[Conto] O Sentido da Vida
Era uma
agradável tarde.
Os bancos na
praça estavam ocupados por pessoas que apreciavam a natureza, a própria
companhia ou a presença de entes queridos com os quais compartilhavam segredos,
causos e sorrisos.
A brisa suave
naquela fresca primavera parecia fazer os pensamentos flutuarem, os sonhos
voarem, as imaginações subirem ao mundo dos desejos.
Sentada solitariamente,
praticando um de seus hobbies prediletos, Fátima observava as cenas que
inspiravam seus intentos e lhe ofertavam profundas reflexões, não pôde deixar
de notar as inocentes crianças que corriam de um lado ao outro, que brincavam
livres e despreocupadas dos preconceitos que os adultos deixam dominar seu modo
de viver.
Lembrou-se de
quando era como elas, quando ainda acreditava na eterna diversão que a vida
aparentava ser, quando cultivava sonhos mirabolantes para o futuro como acabar
com as guerras e não permitir que mais ninguém morresse de fome. Recordou-se
das tardes de inverno que passava na casa da avó, quem fazia maravilhosos
bolinhos de chuva acompanhados de um saboroso e acalentador chá de erva
cidreira, sentia a falta da boa mulher, o lado ruim de crescer é que perdemos
aqueles que mais amamos e que um dia pensamos serem eternos.
Reparou também
nos amigos adolescentes que se divertiam contagiosamente com as piadas que
surgiam em seus grupos, pareciam enérgicos, repletos de planos, cheios de
coragem e vontade para os concretizarem. Voltou para os dias de sua
adolescência. Relembrou as emoções que experimentara, os questionamentos que a
ajudaram a se transformar na mulher que era, as respostas que obtivera e que
lhe trouxeram tantas certezas. Sentia saudade dos amigos. Sentia falta de
quando pensava que a juventude era um eterno presente.
Levou a
atenção aos jovens casais que uniam as mãos, trocavam doces olhares,
cochichavam inaudivelmente e logo em seguida sorriam com timidez, sorriam
apaixonados. Foi ali, naquela praça, que recebera o melhor dos pedidos.
Seus
cabelos, além de enegrecidos, eram longos, chegavam à cintura e encantavam a
muitos. As rugas ainda não existiam. O tremor das mãos nem imaginavam surgir. A
jovialidade era estampada em sua face.
Sentada
no costumeiro banco que ficava de frente para o chafariz rodeado por um belo
ornamento de orquídeas que exalavam o agradável perfume, Fátima repousava a
cabeça no ombro do namorado, mantinha os olhos fechados, a respiração
tranquila, entregava-se aos momentos de paz que nunca faltavam quando seu
grande amor ao seu lado estava.
Sentiu
as mãos serem envoltas.
Sentiu
o rosto ser acariciado.
Sorrindo
sutilmente, a jovem mulher permitiu que as íris castanhas fossem expostas,
encarou o sedutor e galanteador olhar do bom Luís, sentiu no coração o agito do
amor.
—
Sempre tão linda... — o rapaz de cabelos louros fez soar a grave, sutil e
melodiosa voz, som amado por aquela que chamava de namorada —. Chego a me
questionar se não ofusco todo o seu brilho... — era bom com as palavras além de
saber como fazer de Fátima a mais feliz das mulheres.
—
E eu me pergunto se realmente mereço alguém com tanto amor, com tanta doçura e
com tamanha ternura a ofertar — levou a suave mão
à face que estimava seu toque, que suplicava em todos os encontros para senti-la na pele —. Você é muito especial...
à face que estimava seu toque, que suplicava em todos os encontros para senti-la na pele —. Você é muito especial...
—
Especial é o que tenho vivido desde que nos conhecemos e é o que desejo viver
até o resto dos meus dias... Foi capaz de me transformar, foi capaz de me
esclarecer quanto o real sentido da vida que não está em ser rico, poderoso,
notável... — beijou a mão que por seu rosto passeava —. Está em ser amado.
—
O amor nos modifica de dentro para fora, altera nossos pensamentos, garante
novos sentimentos e em pouco tempo já não conseguimos esconder a revolução que
trabalha em nosso ser e todo o mundo descobre quem somos, não poderia existir
sentido de vida melhor e mais lindo! — a aspirante a escritora, sonhadora e
sentimental, declarou o que a alma sentia, feriu o íntimo de seu namorado.
—
Estou farto... — endureceu o semblante —. Estou farto das despedidas, farto das
distâncias, estou farto de não ter o direito de vê-la adormecer em meus braços,
de senti-la despreocupada sabendo que estou ao seu lado para defendê-la, estou
farto de dizer adeus... — desabafou o que não aguentava mais, desabafou sobre
aquilo que quando existe amor se torna insuportável.
Fátima
não pôde lutar contra a emoção.
Ao
ver o anel diante seus olhos não pôde esconder as lágrimas emotivas e
sentimentais.
—
Estou farto de não poder chamá-la de minha esposa, é o que mais desejo, é o que
tudo anseio — ajoelhou-se perante a amada —. Aceita se casar com este pobre
apaixonado?
—
Quando estamos distantes, quando não podemos trocar palavras de esperança,
quando o relógio parece lento e não conto com a sua presença sei que o que sinto
é verdadeiro, sei que você é o homem que minha alma escolheu para amar, sei que
é o cavalheiro com o qual devo cavalgar pelos caminhos da vida e o que mais
seria isso se não um puro, genuíno, imenso, invencível e verdadeiro amor? — fez
o amante se levantar, encarou-o com a emoção constante, com a admiração
persistente, com a estima interminável —. Mais do que ser sua esposa, quero ser
sua melhor companhia.
