[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 90 - Final


Capítulo 90 – Marcados Pelo Amor

— Não acha melhor desistir dessa louca intenção? Não acha melhor voltar de onde veio e continuar vivo? — Sebastião prosseguiu —. Meus homens não são como vocês, rebeldes sentimentais, condoídos pela situação de vermes que insistem em considerar como seres humanos, eles são como eu, um homem impiedoso, racional, que não se deixa levar por emoções passageiras se precisar esmagar quem cruzar o seu caminho. Querem me enfrentar? É um direito que possuem, podem se arriscar em sua insanidade, mas garanto que serão atrocidados como se não passassem de inúteis!
— Bravo! — Heitor aplaudiu o discurso ameaçador —. Palavras comoventes, bem articuladas, é uma pena que estejamos fartos dessa injusta realidade e sedentos por justiça, não voltaremos atrás em nossa escolha, se morrermos será como heróis, mas e quanto a vocês? E quanto a homens presunçosos e mesquinhos que percebem na dor do outro a sua sórdida satisfação? A história os honrará? Informo que elas os aniquilará, não são dignos de serem lembrados!
Os escravizados, percebendo o movimento inesperado que tomava conta da fazenda, aproximaram-se curiosos, vestiram semblantes de alívio, teriam a chance de finalmente se libertarem das amarras de opressão.
— Ainda não perceberam que somos nós os autores da história? Ainda não se convenceram de que temos total controle sobre os cursos da vida? Até agora ditamos o futuro desses inúteis, até agora determinamos o destino de rebeldes desprezíveis, por que se ilude ao acreditar que a história mudará?
— Vocês a escreveram porque nunca foram confrontados devidamente, sempre incitaram o medo e enfraqueceram aqueles que possuem uma dor destruidora, sempre se usaram de astúcia e contaminaram aqueles de boa índole, fizeram com que acreditassem em uma soberania inexistente. Mas a libertação da consciência começou a acontecer. Vocês são fortes se os outros não pensarem, não entenderem que é loucura subjugar as pessoas por questões míseras e refutáveis, mas o tempo de seu domínio chegou ao fim, a maioria está despertando para a força transformadora que possui, é o término das trevas para o surgimento da luz! — enquanto Heitor falava, mais homens surgiam com postura valente, eram os negros refugiados no quilombo, seres humanos que se dispunham àquela batalha para que finalmente os poucos que restaram alcançassem liberdade —. Brancos e negros, seres humanos acima de tudo, distintos apenas pela cor da pele, nesse momento formam uma aliança para salvar a humanidade de ideais nojentos e injustificáveis, para instaurar uma nova era na qual a liberdade reinará! Se para tal é preciso guerrearmos — ergueu as mãos —, guerrearemos para vencer! — a partir de seu gesto a invasão na fazenda teve o seu início.
— Destruam-nos! — Sebastião vociferou aos seus seguidores —. Extirpem esses doentes do mundo!
A guerra começou.

Fugidos da masmorra, cautelosos para que não fossem surpreendidos por inimigos, Frederico e Artur assistiram de longe ao embate entre dois homens que representavam dois pensamentos, se para o jovem rapaz as palavras de Heitor reafirmavam suas próprias convicções, para o velho barão aumentavam seu sentimento de culpa por ter se acovardado e fugido daquilo que também acreditava.
— A luta começou — Artur exibiu um olhar esperançoso quando o confronto ganhou maiores proporções —. Já era hora! — tentou avançar, mas foi impedido pelo sujeito que se mostrava um alguém renovado.
— Enquanto se distraem com a luta salve os demais, ajude-os a escapar com vida e lhes diga que sinto muito por ter infernizado suas vidas — Frederico disse ao espantado rapaz —. Quanto a você, espero que algum dia possa me perdoar por cada dor maldita que lhe causei. Foi bom não saber que era meu filho, eu não o merecia nem você merecia alguém como eu por seu pai... — soltou o jovem guerreiro.
Sem palavras, reconhecendo a sinceridade na humilhação daquele que por tanto tempo foi seu maior inimigo, Artur assentiu com a cabeça concordando com a sugestão, anunciando secretamente que poderia perdoar o causador de tantos males, perdoaria porque não era governado pelo ódio, perdoaria porque sempre acreditou que amar é muito mais vantajoso.

