Despedida
O silêncio pode ser tão incômodo
quanto o estrondo, sobretudo quando está posto entre pessoas unidas por algum
tipo de laço, conectadas por algum vínculo superior às coisas frágeis,
materiais e efêmeras. O silêncio, apesar de parecer tão pequeno e
insignificante, pode devastar, corroer, corromper, diminuir sentimentos que um
dia eram abundantes, transformar árvores vistosas em simples pedaços de madeira
jogados ao pé da estrada para perderem toda a admiração que um dia despertaram,
todo o desejo que um dia incitaram, toda a calmaria que um dia proporcionaram.
O silêncio faz o amor mais parecer ódio. Pode fazer as pessoas se arrependerem
de um dia terem amado.
Pedro estava sozinho, deitado
naquela maca hospitalar, olhando para o teto branco que parecia reproduzir
imagens de sua própria história. Algumas passagens despertavam agradáveis
emoções, como as que o retratavam ensinando o próprio filho a dar os primeiros
passos, pronunciar as primeiras palavras ou, mais tarde, quando o ensinou a
dirigir, quando se impressionou com a habilidade do jovem adolescente atrás do
volante. Outros capítulos, no entanto, causavam dor, se ele pudesse
simplesmente os excluiria, apagaria definitivamente não apenas de sua memória,
mas também da daquele que as possuía e sofria tal como ele. Eram capítulos que
poderiam ter sido evitados, bastasse que houvesse compreensão de sua parte,
bastasse que pudesse sobrepor o amor que sentia a qualquer julgamento que
pudesse fazer sobre as pessoas. Capítulos que trouxeram o silêncio. O silêncio
que persistiu por anos. O silêncio que agora era a sua única companhia naquele
quarto de hospital.
Estava doente.
Não tinha mais tempo.
Não tinha mais tempo para voltar
atrás e reescrever aqueles trechos que traziam arrependimento, que traziam a
vontade ardente por voltar no passado e lutar o quanto pudesse para que o
silêncio não fechasse os seus lábios, não prendesse o seu coração e o impedisse
de declarar palavras de ânimo, de coragem, de companheirismo, de demonstrar o
amor que ainda vivia dentro de si, apenas dentro de si. Perdera a oportunidade
de viver aquele amor no mundo exterior. De que adianta apenas sentir essa nobre
virtude sem vivê-la no mundo concreto? De que adianta cultivar amor por alguém
sem demonstrá-lo, sem espalhá-lo, sem usá-lo como presente para as pessoas
queridas? O amor precisa existir para além de nós mesmos.
Mas ele só aprendeu essa lição
quando percebeu que os anos haviam se passado e levado com eles todas as
oportunidades que poderia ter aproveitado. Oportunidades que não voltariam
mais. Oportunidades que não poderiam mais ser criadas. Não dava tempo. Ele
estava doente. Restavam-lhe não meses ou semanas. Tudo o que lhe era dado eram
dias. Poucos. Era possível sentir a finitude humana se materializar ao seu lado
anunciando que o ponto final não tardaria a ser registrado.
A porta se abriu.
Não era nenhuma enfermeira, muito
menos algum médico.
Era alguém conhecido.
Com quem vivera momentos.
Com quem errara.
Era entre ele e aquele visitante
inesperado que existia um silêncio opressor.
O silêncio que dominou aquele
quarto quando o homem ainda jovem se sentou aos pés da cama do homem já
envelhecido.
Estava
visivelmente animado. Há muito que esperava por um momento como aquele, quando
teria a chance de dirigir por conta própria pelas ruas da capital, exibindo
suas habilidades, sentindo-se livre o bastante para comandar o próprio destino.
—
Para um iniciante você está indo muito bem — o homem sentado no banco do passageiro
falou orgulhoso —. Lembro da minha primeira vez. Eu mal sabia como ligar o
carro. Na primeira tentativa meu professor quase saiu correndo. O carro deu uns
trancos violentos — soltou uma risada ao reviver o passado —. Ele ficaria grato
se eu fosse um aluno com pelo menos uma parcela do seu talento.
—
Não pode estar falando a verdade — o adolescente sentado no banco do motorista
falou duvidando —. Desde que sou criança você me ensina os detalhes. E sempre
observei sua maneira de dirigir. Coloquei em prática apenas o que observei.