Beijaram-se
românticos.
Saborearam
o prazeroso gosto do amor incorruptível.
Os anos se
passaram.
Contemplar os
senhores e as senhoras já avançados na idade enganchados um no outro,
caminhando a lentos e sincronizados passos, a renomada escritora confessou que
o tampo também passou para si, os anos se foram, os dias voaram e agora,
beirando seus oitenta anos, já não tinha familiares saudosos, amigos queridos e
o grande amor de sua história, todos o tempo levou.
Não
há como fugir.
Não
há como correr.
Para
todos o tempo passa, os anos se vão e a juventude se finda e com isso surgem os
desafios da velhice, as consequências da experiência longínqua, os problemas
que não podem ser ignorados.
A
cada dia Luís perdia mais da memória.
Certas
vezes não se lembrava nem de quem era.
Há
meses não sabia que a esposa era a mulher que um dia amou incontroladamente.
Fátima
entendia que não era culpa de ninguém.
E
nem o seu amor se esfriou.
Ela
permaneceria no propósito de ser a melhor companhia para o querido esposo. Talvez
ele não soubesse quem era e nem a história que escrevera, mas ela era capaz de
contar em detalhes cada maravilhoso capítulo.
Luís
acabou acometido por outras enfermidades.
Enfraqueceu-se.
Sucumbia
aos muitos anos de existência.
No
hospital, sentada na maca ao lado do eterno namorado, Fátima derramava seu
pranto, fora avisada de que o esposo não venceria aquela noite, teria todo o
tempo desejado para se despedir.
Acariciou
o rosto adormecido.
Beijou
a face inanimada.
—
Tantas alegrias, tantas conquistas, tanta força, tanta coragem, tanta
esperança, tanta crença, tanta felicidade, tantos momentos, tantas histórias...
Você me ofertou o melhor livro que alguém poderia escrever, que lendo alguém se
emocionaria, que publicado jamais deixaria o carinho dos leitores porque foi
algo escrito com a alma, com o coração, através da veracidade de um amor que
todos os dias foi nutrido, se regenerou e é eternizado... Obrigado por todo
esse amor!
Os
olhos cansados se abriram encharcados.
Os
lábios amortecidos se moveram vagarosos.
E
a voz abafada teve forças para soar o que nunca foi escondido.
—
Eu sempre te amei...
A
vida se foi.
O
espírito partiu.
Ficaram
as lembranças de um amor bem vivido...
Discretamente,
Fátima enxugou as lágrimas de saudade.
Caminhou a
passos brandos em direção ao jovem casal sentado no banco que ficava de frente
para o chafariz cercado pelo ornamento de orquídeas.
— Posso
entregar um presente? — manifestou-se notando com alegria o livro que os
acompanhava, tinha o seu nome.
— Você não é a
autora de Amor na Guerra? — a jovem moça logo reconheceu.
— Sim...
— Preciso
dizer que o amor tem vida através de suas palavras — estendeu o livro — e que
desejo um autógrafo — falou divertida.
— Com prazer —
escreveu os dizeres — e fico feliz que tenha tocado seu coração — apresentou o
presente que tinha a oferecer —. Espero que esse possa falar diretamente com a
sua alma — antes de partir declarou mais alguma importante coisa —. Amem-se
sobretudo, o sentido da vida está em amar e ser amado — repetiu o ensinamento
que anos atrás tivera com o esposo.
Seguiu seu
destino deixando a história que escrevia desde o pedido de casamento.
O
Sentido da Vida.
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Me transportei para esse banco de praça e fiquei olhando as crianças e lembrando da minha infancia , da casa de vó ...que bela escrita , a emoção nos invade durante a leitura.
ResponderEliminarConto lindo e emocionante, ao mesmo tempo triste pelo choque de realidade em saber que todos nós seremos personagens de uma história parecida e iremos perder alguém ou seremos o ente que irá partir e deixar um coração despedaçado. Viver e aproveitar todos os momentos sempre! Parabéns pela sensibilidade.
ResponderEliminarConcordo com você que o sentido da vida está em amar e ser amado, não se pode viver sem amor, temos que viver a cada momento, pois os anos passam rápido é um piscar de olhos, momentos é pra serem vividos com quem amamos, um lindo conto sobre a vida, abraços.
ResponderEliminarAdorei!!!!
ResponderEliminarO amor verdadeiro é raro, mas quando encontrado dá à vida seu verdadeiro significado . ... Além disso, o amor é como uma vida coisa que precisa ser alimentado e cuidado, e palavras românticas estão entre os super alimentos da vida.
ResponderEliminarQue conto lindo, eu estou numa fase mais sensível que o normal e me tocou demais. Tenho até pensado muito sobre isso, sobre qual o sentido da vida e realmente, acho que o amor é mesmo o sentido dela. É uma pena que as pessoas não percebam isso. E confesso, consegui visualizar todas as cenas, todos os detalhes do conto. Me senti parte dele.
ResponderEliminarAs lembranças são nossas para sempre, por isso devemos cuidar muito bem dos nossos momentos, pois eles poderão se eternizar como uma grande história. Quem sabe um lindo livro de amor.
ResponderEliminarO amor verdadeiro supera barreiras, mas infelizmente está difícil de se encontrar nos dias de hoje. Esse conto é de tirar lágrimas, muito lindo!!!
ResponderEliminarNossa, me deixou super pensativa! Pensamos o significado do amor e da entrega. Teria o amor se ausentado da terra e fixado morada nas palavras? Bjo, qjo
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