[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 89 - Arrependimento
Capítulo 89 – Arrependimento
O ódio é um sentimento tão intenso quanto o amor,
capaz de transformar vidas para sempre, capaz de dominar os intentos de alguém
e fazê-lo decidir pelos caminhos mais improváveis. Tal como o amor, o ódio pode
cegar, não os olhos da carne, que enxergam o exterior, mas os da alma, capazes
de compreender as intenções do coração. No entanto, enquanto o amor garante
vida, o ódio é a certeza da morte, enquanto o amor vivifica aqueles que o
compartilham e o sentem, o ódio mata a todos que encostam nele.
Frederico teve uma vida construída a partir de ódio.
Perder a pessoa que amava de uma maneira tão brutal e injustificável esvaziou o
seu coração de quaisquer afetos que sentia e o encheu de desejo por vingança,
de responsabilizar alguém pela sua dor e puni-lo. Convencido pelo pai de que os
escravos não o estimavam e que só se aproximariam com o objetivo de tirar
vantagens, o barão de São Pedro escolheu se esquecer da bela história que
vivera ao lado de uma pessoa que por algum tempo o despiu de tantos
preconceitos. Em sua ignorância, culpou os negros por terem arruinado sua vida
enquanto os verdadeiros culpados permaneciam sobre o comando de um sistema que
oprimia, machucava e matava. Mas naquele momento de vulnerabilidade, de
fragilidade, jogado na masmorra como um animal, o homem prepotente precisou
assumir que errou, que cometeu uma loucura, que se transformou em um sujeito
que não representava o jovem Frederico, o que prometera amor eterno a uma
mulher que morreu por amar, que morreu apenas pela cor da pele, ele não era o
jovem rebelde que prometera mudar o futuro, ao contrário, sucumbira ao antigo
presente, o que se transformara em um passado de desventura.
Artur, por sua vez, desde muito cedo encontrou
carinho e afeto nas pessoas mais próximas de si, não teve tempo para odiar
ninguém, cresceu sem ter contato com esse sentimento tão devastador.
Apaixonou-se ainda adolescente. As brincadeiras infantis se transformaram em
realidade e as conversas de criança se mostraram um verdadeiro presságio do que
seria o futuro. Para sua alegria, Ana também o amava, também se apaixonara e
permitira que ambos vivessem o amor. A partir daquela decisão, quando enfim
pôde compreender a gravidade dos problemas que o cercavam, quando descobriu que
não poderia amar Ana livremente, Artur percebeu que o ódio rondava seu povo,
vitimava a sua família e aniquilava seus sonhos. Foi quando finalmente
experimentou da árdua opressão que passou a odiar alguém, que passou a odiar os
seus opressores, mas odiava muito mais o responsável por todo aquele tormento.
Estavam cara a cara.
Dois poderosos inimigos.
Dois sujeitos com tantas semelhanças, com muito a
acertar.
— Satisfeito? — o jovem escravo, contendo-se para não
colocar as mãos naquele que considerava como o pior homem que poderia conhecer,
confrontou o causador de suas muitas feridas —. Sempre tão cruel, tão audaz,
tão imbatível, mas veja só o que aconteceu, qual está sendo o seu fim, traído
pelos próprios companheiros! Valeu a pena toda essa maldade? Valeu a pena
derramar tanto sangue e torturar tanta gente? Valeu a pena afastar pessoas que
se amavam? Valeu a pena destruir a vida de minha mãe? Valeu a pena ser feito de
indesejável no meio daqueles que deveriam ser sua família? Valeu a pena matar
uma das pessoas que eu mais amava?! — bradou emotivo —. Você me causou tantas
dores, fez a tantos sofrerem, mas não foi o bastante para que o poupassem do
próprio veneno, sua vida foi inválida, sua existência é irrelevante!
Ouvindo cada palavra do discurso carregado de mágoas
e ressentimentos, Frederico conferia em seu coração que era verdade, que não
valera a pena ter confiado em palavras distorcidas e se entregado a uma vida
sanguinária. A culpa passou a assolá-lo. O arrependimento começou a
atormentá-lo. Se por algum tempo se sentiu Deus, agora se sentia como um verme.
— Você tem razão, joguei fora anos da minha
dispensável e repudiável vida — surpreendeu ao concordar, surpreendia pela fala
branda, gesto nunca demonstrado —. Nada do que eu disser é capaz de justificar
o erro que cometi, fiz uma escolha equivocada quando poderia ter feito a
escolha certa, quando poderia ter honrado a memória da única pessoa que amei,
mas escolhi me revoltar contra o seu próprio povo. Eu a traí. Não fui homem o
bastante para cumprir com minhas promessas. Foi dentre os escravos que surgiu a
mulher que amei, que verdadeiramente amei. Sua morte me destruiu, coloquei em
dúvida o que ela sentia por mim acreditando em palavras traiçoeiras de gente
ardilosa e, mesmo sabendo que estavam errados, escolhi oprimir na tentativa de
encontrar alívio para minha própria dor, mas ela só aumentou.
