Você me Amou
O que a vida nos reserva é sempre
uma incógnita. Nunca consegui compreender os caminhos que levam a determinados
destinos, eles não parecem regulares, concretos, objetivos, congruentes, como
um procedimento padronizado que encaminha sempre a um esperado resultado. São
caminhos cheios de curvas e bifurcações, esquinas e avenidas, escolhas e
consequências. Esse é o mantra. Cada escolha, infinitas renúncias. Cada
escolha, inumeráveis consequências. Acho que foi esse o erro que cometi, com o
qual demorei a aprender, o erro que tantos cometem, mas nunca são capazes de
ensinar o certo aos outros, porque nunca se acham responsáveis pelos fracassos
que suas vidas podem tomar.
Eu a amava. Ou mais que a amava. Se
pudesse passaria todo o tempo da minha vida ao seu lado, admirando-a, ouvindo
sua voz, recebendo seu toque e sentindo a textura de sua pele. Apesar de tudo,
de todas as discussões por motivos bobos, de toda a impaciência arrogante, de
todas as palavras amargas que poderiam ser evitadas, mas que foram ditas, eu a
amava como a mulher da minha vida. Quando estávamos bem eu a enchia de
paparicos, nunca me cansava de elogiar seu sorriso ou de engrandecer a forma
como cantava, mas quando agíamos feitos dois adolescentes egoístas, parecia que
o belo se tornava feio, que o encantador se tornava indiferente, que o sedutor
passava a ser repulsivo. O problema é que nunca consegui ser humilde o bastante
para tomar a iniciativa e fazer o pedido de desculpas. Às vezes eu estava
certo, talvez errado na forma de falar, mas certo na razão. Em outras eu estava
completamente errado, irracional , mas ainda assim me mantinha na posição de
detentor da verdade, irreconciliável, incorrigível. Se pudesse dar um conselho
aos mais jovens, àqueles que iniciarão agora a jornada que há muito iniciei,
diria para que fossem flexíveis, sábios, inteligentes da forma como não fui.
Não se deixem levar por coisas simplórias, por iras passageiras, mais
importante do que ter razão é estar em paz com aqueles que dizemos amar.
Nós nos conhecemos na faculdade.
Ela, com seu jeito tímido, tão envergonhada, sempre corada quando alguém
diferente se aproximava para conversar, concedeu a mim o prazer de sua
companhia, se é que poderíamos chamar o que aconteceu de concessão. Na verdade
ela foi coagida. A professora determinou um projeto de pesquisa, disse que
deveria ser realizado em duplas e deixou o melhor para depois, ela determinaria
nossos parceiros como forma de incentivar o entrosamento entre os colegas de
sala. Achei um pouco ruim no começo, imaginava que seria trabalhoso firmar uma
parceria com a moça cuja voz desconhecia, mas eu estava enganado, como fui um
tolo, não sabia que naquela oportunidade estava o início da minha história.
Depois do projeto que realizamos
fomos nos aproximando a passos largos, a mulher tímida, calada, dava lugar a
uma pessoa de talentos incríveis, de papo agradável e gargalhada gostosa. Certa
vez cantou para mim, só estávamos nós dois no parque da cidade, o sol já ia embora,
e ela cantou. Foi quando percebi que havia me apaixonado pela mulher que menos
considerei. Foi quando me vi rendido aos seus feitiços, aos seus delicados
gestos, à sua existência mais que
perfeita.
Foi numa noite em especial que
declarei meus sentimentos.
Convidei-a para jantar, na verdade
aproveitei a ocasião de ter sido convidado por outros amigos para um encontro
especial, então a convidei. Ela foi relutante, disse que não conhecia os
outros, que não se dava muito bem em encontros sociais, mas insisti, disse que
estaria ao seu lado e que me disporia a levá-la para casa assim que quisesse.
Ela aceitou. Para meu contentamento, ela aceitou.
Quando chegamos juntos reconheci os
olhares debochados e irônicos. Nunca tinham me visto com alguém antes, eu não
era do tipo que se fixava com alguém, queria me divertir, aproveitar a vida,
ganhar experiência. Por um tempo aquele projeto fazia muito sentido, mas quando
a conheci... Sempre tem aquela pessoa que muda seu jeito de pensar, de olhar
para o mundo, de imaginar o futuro... Sempre tem aquela pessoa que te faz mudar
todo o seu mundo para que ela possa se encaixar nele. Ignorei aqueles olhares.