— Fiquem aqui! — o Protetor, largando a enxada que usava para o trabalho, recomendou aos escravizados —. Lutarei junto a eles a luta que sempre desejei!
— Também vou! — Bruno se dispôs ao combate —. De hoje a nossa vitória não passa!

Enquanto uns se usavam da destreza das artes marciais que praticavam, outros faziam uso de armamentos para derrubar seus opositores. Dos dois lados da guerra homens tombavam defendendo os seus ideais. Mas um deles se tornava maior e mais forte.

— Ana! — desejoso pela chegada daquele dia, Artur surpreendeu a amada com o som de sua voz, abraçaram-se comemorando a proximidade da vitória —. Precisamos aproveitar que estão ocupados, precisamos tirar todos daqui!
Encorajada, a moça concordou.

Seus adversários estavam em número maior, seus homens perdiam a batalha, se quisesse sobreviver precisava dos poucos que ainda restavam.
— Já chega! — afastado do cenário caótico, Sebastião esbravejou atraindo as atenções, interrompendo o derramamento de sangue —. Como ousam se acovardar dessa forma? Vêm a nós em clara vantagem numerosa e querem combater de igual para igual?
— Isso é para você ver que os de bom coração excedem os de corrompido espírito, apenas adormecem, mas vencido o medo despertam para o que devem lutar! — ofegante, tendo o corpo tomado pelo suor da batalha, Heitor respondeu —. Essa briga termina aqui, seja lá o que tenha feito com Frederico nós o derrotamos, seu império está aniquilado!
— Não lutam por justiça? Não são defensores ferrenhos da igualdade? — lançou a arma que possuía ao chão, pediu para que os homens que o cercavam se afastassem —. Essa guerra só será de fato vencida se lutarmos com igualdade. Você contra mim! É a minha condição!
— Não há necessidade — Pedro tentou convencer o companheiro —. Já vencemos, o destruímos, podemos libertar os que restam e seguir com nossos propósitos, não ceda à provocação de um sujeito ardiloso e traiçoeiro!
— Quer ser considerado um homem honrado? — percebendo a conversa entre os combatentes, Sebastião lançou a última cartada —. Lute!
— Eu luto! — a poucos metros distante, escutando o que acontecia, Artur não permitiu que Heitor respondesse, colocou-se à sua frente, segurou com força a chance que teria de vingar os sofrimentos que a mãe experimentou e as dores que tantos outros provaram a partir daquelas mãos —. Se for o homem que diz ser lutará comigo, acertará de uma vez as contas!
— É justo! — arregaçando as mangas, Sebastião concordou sorrindo malicioso —. Pagará caro por aquelas noites na caverna!
— Não, companheiro — Artur rasgou a própria camisa —, é você quem muito deve!
A luta começou para a aflição daqueles que estimavam o jovem revolucionário.

Com certa distância confortável, Frederico posicionou-se com seu revólver, estaria pronto para acabar com aquilo, mas antes adoraria ver aquele que o traíra ser rebaixado ao pó da terra.