—
Está sendo gentil — bagunçou os fios do filho sentindo-se grato pela sua
companhia. Observou-o por alguns breves instantes mantendo o sorriso orgulhoso.
Era impossível não se recordar das coisas que tiveram que enfrentar juntos —.
Ela também estaria orgulhosa...
O
jovem garoto desviou o olhar. Lembrou-se daquela pessoa tão especial e querida
que de uma forma inesperada passou a existir apenas em seu coração.
—
Acha mesmo?
—
Não tenha dúvida.
—
Não sei se ela se orgulharia por tudo.
—
Você se mostrou um rapaz muito forte. Seguiu em frente da melhor forma
possível. Era criança ainda quando tudo aconteceu e mesmo assim mostrou uma
força que muitos adultos jamais tiveram. Então ela estaria sim orgulhosa.
—
O problema é que não sou perfeito — tornou a encarar o pai, dessa vez disposto
a se abrir, a ser verdadeiro, a ser inteiramente acessível.
—
E qual de nós somos?
—
Você não entendeu — os dedos se pressionaram ao volante e os olhos tornaram a
encarar a rua na vã tentativa de esconder a vermelhidão que os tomara de
repente —. Você nunca entenderia e não tenho certeza de que ela poderia
entender.
—
O que foi, Rafa? — Pedro pousou a mão sobre o joelho do filho, sua maneira de
declarar que poderia existir confiança entre eles, que nenhum segredo
precisaria ser mantido, ele só não sabia que não estava preparado para o
desabafo que poderia acontecer.
—
Desculpa... — os olhos se fecharam, mas não puderam evitar que as lágrimas
rolassem. O rosto se abaixou um pouco, como se a vergonha o dominasse e
colocasse um peso insuperável sobre as palavras que precisavam ser anunciadas.
—
Desculpá-lo por qual razão?
—
Eu vou desapontar você.
—
Precisa ser mais claro.
Encarou
o pai.
Os
olhos anunciavam aquilo que as palavras não conseguiam dizer.
—
Eu já desapontei você.
Pedro
ficou atônito.
Seus
olhos firmes se posicionaram sobre o filho como se tentassem decifrá-lo, como
se precisassem enxergar além da pele, como se quisessem tocar sua alma.
—
Eu não sou perfeito... Eu tentei, mas não consegui. Eu não consigo mudar isso.
Eu preciso que me desculpe por isso... Mas eu precisava contar. Você tinha que
saber. E se não soubesse por mim acabaria sabendo por outras pessoas. Acho que
é melhor que descubra por mim mesmo.
Os
lábios de Pedro se abriram trêmulos. Porém, logo se fecharam. Seus olhos
severos se reviraram indignados. A cabeça meneou algumas vezes. Não queria que
aquilo fosse verdade. Não sabia como reagir.
—
Você está me dizendo que o meu filho é gay?
—
Não precisamos falar sobre isso se não quiser. Você nem mesmo precisa ter
contato com a minha vida. Saber com quais pessoas me relaciono. Só queria que
soubesse quem eu sou.
—
E você tinha algum resquício de esperança de que numa hipótese fantástica eu
fosse querer compartilhar essa vida com você?
O
adolescente se espantou.
—
Leve o carro para casa — Pedro abriu a porta.
—
Pai... — a voz trêmula não foi capaz de tocar no duro coração do homem que
partiu sem olhar para trás.
Angustiado,
sem conseguir imaginar quais seriam as consequências daquela conversa, apenas
tendo a certeza de que não seriam positivas, Rafael dirigiu até em casa,
guardou o carro com cuidado, foi para dentro absorto em tantos pensamentos,
sendo incomodado por aquela sensação impiedosa de insegurança. Deitou-se no
sofá permitindo que o choro viesse, talvez as lágrimas pudessem levar embora
toda aquela aflição que se apossara de seu ser. Acabou adormecendo, envolto por
tantas preocupações.
O
adolescente despertou agitado ao ouvir alguém chegar.
Colocou-se
em pé enquanto via a sombra do pai atrás da porta.
Achou
estranho os segundos de demora para que a maçaneta finalmente girasse e a porta
se abrisse.
