[Conto] Homens de Paz
Viver com medo
é um castigo insuportável até para o mais valente dos homens. Viver com medo
faz perder a paz, o sono parece traidor e a sombra uma inimiga cruel. Viver com
medo tira de qualquer um a esperança sobre o futuro.
E quando esse
medo é imposto de semelhante para semelhante?
Igor vivia com
medo.
Medo da
própria espécie.
Aos vinte anos
de idade, com tantos sonhos ainda vivos em sua alma, com tantos planos sendo
construídos animosamente, o rapaz se via no meio da floresta, caminhando a
passos inaudíveis e extremamente cautelosos, sentindo o suor escorrer pelo
corpo por causa do calor insuportável que o uniforme garantia. Um olho fechado
e o outro sempre muito atento, à sua dianteira ia a metralhadora carregada,
perdera as contas de quantas vítimas tivera que fazer.
E pensar que aquilo
poderia ser evitado.
Pensar que o
inútil derramamento de sangue poderia ser interrompido através de um simples
acordo entre o governante do seu país e o do país opositor.
O poder sempre
enlouqueceu os grandes.
E essa loucura
custou a vida dos pequenos.
— Droga! —
chutou uma árvore antes de se encostar nela, tirou o quepe que exibia o brasão
do exército, permitiu que os cabelos respirassem, suspirou profundamente.
A guerra fora
instaurada por uma disputa de terras. Os governos rivais tentavam decidir a
quem pertenceria o território cobiçado e encontrado, lugar de fartura ambiental
incrível, o que enchia os olhos de poderosos empresários sedentos por
matéria-prima ou motivados a construírem seus parques luxuosos.
Igor lamentava
o homem ser tão ignorante ao ponto de colocar seus irmãos contra a morte. “Morrer pelo país”. Será que o país
morreria por ele? Claro que não. Quando o pai mais precisou do auxílio do
Estado para sobreviver foi desprezado, negligenciado, quando resolveram dar
atenção já era tarde demais, já estava enterrado.
Sentia saudade
da família.
Sentia saudade
dos amigos que perdera na batalha injusta.
Sentia saudade
dos tempos de criança, quando o mundo mais parecia um divertido desenho
animado, quando acreditava que seria um reconhecido engenheiro, faria
construções que orgulharia sua mãe, nas quais colocaria o honrado nome de seu
pai.
Mas cresceu.
Compreendeu que
pela ineficiência do governo e em nome dos interesses de oligarquias, vivia na
miséria, pisado pelos ricos, esquecido pelos governantes, perseguido por
autoridades. Entendeu que seus sonhos não seriam tão facilmente concretizados,
foi obrigado a descobrir a dura realidade que o cercava, a mesma que levara
embora seu amado pai.
Agora, servindo
ao Exército, sobre a falácia de que servir a nação é uma dádiva, confessava que
a nação de nada importava enquanto os seus cidadãos morriam de fome, tinham os
seus sonhos apagados, o sorriso de esperança afastado e os semblantes tomados
por amarga tristeza.
Encarando o
céu azul ouviu passos se aproximando.
Armou-se.
Ficou cara a
cara com o inimigo.
Não era, na
verdade, um adversário.
Era só mais
alguém que, como ele, cumpria ordens.
— Não quero
que morra, mas também não quero morrer — anunciou, falavam a mesma língua.
— A ordem é
que matemos qualquer um de vocês — o rapaz, que parecia ter a mesma idade de
Igor, recitou o que ouvia nos quartéis, recitou com a voz embargada, como se
pedisse desculpas antecipadas pelo mal que estava prestes a oferecer.
— Como se
chama? — tentaria uma conversa, fugira tanto, correra tanto do inimigo, tudo o
que queria era uma chance de voltar àqueles que amava.
— Márcio... —
a mão tremulava, as lágrimas corriam pelo rosto ferido, também ansiava pelo fim
do pesadelo.
— Muito bem,
Márcio, não tenha medo, não quero feri-lo... Meu nome é Igor, meus amigos
costumam me chamar de Sonhador, tem algum apelido? — sabia que através do
diálogo inteligente podemos alcançar os maiores acordos, não com violência.
