[Conto] Girassóis
O que seria de
mim sem o meu grande e único amor? Talvez nunca conhecesse o que significa
amar, ou teria sucumbido às tantas intempéries e hoje não teria a liberdade de
contar um pouco da minha vasta história. Mas não quero pensar nas desgraças que
me teriam ocorrido se Raquel, com seus olhos esverdeados, não tivesse sorrido
para mim naquele acampamento de verão, abrindo as portas para que eu pudesse
entrar em seu coração.
Deveríamos ter
por volta dos vinte anos quando amigos em comum nos convenceram à aventura. Não
nos conhecíamos, jamais imaginei conhecer alguém tão bela no exterior e tão
esplêndida na alma. Eu me apaixonei assim que fomos apresentados e nossas mãos
se tocaram acanhadas naquele desajeitado cumprimento que deu início às coisas.
Percebi que ela também sentiu algo no coração quando, ao anoitecer, espalhados
em torno da fogueira enquanto ouvíamos histórias, nossos olhos se cruzaram e
ela sorriu docemente. Aquele sorriso me enlaçou de uma vez por todas, passei a
desejar contemplá-lo para sempre, preciso agradecer a Deus por ter me concedido
tamanha honra!
Ficamos uma
semana no meio da mata convivendo como verdadeiros homens da selva, foi
divertido caçar frutos, aprender a escalar em árvores, foi prazeroso entrar em
conexão com a natureza da qual viemos. A experiência foi ainda mais
satisfatória porque Raquel e eu fomos nos aproximando, conhecendo interesses em
comum, tive a chance de ter no peito aquela paixão acrescida.
Ao voltarmos
para casa prometemos manter contato. É claro que nossos intentos estavam
escondidos atrás dos argumentos que defendiam uma amizade sem segundas
intenções, mas bem sabíamos que nossos corações já se comunicavam entre si.
As conversas
ao telefone nos faziam rir e chorar, contávamos conquistas e desabafávamos
sobre as derrotas, ao final encontrávamos apoio um no outro. Mas o telefone
deixou de ser suficiente, queríamos nos ver, não adiantava acreditar que éramos
apenas bons amigos, entre nós existia algo muito maior do que a mais forte e
genuína amizade.
Nossos
primeiros encontros foram complicados, às vezes não conseguíamos dar vazão aos
assuntos como fazíamos por telefone e o desagradável silêncio nos fazia
companhia, era, então, quando íamos embora, mas eu nunca gostei de nossas
despedidas. Sentia medo. Culpava-me por minhas inseguranças e temia que alguém
mais ousado conquistasse Raquel, eu não queria perder aquela que nem tenho
certeza se poderia chamar de minha.
Naqueles
encontros, no entanto, apenas tive certeza de que finalmente encontrara a
mulher da minha vida, ela era simples e gentil, era divertida e inteligente, se
um diálogo não precisasse de ao menos duas pessoas para acontecer eu não me
incomodaria de passar horas ouvindo o melodioso som de sua delicada voz. Para minha
surpresa, remetendo a uma de nossas conversas, ela se mostrou interessada em
conhecer a fazenda da minha família. Eu, é claro, vendo a oportunidade para
declarar os meus sentimentos em um ambiente mais reservado, prometi que seria
um de seus melhores passeios.
Foi naquele
dia especial que o nosso amor tomou formas, contornos e consistência.
Logo pela
manhã, quando o sol nos agraciava com um belo e encantador amanhecer, chegamos
ao lugar que eu mais amava visitar, onde eu me sentia em paz e protegido, onde
meus pensamentos se acalmavam e o futuro não parecia uma incógnita. Vi nos
esverdeados olhos de Raquel seu encantamento, não era para menos, como ela, o
meu recanto era dominado pela beleza natural.
— É lindo! — entusiasmada,
vestida naquele dançante e delicado vestido florido, deixando para trás os
rastros de seu adorável e adocicado perfume, a mulher dos meus sonhos foi
atraída como imã para o conjunto de girassóis que enfeitava a entrada da
fazenda. Meiga, farejou as plantas com os olhos fechados, não sabia que, como
eu, apreciava tanto as pequenas e maravilhosas coisas da vida.
— Há muitos
deles por aqui — falei indicando ao redor —. Minha mãe adorava girassóis, meu
pai fez questão de encher a fazenda deles, foi uma homenagem que a emocionou em
vida e que nos faz sentir próximos a ela mesmo após sua dolorosa partida.