Desferindo o primeiro golpe, Artur atingiu o ar, mas não desistiu, logo arriscou mais um, mas como resposta teve a zombaria de seu adversário, no entanto, o terceiro golpe acertou o queixo de Sebastião que cambaleou alguns passos para trás e precisou se esforçar a fim de se manter em pé.
Querendo evitar novos ataques, o capanga se encheu da ira que o governava, revidou o ataque sofrido, se não fossem os poucos centímetros de imprecisão teria acertado o olho de seu oponente que, ligeiro, lhe passou uma rasteira, derrubou-o ao chão e subiu sobre ele sedento por nocauteá-lo.
Um soco. Mais outro. E mais um.
O nariz de Sebastião se quebrou vertendo sangue.
Mas ele jamais entregaria a luta. Usando as pernas golpeou as costas do rapaz conseguindo se esquivar de sua dominação, alcançando algo maior, sendo agora o dominador.
— Você é um merda! — agarrou o adversário pelos cabelos —. E é assim que morrerá, feito um merda! — chocou a cabeça do jovem contra o solo empoeirado.
Mas Artur era forte.
Suas condições o condicionaram a ser forte.
Usando as mãos tentou perfurar os olhos de Sebastião que, percebendo a intenção, conteve o inimigo pelos pulsos. Destro, Artur usou a perna para golpear seu adversário nas regiões sensíveis, conseguiu se libertar, desferiu uma pancada contra a face do capanga e outra vez assumiu o domínio sobre alguém que muito odiava.
Um soco atrás do outro.
O sangue mais parecia uma máscara que escondia o rosto do sujeito cruel.
— Se imaginasse o quanto desejo pela sua morte! — Artur parecia perder o controle —. Se imaginasse que o desprezo o bastante para considerar a sua vida uma insignificância! — não se cansava de agredir o monstro que parecia gostar daquilo, que sorria doentiamente —. Estaria implorando pela minha compaixão como muitos imploraram pela sua — ofegante, cessou a surra, ergueu o tronco do oponente puxando-o pelos cabelos, passou a encarar o íntimo do olhar agressivo —. Mas não vou matá-lo — Artur não percebeu, mas Sebastião dobrou o joelho fazendo o pé se aproximar da sua mão —. Quero que em todas as vezes que veja sua cara desconfigurada no espelho lembre-se de que foi feito de verme por um negro!
— Teve a chance de sobreviver — da botina, tirou o canivete —, é uma pena que sua alma compassiva agora o traia e o entrega à morte!
Reconhecendo a intenção do traiçoeiro homem, Frederico disparou contra Sebastião atingindo-o no braço, interrompendo sua ação em virtude da dor, poupando Artur de novo sofrimento. Para o espanto de muitos, apresentou-se com as mãos levantadas em um gesto de rendição.
— Acabou! — começou a falar —. Aqueles que sempre foram dignos da vitória finalmente a alcançaram! — dobrou os joelhos sobre o chão —. E eu estou me entregando para ser cobrado pelos meus atos egoístas!
Silêncio. Ninguém conseguia acreditar.
Perdendo sangue, sentindo que a vida poderia se esvair, Sebastião tirou proveito do revólver que descansava ao seu lado. Esforçando-se por controlar a própria mão, tomou posse sobre o armamento, lutou contra a turbes dos olhos e disparou contra aquele que sempre invejou. Foi o seu último ato naquele dia terrível. Rebeldes se dirigiram a ele mantendo-o imóvel.
Esperando que o pegassem com a mesma brutalidade que sempre ofertou aos oprimidos, imaginando que provaria do merecido sofrimento do tronco, Frederico foi surpreendido pelo som estridente e pela fisgada dolorosa que perfurou suas costas. Aquele era o seu último dia em um mundo no qual sofreu e fez sofrer.
Antes que tombasse, em uma cena espantosa aos espectadores, o barão foi acolhido pelos braços do puro e perdoador Artur.
Os olhos se cruzaram em um pedido de perdão e na concessão da súplica.
— Fui um lixo... — lutando contra a dor, enfrentando a falta de fôlego, Frederico se rebaixou um pouco mais —. Mas veja só, acolhido por um nobre homem... Seu pai teria sido feliz se não tivesse sido tão insolente...
— Você também sofreu, é uma pena que não alcançou a sorte de suportar o sofrimento.
— Eu tive escolha, mas preferi o erro — confessou —. Se me permiti, tenho um pedido a fazer.
— Se puder atendê-lo.
— Case-se com Ana perante a lei dos homens, eu sei que ela não é minha filha, ela nunca se pareceu com o monstro que me tornei e, apesar de ter relevado, sei também que Laís e Heitor sempre se amaram, antes mesmo do meu surgimento que os atormentou, ela não poderia ter um pai melhor — a voz fraquejou —. Assuma essa fazenda, limpe dela os vestígios do inferno e traga o seu povo para que a domine... É o que posso fazer tentando compensar os males que causei, sabendo que ainda assim não é o bastante...
Artur apenas assentiu.
— Deite-me no chão, não sou digno de morrer nos braços de quem deveria amar, mas que machuquei terrivelmente.
— Eu o perdoei, espero que também possa se perdoar.
Chorando, arrependido pela vida que desperdiçou em nome de preconceitos e covardias, o barão de São Pedro deu o último suspiro partindo de um mundo que teve a sua contribuição para ser injusto e doloroso, mas que ao final também teve a sua contribuição para ser corrigido.
Era o fim de um capítulo nebuloso em uma história de lutas, amores e emoções.