— Isso é desculpa de gente derrotada que quer se
livrar da própria consciência!
— Não! Essa é a verdade de um homem que ao invés de
amar optou por odiar e arruinou a vida daqueles que um dia prometeu defender —
encarou o rapaz —. Sei que deve ser um fardo saber que sou seu pai, que um
sangue tão podre corre em suas veias, mas quando era jovem, assim como você,
meus ideais eram rebeldes, intencionava acabar com a escravidão, dar liberdade
aos acorrentados, mais diferente de você, não tive coragem de lutar, não depois
de ter sido destruído pela atormentante visão, ela foi morta diante dos meus
olhos, até hoje vejo os seus olhos desesperados suplicando por vida, até hoje
sou atormentado por não ter feito nada! Estou arrependido da vida que escolhi,
vitimei a mim mesmo, mas de que valerá meu arrependimento? Tenho sangue nas
mãos, ouço gritos de desespero que causei, carrego vidas inocentes nas costas,
transformei-me em um monstro que não me livrou das dores que me afligem...
— Por que está falando essas coisas? Acha que terei
pena de você e oferecerei meu ombro para que chore? Até poucas horas atrás
estava com minha mãe, pronto para humilhá-la e agora faz esse discurso
mentiroso? Tenho todas as razões para matá-lo, só não o faço por que não quero
me igualar a um rebaixado!
— Não quero a sua pena nem o seu ombro, muito menos
que se rebaixe a mim, quero que saiba que o mesmo espírito revolucionário que
habita em você também habita em mim, a diferença é que tenho sufocado-o. Por
isso o persegui tantas vezes, via a mim em você, via o meu desejo por lutar em
você, eu não queria perder para mim
mesmo — precisou ser ágil e conter a mão do rapaz que se dirigiu para
agredi-lo —. Quero lutar ao seu lado, libertar o seu povo e depois cumprir a
pena que a mim determinar!
— Não acredito em você.
— Não tem escolha. Preso não conseguirá fazer nada,
mas eu posso soltá-lo, apenas preciso que confie em mim e me permita à luta.
Isso não mudará quem fui, mas ao menos me permitirá cumprir a promessa que fiz
a quem amava.
Ainda que hesitante, desconfiado, Artur decidiu
conceder um voto de confiança ao barão, era sua única chance de deixar aquela prisão,
era a única maneira de fazer justiça.
Em um canto estratégico da masmorra, atrás de um
bloco solto, Frederico escondeu a chave da porta metálica, sempre pensou nas
muitas possibilidades, imaginou que em uma das rebeliões os escravos poderiam
ter sucesso e o trancafiariam naquele lugar, nunca passou pela sua mente que os
seus próprios seguidores poderiam arruiná-lo.
Os prisioneiros alcançaram liberdade.
A partir daquele instante trabalhariam em conjunto.
¤
Sentado na cadeira que não lhe pertencia, apoiando
os pés sobre a mesa que sempre cobiçou, Sebastião mantinha os olhos fechados e
o sorriso discreto no rosto, finalmente a fazenda era sua, faria Frederico
sofrer um acidente e então ninguém contestaria o título de barão que seria seu,
existia um acordo, caso Frederico morresse e Ana não tivesse um marido,
Sebastião seria o herdeiro de tudo.
— Senhor! — um de seus homens interrompeu seus
devaneios.
— O que foi? — revirando os olhos, o sujeito
traiçoeiro dirigiu a atenção ao guarda assustado.
— Estamos sendo cercados por rebeldes, precisamos
reagir!
— Reúna nossos homens! — levantou-se depressa —. Não
tomarão o que é meu!
Homens dispostos a levar liberdade, liderados por
Heitor e Pedro, se avolumaram em frente à entrada da fazenda, estavam armados,
vestiam semblante de guerra, estavam convictos de seu objetivo.
Acompanhado por seus seguidores, usando de postura
severa, Sebastião se colocou perante os inimigos, reconheceu alguns dos rostos,
muitos dos combatentes eram seus antigos subordinados, homens que se
converteram ao lado certo da guerra.
— Onde está Frederico? — Heitor alçou a voz.
— Morto! — o capanga respondeu —. Como vocês serão!
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Bravo! —
Heitor aplaudiu o discurso ameaçador —. Palavras comoventes, bem articuladas, é
uma pena que estejamos fartos dessa injusta realidade e sedentos por justiça,
não voltaremos atrás em nossa escolha, se morrermos será como heróis, mas e
quanto a vocês? E quanto a homens presunçosos e mesquinhos que percebem na dor
do outro a sua sórdida satisfação? A história os honrará? Informo que elas os
aniquilará, não são dignos de serem lembrados!
De segunda a sexta, aqui no blog!
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