—
Pai... — tentou se aproximar na intenção de se justificar, de buscar por um
pouco de compreensão, de encontrar naquele homem que admirava o pai que naquele
momento tanto precisava.
Pedro,
cabisbaixo, gesticulou para que o filho se calasse.
Rafael
não insistiu.
—
Não vou agir como realmente deveria, como meu pai e meu avô com certeza teriam
agido diante de uma vergonha tão grande. Apenas serei bastante claro. Você
continua debaixo desse teto — o homem visivelmente decepcionado não conseguia
olhar o filho nos olhos —. E eu continuo cumprindo com as minhas obrigações de
pai até que você faça dezoito anos. A partir disso você terá que seguir seu
próprio rumo. Mas até lá esqueça que compartilhamos o mesmo espaço. Você não
existe para mim. E eu não existo para você.
Não
houve possibilidade de protestos.
Ninguém
disse mais nada.
Rafael, até completar a idade
determinada pelo pai, cultivou uma firme esperança de que as coisas pudessem
mudar, de que aquele homem que possuía sua admiração e seu respeito pudesse
perceber que aquela situação não mudava quem o filho era, o ser humano disposto
a acertar, disposto a orgulhar, ao mesmo tempo em que estava disposto a
perseguir a própria felicidade. Talvez o pai pudesse compreendê-lo, entender
que ele simplesmente teria um caminho diferente a seguir, mas que aquilo não
mudava a relação entre eles, poderia até fortalecer desde que um fosse capaz de
respeitar o espaço do outro.
Mas não aconteceu.
Os dezoito anos chegaram e Rafael
precisou partir sem o direito de se despedir.
Foi doloroso.
Mas foi necessário.
Aquela era a vontade que devia ser respeitada.
Contudo, ao descobrir a condição do
pai, depois de tantos anos de silêncio, de distanciamento, Rafael precisou
desobedecer a ordem. Precisava ver aquele homem nem que fosse pela última vez.
— Espero que não se incomode — a
mudez se desfez —. Sei o que me disse naquele dia. E eu fui obediente. Mas não
teria descanso se, sabendo da sua condição, não tivesse lhe procurado. Quando
fiz os tão aguardados dezoito anos não pude me despedir e só eu sei o quanto
foi difícil. Tive esperança de que num dia qualquer você pudesse aparecer no
meu portão de braços abertos. E eu também abriria os meus. Mas isso não
aconteceu — sorriu abatido —. Não importa. Eu só queria ter a chance de vê-lo
pela última vez e dizer que você não deixou de existir para mim.
A vergonha era tão imensa quanto o
arrependimento. Sentimentos que pareciam esmagar o peito de Pedro e dificultar
a respiração, tarefa que fora cumprida de maneira tão simples ao longo da vida,
mas que naquele momento mais parecia um árduo desafio.
As lágrimas saltaram de seus olhos.
A dor de uma vida desperdiçada.
— Eu errei, Rafa. E você não
imagina o quanto me odeio por isso.
— Aconteceu.
— Poderia ter sido evitado.
O rapaz não respondeu. Não possuía
palavras para uma hora como aquela. Nada mudaria o passado. Nunca existirá algo
capaz de fazer o tempo voltar a fim de ser corrigido.
— Eu preciso que me desculpe —
Pedro suplicou —. Não era você quem precisava se desculpar, sempre fui eu, mas
nunca tive essa capacidade e agora preciso lutar contra a morte para entender o
tamanho do equívoco que cometi. Não é difícil amar. A gente só precisa descer
do nosso egoísmo. Eu não consegui descer do meu a tempo. E pode ter parecido,
mas eu não consegui fazer o que determinei. Fui orgulhoso demais, mas nem você
deixou de existir para mim, sempre soube que teria um filho incrível disposto a
me amar se assim eu permitisse. Insisti no meu erro e agora termino os meus
dias me lamentando pelos que foram jogados fora.
— Eu sinto muito que tenha sido
assim.
— Quem sabe numa próxima oportunidade?
— É... Quem sabe...
A incerteza sobre novas chances era
tudo o que restava para o homem que um dia fora cheio delas, mas não soube enxergá-las.
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