¤

Alguns dias mais tarde...

A fazenda estava cheia de pessoas alegres, despreocupadas, entretidas com as histórias que contavam e conheciam. Era uma noite de festa. Noite na qual, perante tantos olhos limpos de barreiras intolerantes, Ana e Artur finalmente oficializavam ao mundo o amor que entre eles imperava.
— Não foi fácil, mas chegamos até aqui! — desinibida, diferente do esposo que apenas se mantinha ao seu lado, Ana discursava aos convidados —. Após tantas dificuldades, tantas lágrimas, tantos sonhos que sonhamos apesar dos receios que sentíamos em nome das ameaças que eles sofriam, finalmente estamos livres para vivermos o nosso amor, para sermos tidos como exemplo de persistência, será sempre oportuno lutar pelo amor que se almeja viver! Não quero tomar o tempo de vocês, hoje é uma noite de alegria e contentamento, mas quero que saibam que a partir de hoje, oficializada a nossa união, Artur é o novo barão da província de São Pedro, é chegado um novo tempo, tempo de paz e amor! — foi aplaudida.
— Novo barão? — Artur se espantou.
— Frederico deixou um testamento, meu esposo herdaria suas propriedades, tudo o que era dele hoje é seu.
— Isso não é justo, você...
— Sei o que dirá... — sutil, descansando o dedo sobre os lábios do eterno amante, a jovem mulher o interrompeu —. Sei qual é o seu pensamento, sei também que entre nós não haverá separação, cuidaremos de tudo juntos, só é necessário que um homem assine os papéis, vamos deixar a luta pela liberdade das mulheres para o futuro, quem sabe nossos filhos tenham a sorte de construir suas vidas em mundo com mais essa transformação?
Artur abraçou a esposa.
Formavam o mais novo e poderoso casal de São Pedro.

— Valeu a pena manter segredo, hoje posso dizer que minha família está segura! — Laís, junto ao homem que amava e à filha, expôs seus sentimentos.
— Nossa menina é uma grande mulher! — Heitor confessou orgulhoso —. Aposto que teríamos lutado juntos, seríamos desbravadores impulsivos, acredito que tenha feito o certo ao esconder essa tão agradável surpresa, apesar de sentir que perdemos muito do nosso tempo.
— Não se pode chorar pelo tempo passado, não se pode perder tempo lamentando pela história que já foi, precisamos olhar adiante, ao futuro, nele está o tempo que ainda nos resta — sábia, Ana abraçou o pai, um gesto que nunca pôde fazer com Frederico, um gesto que lhe fez aumentar a certeza do quão prazeroso pode ser o amor em suas múltiplas formas.

— Senhor barão, é uma honra estar em sua magnífica presença — em tom de brincadeira, reverenciando o irmão, Felipe se colocou diante Artur —. No que posso agraciá-lo?
— Concedendo o abraço que há tempos não usufruo — fraterno, o jovem rapaz abriu os braços, acolheu o mais novo e sentiu o carinho do mesmo por si —. Esqueça disso, continuo o mesmo.
— Eu sei. Nunca se deixaria levar por poderes, mas é merecedor dessa conquista, depois de tantas dores, agora terá força maior a fim de proteger os injustiçados. Nossa mãe estaria orgulhosa!
— Agora que somos apenas nós precisamos nos unir ainda mais, você é tudo o que me restou do meu sangue, e eu o que restou a você, precisamos manter o nosso legado até o fim de nossos dias, manter o amor pelo qual fomos amados vivo em nossos corações.
— É o que faremos, foi o que sempre fizemos!


