Sentir a Vida
É um erro perguntar o que é o amor.
Ele não existe para ser definido, categorizado, encaixado em padrões tão
rígidos e inflexíveis. Ele existe para apenas um propósito: ser vivido. E
quanto mais cedo aprendemos isso, quanto mais cedo nos convencemos disso, mais
cedo nos tornamos livres para vivê-lo. Sim, para viver o amor é necessário ser
livre. Livre das exigências dos outros, mas livre das nossas próprias
exigências também. Porque para amar não podemos estar aprisionados a egoísmos
tão enraizados. Nem podemos estar acorrentados a opiniões que desconhecem a
nossa vontade. Porque para amar importa apenas que o sentimento amor exista e
persista.
Como existiu para mim.
Da primeira vez que eu o vi.
Sabe quando o coração para embora
continue batendo? E seu corpo estremece embora ao seu redor o mundo ferva em um
verão escaldante? Pois é. Foi o que aconteceu comigo quando eu o vi pela
primeira vez. Tão singelo, tão discreto, tão tímido, contudo tão marcante, tão
cativante, tão instigador. Parecia alheio ao resto do mundo. Parecia
indiferente ao agito das pessoas. Parecia submerso dentro da sua própria paz e
calmaria. O que existia nele que o tornava tão diferente das outras pessoas? O
que existia nele que me fazia pensar em possibilidades das quais sempre tentei
fugir? Eu não queria me indispor com a realidade que me cercava. Eu não queria
ter que lutar pela minha liberdade. Eu não cogitava a ideia de me esforçar por
um amor. Afinal, muitos vivem uma história, pensam que é a história, mas no fim
acabam tendo frustrações, decepções, como se as declarações fossem simplesmente
esquecidas e os sentimentos se revelassem tão frívolos e falsos quanto o aparente
fulgor do sol em um dia congelado. Eu não queria correr o risco de lutar com
todas as forças pelo que eu acreditava para no final terminar frustrado. Isso
até vê-lo pela primeira vez.
Eu estava do outro lado do vagão.
Atento às pessoas. Observador dos comportamentos. Quando meus olhos pousaram
sobre ele. Estava com a cabeça levemente inclinada para baixo, encostada numa
barra de ferro, enquanto segurava diante dos olhos a clássica E O Vento Levou.
Ele não deveria ser tão mais velho quanto eu, talvez por isso eu tenha tido
minha atenção concentrada naquele jovem que se destacava apesar de não saber.
As pessoas falavam alto. Crianças gargalhavam ou choravam. Adultos exaustos
pelo dia de trabalho bufavam nervosos ou simplesmente olhavam pelas janelas
como se estivessem perdidos dentro de si mesmos. Mas ele não. Parecia viver
aquelas palavras tão arrastadas, parecia apreciar os detalhes tão
minuciosamente descritos, parecia voltar ao tempo daquele livro quando a
sociedade era totalmente diferente, quando mulheres independentes ganhavam
destaque pela ousadia, quando homens galanteadores e respeitadores eram
admirados por simplesmente terem o mínimo de civilização. Talvez ele gostasse
de viajar a tempos antigos. Eu também gostava. Aliás, sempre gostei. É como se
eu viesse de vidas longínquas, de épocas remotas, para viver nos tempos
modernos, mas ainda trazendo comigo um pouco dos séculos tão distantes.
Em determinado momento ele sorriu.
Eu conhecia o livro, já havia até mesmo assistido ao filme, sabia que em alguns
momentos nós nos divertíamos com os comportamentos e as falas das personagens,
tão destoantes do progresso que conhecemos hoje em dia. Mas o sorriso dele foi
largo. Foi espontâneo. Foi verdadeiro. Ele sentia a história. Sentia de
verdade. Será que sentia a vida daquela mesma forma?
É claro que eu queria a resposta.