Não havia nenhum compromisso entre nós, pelo menos até aquele momento.
Tudo foi agradável. As conversas
fluíram, ela foi se soltando, se simpatizando com os demais, se envolvendo nos
diálogos que se formavam. Gostaram dela. Chegaram a dizer na sua frente que
tinham uma imagem errada de quem ela era, uma imagem que há semanas eu havia
desconstruído. Outra coisa que pude aprender nessa vida é que não podemos ser
tão rígidos em nossas primeiras impressões, às vezes as pessoas estão
escondidas em camadas que evitam seu sofrimento, basta que se sintam seguras
para que possam revelar quem são.
No caminho de volta para casa ela
me agradeceu pela oportunidade, pela noite que nunca tivera, pelo papo que lhe
arrancara tantos sorrisos. E eu agradeci pela honra de ter sua companhia, de
ter todo o seu encanto ao meu lado.
Parei em frente a sua casa.
Antes que ela descesse, peguei em
sua mão.
Foi a primeira vez que eu senti seu
suave toque, o sutil calor que dela emanava, a textura agradável de sua pele.
Senti uma energia descomunal percorrer meu corpo. Nada tinha a ver com atrações
físicas, com desejos carnais, não sei explicar, mas acredito que naquele
momento nossas almas, até então adormecidas, despertaram, reencontraram-se,
reencontro de vidas passadas.
— Quero falar uma coisa.
— E o que seria? — com seu jeito
atencioso, carinhoso de ser, ela perguntou.
— Não quero assustá-la, por isso
não disse antes. Nem quero que acabemos nos afastando, sua amizade é muito
importante. Não haverá nenhum problema se você precisar ser sincera, diminuir
minhas expectativas, me fazer entender que tenho compreendido as coisas de um
jeito errado. Mas não posso mais me conter — tomei coragem. Nunca tinha
precisado daquilo antes, quando queria ficar com alguém simplesmente abria o
jogo com a maior cara de pau, mas daquela vez, daquela vez precisava ser
diferente, teve que ser diferente, foi diferente —. Eu me apaixonei.
Ela ficou me olhando, como se
esperasse por mais alguma coisa.
Mas eu não tinha mais nada a dizer.
Embora tivesse ensaiado aquilo mentalmente, montado os diálogos, as palavras
que usaria, os discursos que faria, meus pensamentos se silenciaram, foram
embora, fugiram desesperados.
— Diga alguma coisa... — falei
nervoso, lembro que sorri, mas foi um sorriso duro, forçado, minha vontade era
sair correndo com as mãos sobre o rosto para que ninguém notasse meu
desapontamento.
Mas ela não disse.
Abriu a porta.
Colocou as pernas para fora.
Ficou parada por alguns segundos.
Voltou as pernas para dentro.
Colocou a mão na minha nuca e me
atraiu para seus lábios.
Foi naquela noite que começamos
nossa história de amor.
E os anos se passaram. Como falei,
passamos por muitas experiências, boas ou não, amigáveis ou não, mas passamos
por muitas experiências, vivemos diversas emoções e compartilhamos os mais
vastos sentimentos. Brigávamos, reconciliávamo-nos e assim íamos vivendo.
Até aquele triste dia.
— Olha só quem se lembrou de ter
uma casa — falei com rispidez, não respondi seu cumprimento nem aceitei sua
tentativa de beijar minha face. Sempre fui ignorante, mas naquele dia fiz
tempestade num copo d’água, como dizem por aí, como fazem por aí, como constantemente
repetem ao redor do mundo.
— Amor, por favor, seja
compreensivo — ela falou com calma, a serenidade de sempre, o frescor que nunca
acabava —. Nossa filha precisou de meus cuidados. Como consegue ficar irritado
por isso?
— Nossa filha já é uma mulher
casada. Onde estava o marido dela?
— Você sabe como é o trabalho dele.
Quando é enviado para viagens não pode simplesmente negar, não pode se dar ao
luxo de recusar aos pedidos do chefe. Pense nos nossos netos. O que seria deles
sem esse emprego?
— E quanto a mim? Posso passar dois
dias sem a companhia da minha mulher? Meus sentimentos e minhas necessidades
não valem de nada?
— Você poderia ter me acompanhado.
Os meninos perguntaram do avô, tive que mentir, dizer que estava ocupado com um
projeto novo, não pude dizer que estava agindo como uma criança pirracenta.