Após tantas tempestades, depois de momentos de desesperança e falta de crença sobre o futuro e até sobre o amor, finalmente estavam juntos para que jamais, pelo motivo que fosse, pelo medo que se levantasse, cometessem a loucura de se distanciarem, se separarem, entregarem-se à dor da separação. Estavam na festa, na varanda da casa grande, distantes dos demais convidados, onde se lembravam de como desvendaram os próprios sentimentos, como descobriram que se amavam, onde reafirmavam o compromisso de lutarem até o fim por aquilo que sentiam.
— Agora podemos falar em futuro? — tendo entre os dedos a taça que reluzia, encarando as estrelas que ornamentavam o céu escuro, refletindo sobre os últimos fatos e tentando imaginar a vida que ainda viria, Bruno lançou sua pergunta.
— Não importa mais falar em futuro, importa vivê-lo — acompanhando aquele que amava na apreciação da bela paisagem noturna, Pedro respondeu pensativo —. Como sempre poderemos aprender, tudo veio para nos ensinar o quanto é perigoso lutar contra as marcas do amor, elas nunca se apagam e se tentamos ofuscá-las acabamos machucados... — virou-se ao rapaz que o ouvia —. Demorei para perceber, mas entendi que é necessário lutar pelo que queremos, caso contrário, condenamos a nós mesmos a uma vida infeliz...
— Depois do aprendizado vem a sua prática — Bruno, encarando aquele pelo qual desceria aos confins da terra, abriu um singelo e apaixonado sorriso —. Esqueça tudo o que passou, todas as dores que precisamos suportar, no final tudo serviu para aprofundar as marcas que temos, aquilo que sabemos. Nós nos amamos. Talvez pareça cedo dizer, mas para sempre nos amaremos. Nada mais importa.
— Está falando tarde demais... — retribuiu o sorriso —. O para sempre já começou.
Observados pelas estrelas, beijaram-se rendidos ao amor que sentiam um pelo outro, um amor que poderia ser colocado à prova muitas vezes, de diferentes maneias, mas que sempre mostraria ser verdadeiro e benéfico aos que o viviam. Amavam-se apenas. Só queriam liberdade para viver esse amor e por ela lutariam enquanto vivessem.
Para o espanto de ambos, alguém pigarreou.
Desconcertados, afastaram-se um do outro.
— Desculpem incomodar, mas quando os vi precisei vir até aqui — era Egídio com sua branda e suave fala —. Se meu filho está feliz então eu fico feliz, se meu filho é capaz de amar você, eu também sou, quero que seja bem-vindo a nossa família — gentil, abraçou Bruno —. E só mais uma coisa — antes de sair, analisou que precisava fazer mais uma declaração —. Não se envergonhem ou receiem em suas demonstrações de carinho, não há vergonha ou receio em amar, vergonhoso e receoso é que existam tantas pessoas cometendo maldades e incentivando dores sem o menor pudor... — partiu deixando os jovens ainda mais aliviados, ainda mais seguros, dispostos a viver o que tanto queriam.


Enquanto um experimentou da dor de perder aqueles que amava apenas por defenderem o ser humano, a outra foi abandonada por aqueles que deveriam aceitá-la, auxiliá-la e protegê-la. Tiveram caminhos difíceis a percorrer. Esconderam-se atrás de máscaras a fim de sobreviver. Mas encontraram-se. Desvestiram-se dos disfarces e se permitiram a viver o amor sem mais o esconderem.
— Sente-se feliz? — participando da festa organizada por Ana, dividindo a mesa com sua amada mulher, Victor admirava sua beleza exterior e se espantava por sua força interior, era grato por tê-la encontrado, era grato pela surpresa da vida.
— Desde que o pesadelo acabou e em todas as noites dividimos o mesmo espaço, minha felicidade tem sido constante — sorridente, exibindo o sorriso empolgado que passara a ter desde que o amado entrara em sua vida, Rute respondeu.
— Estava pensando, já somos vividos, daqui a pouco estaremos velhos, não somos como os jovens que podem errar várias vezes tendo outras e novas chances, precisamos aproveitar o nosso tempo enquanto ainda o temos — acariciou o rosto liberto de máscara —. Arrependo-me por não tê-la conhecido antes, seria a mulher da minha vida como desejo que seja a minha esposa, você me aceita como seu marido?
Emocionada, tendo de volta a crença e a fé no mais nobre e sublime dos sentimentos humanos, Rute cobriu a mão que a acariciava e deu voz ao coração:
— As marcas que eu possuía eram superficiais, mas eu me importei demais com elas e lhes atribuí um valor doloroso que não possuíam. Até que você chegou e as limpou colocando em seu lugar marcas verdadeiras, profundas, que jamais serão apagadas. Estou marcada pelo seu amor, quero dividir minha vida com você enquanto eu puder, quero que nossos sentimentos se eternizem e quero ser chamada de sua esposa, é claro que o aceito como o homem da minha vida!
As palavras deram lugar ao beijo apaixonado que envolveu o casal e o fez se esquecer do mundo ao redor. Naquela noite de festa davam início ao maior dos compromissos: o de amar pela eternidade.