Algo dentro de mim começava a despertar, algo incômodo. Incômodo não pela sua
própria natureza. Mas pela minha insegurança em ter que me posicionar contra
tantas determinações que limitam os seres humanos de alcançarem seu próprio
desenvolvimento. E talvez ele nem me correspondesse, embora minha intuição
dissesse que nós tínhamos mais em comum do que apenas o gosto pela leitura de
grandes clássicos. A verdade é que só havia uma maneira de descobrir: eu
precisava me aproximar.
É tão estranho o quanto nós, seres
humanos, nos sentimos tão esquisitos diante de pessoas desconhecidas, não é
verdade? Os animais se aproximam tão logo se veem, seja para brigar ou para
brincar. Mas nós não. Fazemos um rodeio interminável até que consigamos nosso
objetivo. Eu me lembro do tempo da escola. Quando era mais novo. Minha timidez
excessiva me impedia de conhecer todos os colegas, eu até invejava aqueles que
conseguiam criar tantas amizades com uma facilidade que eu desconhecia. Quando
finalmente conseguia me enturmar e cumprimentar a todos, estávamos nas semanas
finais. Então é estranho que fiquemos tão desconfortáveis perto de outras
pessoas. São pessoas! Seres como nós. Com dores e alegrias. Com medos e
coragens. Com fracassos e com conquistas. Mas só aprendi isso da primeira vez
que eu o vi.
Tinha um lugar ao lado dele. Eu só
precisava dar alguns poucos passos para romper a distância que nos separava.
Olhei ao redor. Ninguém parecia se importar com a minha insegurança. Todos
aparentavam estar ocupados demais com os seus próprios pensamentos ou com suas
conversas sem sentido cujo conteúdo se resumia à vida dos outros. Outra coisa
que nunca vou entender. Por que nos interessamos tanto com fofocas? O que muda
na sua vida se alguém não gosta de coentro ou ama jiló? Se você não gosta de
alguma coisa é muito fácil resolver: não tenha aquela coisa. Mas não é
inteligente essa tentativa que fazemos de impor nossas verdades sobre a verdade
das outras pessoas.
Continuando... Todos estavam
ocupados demais em seus próprios mundos. Então me levantei. Mas sabe a sensação
de ter se esquecido como é que anda? Ele despertava essas coisas em mim. Eu
ainda nem o conhecia, mas já me sentia vulnerável apenas pela sua presença. O
problema é que não queremos nos sentir vulneráveis. E com isso perdemos tantas
chances de conhecermos pessoas incríveis, pessoas que enriqueceriam nossas
vidas, pessoas que tornariam os nossos dias mais belos, mais floridos, mais
cheios de sabedoria, de aprendizados, de um conhecimento que não se adquire em
faculdades ou cursos, um conhecimento que só é alcançado quando a vida é
realmente vivida. Um pouquinho de vulnerabilidade não faz mal a ninguém. Quem
se fecha demais acaba sufocado.
Então me sentei ao seu lado.
Era cheiroso.
Mas voltando ao que interessa... Ele
não me notou. Foi frustrante por um tempo o fato de não ter sido notado por
aquele rapaz que se destacava diante da multidão por sua postura tão discreta.
Parece um paradoxo. Alguém discreto se destacar. Mas em um mundo no qual todos
tentam aparecer, quem não busca por isso acaba sento notado. E é por isso que
foi frustrante. A gente acha que é importante ao ponto de apenas nossa presença
atrair holofotes. Mas o que é que temos a oferecer? É isso que determinará se
seremos ou não percebidos pelas outras pessoas: o que temos a oferecer.
Se eu não tomasse a iniciativa o
metrô chegaria em seu destino e eu nunca mais veria o garoto destoante. Se eu
não tomasse a iniciativa nunca mais teria a chance de ouvir o que ele achava do
que estava lendo. Se eu não tomasse a iniciativa aquela não seria a primeira
vez que eu o veria, mas a única. Então eu tomei a iniciativa.