— Então agora sou imaturo? —
desliguei a TV. Pela primeira vez, desde que ela atravessara as portas, olhei
em seus olhos —. Sinto falta da minha esposa e sou chamado de imaturo?
— Sentiu falta da sua esposa ou se
sentiu contrariado porque ela não atendeu à sua exigência ficando aqui e
deixando sua filha à própria sorte? Ela fez uma cirurgia! Será que consegue ter
um pouco de sensibilidade?
— Então agora sou um monstro?
— Você não é um monstro, mas está
agindo como um — levantou-se do sofá —. Vou me deitar, estou exausta. Espero
que esteja mais calmo se quiser me fazer companhia — percebi que ela não estava
disposta a discutir, mas não me importei com isso, permaneci na minha razão.
Decidi continuar no sofá. Não fui
para o quarto. Estava irritado demais. Na verdade, estava cego demais pela
minha ignorância para reconhecer o espírito solidário que habitava em minha
esposa, que a fazia renunciar o próprio conforto para estender a mão a quem necessitasse.
Adormeci na sala.
Acordei com o sol iluminando todo o
ambiente.
Geralmente era eu quem acordava
primeiro, arrumava o café e em poucos minutos recebia aquela que era o amor da
minha vida. Ela dizia que era o cheirinho do café que a despertava, mas tenho
para mim que ela gostava daquele mimo, esperava até o fim que eu terminasse
para então se levantar.
Mas naquela manhã não apareceu.
Ainda chateado pela noite anterior,
desisti de esperar. Fiquei solitário naquela mesa que com o passar dos anos foi
ficando mais vazia, quando nossos filhos foram embora, e que ficava cheia
apenas em ocasiões especiais, quando nos reuníamos e relembrávamos os velhos
tempos. Coisas que passam.
Acabei me preocupando. Pensei que
ela estava com fome, mas que não descera as escadas por também ter seu próprio
orgulho. Reconheci que talvez tivesse sido áspero demais, dramático ao extremo
e que precisava corrigir a minha infantilidade mesmo que em atitudes. Preparei
uma bandeja especial. Bati três vezes na porta, mas ninguém respondeu.
Abri com delicadeza.
Encontrei-a de costas para a
entrada.
Aproximei-me a passos vagarosos,
não queria assustá-la, parecia rendida a um sono intenso que nem o cheiro do café
fora capaz de romper.
Foi quando percebi o que acontecia.
Eu não tinha mais a minha esposa.
Ela estava doente. Seu médico me
procurou no velório, contou o que havia acontecido e que ela o proibira de
dizer qualquer coisa para quem quer que fosse. Não queria preocupar as pessoas.
Não queria que se derramassem em súplicas por ela. Apenas queria aproveitar o
quanto possível o tempo que lhe restava. Ao final da cerimônia ele me entregou
um papel dobrado, disse que eram as palavras da minha esposa e que era seu
desejo que eu as lesse com tranquilidade.
Fiquei com a culpa.
Fui rude, nem um pouco generoso, e
egoísta. Não estive ao seu lado quando deixava esse plano da existência, quando
partia para outro lugar, quando fazia sua travessia.
E é isso o que muitos de nós
cometemos. Erramos em nossos relacionamentos sejam eles quais forem. Erramos
com nossos amantes, falhamos com nossos filhos e somos insuficientes aos nossos
amigos. Tudo por razões mesquinhas, infantis, que poderiam ser contornadas por
soluções adultas e enriquecedoras. Aprendi tarde demais. Gostaria que todos
aprendessem antes de errar.
Você
me amou como ninguém mais poderia me amar. E por isso não queria preocupá-lo,
não queria que nossos últimos dias fossem em hospitais e mais hospitais que
nunca encontrariam a cura, apenas uma forma de prolongar minha dor. Queria que
nossos últimos dias fossem em companhia, em cumplicidade, em amor. E eles
foram. Pode ter certeza de que foram. A mulher tímida, solitária, amedrontada,
incrédula quanto os prazeres da vida, deu lugar a essa mulher segura, liberta,
confiante nos presentes que a existência pode proporcionar. Você foi o presente
que deu abertura para outros presentes, você foi o presente que sempre se
manteve presente, fez parte do meu passado e presenciou o meu futuro enquanto
ele pôde existir. Obrigado por tudo. Você me amou.
Mas poderia ter amado mais, até seu
último suspiro.
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