ouso duvidar da sua inteligência e do seu bom senso — avançou mais alguns passos, o suficiente para que a distância entre os falantes fosse de poucos centímetros —. Sua filha está viva. Enganar a polícia é tão fácil quanto manipulá-la.
— Seu desgraçado! — o empresário dispensou um soco contra a face do adversário —. Acha que pode ter algum poder sobre as minhas decisões? Acha que pode brincar comigo como faz com quem bem entende? — puxou os cabelos de Summers —. Conheço o tipo de gente que você é! — fechou a mão.
— Tudo bem, é seu direito bancar o ignorante, mas estará desperdiçando a chance de reencontrar sua filha se fizer o que planeja — gemeu quando Donald o soltou sem gentilezas —. Somente eu sei onde ela está, somente eu posso levá-lo até ela, eu!
— Isso é mentira! Eu vi o corpo!
— O corpo ou o que supostamente restou dele?
Taylor levou as mãos aos cabelos grisalhos com um ar de confusão. Acreditar ou não?
— Prove.
— Não, Donald, você errou e eu não perdoo quando erram, lembra? — ergueu-se do chão sentindo o braço latejar —. Se quiser encontrar sua filha será do meu jeito, não do seu. E agora, será que temos um acordo?
Continua na próxima edição...

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