— Fico imaginando como Scarlett
seria se vivesse hoje em dia — finalmente falei. Não sei se fui tão confiante
na minha fala, mas ao menos falei.
— Como é? — de súbito, ele desviou
os olhos do livro, fechou-o mantendo o dedo entre as páginas que lia e me deu
sua atenção.
Além de esquecer como anda, a gente
também pode esquecer como respira, ainda mais quando os olhos que o encaram são
tão profundos ao ponto de dar a sensação de que estão enxergando o nu da sua
alma.
— Scarlett tinha uma personalidade
marcante para a época, não acha?
— Ah! Sim! — ele sorriu enquanto
abria a mochila em busca de algo —. Peço desculpas, eu estava tão
concentrado...
— Sou eu quem devo pedir desculpas
— falei constrangido enquanto o observava retirar um marcador da bolsa e
colocá-lo dentro do livro —. Não queria atrapalhar a sua leitura...
— Fique tranquilo — disse
gentilmente —. Não é todo dia que encontramos alguém que entenda do que é que
gostamos — guardou o livro na mochila e se ajeitou no banco, ainda me
concedendo a preciosidade de sua atenção —, mas sempre teremos um tempo para
continuar de onde paramos... Então você gosta dos clássicos?
— Gosto de tudo. Mas também leio os
clássicos, embora eles sejam um pouco mais trabalhosos.
— Entendo o que quer dizer. Os
clássicos eu leio com mais calma. Aos poucos. Para não ficar cansativo e não
perder algo importante.
— Fiquei me perguntando como é que
você consegue ler um livro desses em um lugar com tanta gente falando.
— Estava me observando?
Engasguei.
Não sabia o que responder.
Não poderia mentir, mas também não
poderia simplesmente responder que sim. Qual justificativa eu daria que não me
fizesse parecer um psicopata?
— Relaxa — ele deu a risada que eu
nunca mais me cansaria de ouvir, a risada que seria o motivo da minha própria
libertação.
— Como você disse, não é sempre que
encontramos alguém com gostos semelhantes.
— Ainda mais os mais peculiares
gostos.
— Sim... Os mais peculiares.
— Mas quais outras coisas você lê?
— De tudo um pouco, exceto aqueles
livros que dizem para acreditar na força do seu pensamento positivo. Se fosse
tão fácil assim, não teríamos tantos mau humorados aqui dentro, não acha?
— A vida é mais complexa do que
isso que dizem. E pensar positivo não é pensar literalmente positivo. É um
processo cuja consequência é a positividade na forma de pensar. Mas as pessoas
não querem ouvir isso, porque todo processo envolve um esforço individual, e
poucos estão dispostos a esse esforço.
— Estou conversando com um filósofo
e não sei?
— Os bons livros nos trazem essas
percepções sobre a vida, não acha?
— Acho que fiz bem em vencer meu
próprio receio e vir até aqui.
— Não vá me dizer que você é o
humano que tem medo de outros humanos!
— Não! O que está acontecendo
aqui?! Agora é psicólogo? — rimos juntos —. Não devo ser o único humano com
medo de outros humanos. Você parecia bem distante disso aqui.
— E você acha que alguém aqui iria
querer falar sobre Scarlett e sua personalidade forte?
— Você não pode julgar as pessoas.
— Então porque você me julgou? —
lançou aquele olhar de desafio.
— Apenas fiz uma observação e
descrevi as circunstâncias. Você parecia distante.
— Quando diz que “parecia” você
deixa implícito que não tem certeza. Então é uma suposição. E o que são as
suposições se não julgamentos?
— Você pode ter me pegado nessa —
ele sorriu triunfante.
— E, então. Você é o humano com
medo dos outros humanos?