Para o amor não há condições, nem mesmo a idade impede que duas pessoas reconheçam e assumam o amor que sentem uma pela outra. Felipe, jovem ainda, inexperiente em tantos assuntos, tinha uma certeza: amava Sara.
— Agora estamos livres! — a garota sonhadora, mantendo as mãos sobre o pescoço do namorado, entregava-se à dança que tantos casais também apreciavam —. Livres para vivermos!
— Ainda temos coisas a conquistar — embora se contentasse pela alegria que a namorada exibia por vê-lo feliz apesar da recente perda, Felipe preferia manter os pés no chão, a sociedade que o cercava precisava se transformar de uma vez por todas.
— Como?
— Que as pessoas mudem seus modos de pensar, de agir, de ver o povo negro e todos aqueles que não são como elas, mas há uma conquista ainda maior, essa, no entanto, depende apenas da minha coragem — permanecendo com uma das mãos sobre a cintura da garota, o jovem moço levou a outra ao rosto que amava apreciar enquanto esbanjava o sorriso afeiçoado.
Sara, prestes a completar seus dezoito anos, não tinha mais dúvidas do que sentia por Felipe e do quanto por ele era amada. Naquele momento de ligação entre os olhares sentiu formigamento no corpo, imaginava quais palavras viriam.
— E que conquista seria essa?
— Sei que já conquistei o seu bem querer, também fui conquistado pela sua existência, mas quero que essa conquista seja diferente das conquistas materiais, que com o tempo perdem a graça ou são carregadas pelo vento, quero que ela se eternize, quero que você pertença à minha história para sempre, eu quero me casar com você!
Sara, admirando as íris castanhas que reluziam a chama dos lampiões espalhados pelo lugar, abriu um sorriso empolgado, abriu os lábios para que as palavras surgissem, mas desistiu delas, seu gesto sutil respondeu por si, anunciou o desejo por um futuro no qual Felipe não poderia deixar de pertencer. Beijou o amado em meio aos tantos casais que dançavam, celou o compromisso que firmavam naquele instante: seriam um só pelo resto de seus dias.


Contra um amor verdadeiro podem se levantar as ondas que forem, podem se apontar espadas afiadas e reluzentes, sedentas por um corte fatal, mas nada o pode destruir ou aniquilar, ele é verdadeiro, ele é poderoso, ele é invencível. Heitor e Laís viviam um amor verdadeiro, desde jovens conheciam a intensidade do que sentiam, o tempo não pôde diminuí-lo e a maldade de homens que jamais saberiam o que é amar também não pôde contê-lo.
— Às vezes me pergunto se o amor é mesmo tão bom e cordial quanto afirmam os românticos poetas, às vezes me pergunto se era mesmo necessário passarmos por tantas provações para que hoje estivéssemos aqui... — admirando os músicos que tocavam na celebração da união de dois amantes, acompanhado por aquela que sempre seria sua melhor e mais desejada companhia, Heitor expressou os próprios pensamentos.
— Se foram necessárias eu não sei, mas uma coisa é certa, elas nos deixaram mais fortes, imbatíveis, fortaleceram as marcas em nossos corações e nos fizeram ter certeza do que desejávamos — Laís, animada pela felicidade que a todos rondava, respondeu com a alma, expôs a lição adquirida a partir de tantos infortúnios.
— Isso é verdade. Lutei e lutaria tudo de novo por você — acariciou o rosto da amada —. De todas as marcas que carrego essas são as que tenho orgulho de possuir, marcas de um amor que foi colocado no fogo e o venceu, ficou mais forte e ainda mais cobiçado.
— É para isso que servem as provações... Para que tenhamos certezas...