— Por que
Sonhador? — quando foi que tivera a última conversa com alguém disposto não a
matá-lo, mas ouvi-lo? Entregava-se àquele raro momento.
— Porque ainda
acredito no amor dos homens... — revelou —. Tem família?
— Sim, meus
pais são agricultores e minha namorada quer ser escritora — sorriu ao falar
daquela pela qual era apaixonado.
— Sente
saudade?
— Todos os
dias...
— Também sinto
a falta do meu povo, isso arde aqui dentro, há momentos que parece
insuportável... — desabafou —. Tenho sonhos, você também, eu não quero destruir
seu futuro em nome de homens insanos e egoístas que quanto mais têm mais
querem, mesmo que a preço de sangue — começou a se agachar —. Por isso peço a
sua misericórdia, peço que me olhe não como um inimigo, como seu igual —
repousou a metralhadora sobre o solo e se levantou, estava completamente
vulnerável.
Márcio,
espantado com tamanha confiança que existia naquele que lhe disseram para
tratar como um cruel inimigo, comoveu-se pelo discurso, jogou o armamento para
o lado, permitiu que a distância inútil fosse encurtada.
Os soldados se
abraçaram no meio da mata.
Eram irmãos da
terra.
Manipulados por
homens de perversos, avarentos e injustificáveis desejos.
Homens que
fingem se importar.
Importam-se
apenas com a própria ascensão custem às vidas que custarem.
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Que história tão boa!!! E com uma qualidade de escrita exelente. Fiquei mesmo curiosa para ler mais.
ResponderEliminarUm beijinho,
Fancy Chica
Que história legal, é tão complexo isso de guerra neh?! Porque as vezes a pessoa não quer matar... e encontrar um alento ao meio da dor e da saudade é bem emocionante... adorei
ResponderEliminarGosto dos teus textos! Trazem sempre uma reflexão maravilhosa! Este em especial me lembrou o filme "Até O Último Homem". Muito bom, já viu? Te deixo a indicação!
ResponderEliminarNossa, que conto perfeito!!! Você sabe que adoro histórias que se passa na guerra, pode ter uma ideia no seu livro "Amor na guerra", né? E esse não foi diferente, gostei muito. O tema "saudade" está bem marcado aqui. Parabéns.
ResponderEliminarOlá, que historia super legal que trouxe, gostei muito.
ResponderEliminarAdorei sua escrita e fiquei bem curiosa pra ler.
Abraços
Olá, tudo bem?
ResponderEliminarGosto dos seus textos e trazem muita reflexão, a maioria da minha família serviu no exército e aeronáutica, texto que falam de guerra, e aborda sobre a saudade, acaba nos tocando bastante. Gosto bastante dessa leitura.
Ainda bem que Márcio compreendeu que Igor, assim como ele, estava ali para cumprir um dever e não para matar ou morrer. Gostei muito do final da história! É necessário que haja mais amor no coração das pessoas. A guerra só traz discórdia e ódio, causa medo como fez com o Igor.
ResponderEliminarAbraços!
Olá! Seus contos sempre nos sensibilizando e nos proporcionando finais bem gratificantes e especiais.
ResponderEliminarRealmente a guerra só causa dor para quem vai a luta e para quem espera o retorno de seus entes queridos,é triste tanto ódio e mortes.
Maravilhoso o Márcio ter se comovido com o discurso do Igor e formar esta amizade e principalmente a paz entre eles.
Parabéns,excelente conto! Abraço!
Ah que conto emocionante, o final me deixou arrepiada, já falei mas repito que você escreve muito bem.
ResponderEliminarLindo conto. É uma grande verdade, muitos soldados são marionetes nas mãos daqueles que nem se aproximam das batalhas, comando tudo protegidos e em segurança. Simplesmente adorei e me comovi com a história.
ResponderEliminarOlá!
ResponderEliminarQue conto lindo e sensível, é difícil essas guerras, o quanto elas tiram das pessoas, muito boa a reflexão. ótima escrita!
beijos!