— A gente nunca sabe como as
pessoas vão reagir a um desconhecido puxando assunto. Estamos todos tão
aprisionados dentro de nossas bolhas. Embora estejamos num continente é como se
estivéssemos isolados em nossas próprias ilhas. E parece que tentamos proteger
nossos territórios de todas as formas possíveis. Então talvez eu não seja o
humano com medo de outros humanos, mas posso ser o humano que busca se proteger
de outros humanos não porque os teme, mas teme o que pode sentir se eles se
aproximarem demais.
— Mas não foi eu quem se aproximou
dessa vez.
— É. Não foi.
— E não pode ter sido apenas pela
Scarlett.
— Não pode.
— Então o que pode ter sido?
Era por causa dos sentimentos que
eu tanto fugia? Era por causa dos sentimentos que agora me engoliam? Não adianta.
Por mais que a gente tente fugir da nossa verdade, ela nos persegue e ela nos
alcança. Por mais que tentemos negar a nós mesmos quem sabemos que somos por
medo do que teremos que enfrentar, a vida se encarrega de a todo momento nos
defrontar com a verdade que mora dentro de nós. Isso porque não podemos fugir
de nós mesmos. Embora tentemos. Só que quanto mais a gente tenta negar quem
somos, mais afirmamos a nós mesmos o que somos, e isso nos apavora porque ao
invés de lidar de frente, a gente tenta escapar da vida.
Só que antes que eu respondesse o
metrô parou e fomos informados de que havíamos chegado ao nosso destino. Fiquei
ali. Paralisado. Entrando em contato com o que eu sentia. Com a minha verdade.
Com quem eu era. Enquanto as outras pessoas, aos poucos, esvaziavam o vagão.
O garoto destoante colocou a mão no
meu ombro.
— Você não vem?
Despertei dos devaneios, assenti em
um gesto silencioso e segui meus passos como se o mundo todo tivesse sido
silenciado. Meus pensamentos falavam mais alto que qualquer outro barulho. Era
hora de me libertar dos meus próprios medos e aceitar que a vida não deve ser
vivida como desenharam, mas como nós a entendemos individualmente.
Quando voltei em mim percebi que já
estava fora da estação, as pessoas se dispersavam, ficavam cada vez mais
distantes, seguiam seus próprios destinos, deixando que as ruas ficassem cada
vez mais vazias.
— Você não teve uma resposta — mas
o garoto destoante continuava ao meu lado.
— Eu não sei o que responder.
— E se ao invés de se preocupar em
dar respostas, você se preocupasse em vivê-las?
— Em filosofia eu não sou tão bom —
sorri envergonhado por não compreender o que ele queria dizer com frases que me
levavam para pensamentos até então desconhecidos.
— Algumas respostas nós
simplesmente temos, ou simplesmente sentimos, respostas que só servem para nós,
que só fazem sentido a nós, e que, portanto, só podem ser vividas por nós e
entendidas por nós.
— Mas talvez eu quisesse ter uma
resposta. Não é todo dia que conhecemos pessoas com as mesmas peculiaridades
que as nossas, lembra?
— Mas uma vez conhecidas, elas
podem fazer parte da nossa história se assim o quisermos, não acha?
— Acho — encarei os seus olhos
curiosos. Finalmente encarava os olhos que mudariam meu futuro —. E se eu
quiser que faça parte da minha? Não apenas pela Scarlett. Mas pelo que quer que
aconteça.
— Sem medo do que pode sentir?
— Sem medo do que posso sentir.
— Meu nome é Téo... E o seu?
Eu tentei. E consegui. Aquela não foi a única vez que nos vimos, mas apenas a primeira. Isso porque não tivemos medo de sentir a vida. Não tivemos medo de nos libertar do medo de viver. Nem buscamos definições para o que é sentíamos um pelo outro. A gente apenas sentiu. A ainda sente. Porque a vida é sobre isso, é sobre sentir e sentir de verdade.
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Na próxima terça tem mais. Acompanhe meu perfil no Instagram (@Amilton.Jnior) e não perca. Um abraço!
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