A festa seguiu agradável até o fim, os convidados partiram satisfeitos pela noite de paz e tranquilidade que tiveram a sorte de viver, muitos parabenizaram o casal e desejaram muito amor no futuro, que aquela união rendesse frutos e que aquela casa se enchesse deles. Os amigos mais íntimos do casal também partiram deixando claro que aquela amizade nunca seria desfeita, lutariam outras lutas e precisariam um do auxílio e da coragem do outro.


Pela manhã do outro dia, no mesmo rio que testemunhara a concepção de seus sonhos, a confirmação do amor que sentiam e a realização das promessas sobre um futuro que parecia inalcançável, o casal apaixonado, livre de amarras ignorantes e injustas, celebrava a liberdade alcançada, o início da realização dos muitos sonhos, o começo de um novo e empolgante capítulo na inspiradora história que juntos escreviam.
— Dá para acreditar que vencemos? — como um garoto que acaba de conquistar importante prêmio, Artur sorria assistindo o tranquilo curso das águas —. Nunca falei, não quis preocupá-la com minhas angústias, mas por muitas vezes, no silêncio da madrugada, eu corria para cá na tentativa de me sentir mais próximo de você e derramava meu choro desejando ardentemente para que a vida fosse gentil e se alterasse. Fato é que minhas súplicas foram ouvidas e nunca mais precisarei recorrer a canto nenhum para senti-la porque estará sempre ao meu lado...
— Seu sofrimento também foi o meu, por muitas noites lamentei aflita por não saber como seria o futuro, por não ter a certeza de que teria a chance de acordar numa manhã de sol e ser os seus os primeiros olhos a contemplar — encostada sobre o ombro do eterno amante, Ana revelou o que por muitas vezes sentiu —. Mas todas essas dores, todos esses sofrimentos, agora precisam ficar presos ao passado, temos um futuro a viver, um reinado a manter, uma sociedade a transformar, sei que o novo barão da província de São Pedro dará conta do recado.
— Ainda não acredito que esse é o meu título. Depois de ser chamado de tantas coisas, nunca pensei que pudesse adquirir uma nomeação tão importante... Mas sem você nunca serei nada, um barão só pode ter êxito se a sua baronesa com ele governar — beijou a amada de uma maneira singela.
— E, alegro-me a dizer, depois de termos sido marcados ardentemente pelo amor, temos uma nova marca a carregar pelo restante dos nossos dias, toda a vez que a encararmos nos lembraremos do quanto nos amamos e do quanto fomos fortes para manter o nosso amor — pousou a mão do esposo sobre o próprio ventre —. Nós seremos papais! — revelou emocionada.
Artur, por alguns instantes, apenas sorriu feito um bobo, as lágrimas emotivas rolaram em seu rosto, seu coração palpitou mais forte por saber que o seu amor por Ana rendera frutos e aquilo o fazia se sentir o que por tantas vezes tentaram lhe arrancar: sentia-se humano como de fato era. Abraçou a mulher amada como seu bem mais valioso, o tesouro do qual nunca se desfaria, não poderia sobreviver sem ela e sem as marcas daquele amor invencível.


Os desígnios do amor são imprevisíveis, a forma como ele acontecerá será diferente para cada pessoa, ele marcará a cada um de formas e intensidades diferentes, o importante é todos se permitam a vivê-lo e permitam que o vivam. Ao amor não há um padrão, uma receita, uma forma certa para que exista, o amor é livre para ser como for e só é capaz de senti-lo verdadeiramente quem é livre também.

FIM

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