— Eu sinto
muito — atenciosa, Raquel se aproximou de mim despertando minha vontade por
tocá-la, abraçá-la, declarar tudo o que sentia —. Meu pai também se foi, em um
acidente no trabalho, mas como vocês também o homenageamos, é a maneira que
encontramos para eternizar aqueles que amamos.
— Às vezes me
pergunto por que precisa ser assim, por que temos que nos separar daqueles que
são importantes para nós — olhei para os pássaros que se aventuravam pulando de
uma árvore para outra —. Às vezes a vida perde o sentido...
— Pessoas se
vão e outras chegam. Amores precisam ser interrompidos para que outros comecem
— tocando minhas mãos, acolhendo-as com ternura, Raquel fez com que meus olhos
se voltassem a ela —. A vida não tem sentido, ela nos permite lhe dar o nosso
próprio sentido... —a partir de palavras tão profundas, meu coração acelerou,
quase beijei a mulher que me fascinava, mas não tive coragem, preferi pelas
distrações, coisas que naquela espaçosa fazenda não faltavam.
Mostrei para
Raquel as demais belezas do lugar, antes de andar a ajudei a realizar um antigo
sonho: perder o medo de andar a cavalo. Ela se assemelhou a uma criança que
descobre o inacreditável, assistindo sua felicidade minha convicção apenas
cresceu: estava realmente apaixonado. Ao meio-dia entramos numa disputa para
decidir quem iria cozinhar, mas como fizemos pelo restante de nossos dias
entramos num consenso, eu conheceria sua macarronada e ela descobriria o sabor
da minha salada de maionese, talvez a combinação não fosse tão apropriada, mas
quando estávamos juntos o amargo ficava doce porque o amor é capaz de infinitas
magias.
Nosso dia
prosseguiu, conversamos sobre nossas famílias enquanto eu lhe mostrava um álbum
antigo e ela me mostrava fotos que tinha no celular. Contamos tantos causos,
rimos com as tantas encrencas nas quais nos metemos e nos emocionamos ao
mencionarmos aqueles que viviam apenas nas lembranças. Foi uma tarde inesquecível
na qual o silêncio deixou de se manifestar e os assuntos simplesmente surgiam.
Entardecia
quando levei Raquel para conhecer o rio que cortava a fazenda. Sentamo-nos à
sua beira e por alguns minutos apenas observamos as águas correrem. Embora o som
não se manifestasse, as palavras se agitavam em minha mente, eu queria me
declarar, ter a chance de viver o que meus pais viveram, ter a chance de
usufruir de um amor inabalável.
— Já se
apaixonou? — temendo que a pergunta fosse indiscreta, temendo a resposta que
teria, ainda assim me arrisquei.
Aparentemente
confusa, exibindo um sorriso discreto, Raquel encarou a mim por alguns
instantes, tornou a admirar as águas tranquilas quando finalmente dissipou o
silêncio:
— Já namorei,
se é o que pretende saber, mas nunca foi por estar apaixonada — para mim nascia
uma esperança, e se eu conseguisse a proeza de despertar sua paixão por mim? —
Namorei porque acreditava que precisava namorar, mas hoje estou livre desse
equívoco, livre para, quem sabe, finalmente me apaixonar — tornou a me encarar
—. E você? — perguntou do seu jeito travesso —. Um cavalheiro tão galanteador
deve arrastar a multidões! — era um elogio?
— Devo dizer
que equivocou-se — respondi em meio ao risos —. Nunca namorei por nunca me
apaixonar, sempre quis esperar a aparição da pessoa certa — naquele momento
toquei na face de Raquel e abri meu coração, pena que apenas na minha
imaginação —. Hoje as pessoas parecem ter banalizado o amor, quero alguém que
se disponha a vivê-lo para sempre sabendo que isso exige inúmeros esforços.
— Você é
romântico — falou como se estivesse admirada —. Eu espero que essa pessoa
chegue e o faça feliz, como é seu merecimento — mal sabia ela que era a
procurada pessoa.
As estrelas já
dominavam o céu quando, após um dia tão precioso, decidimos que era hora de
partir. Confesso que meu peito se apertou com a ideia, queria para sempre viver
ao lado de Raquel e esse desejo talvez dependesse daquele dia. Eu nunca saberei
o que teria acontecido se não fosse aquele dia, mas também não importa, ele
aconteceu e me concedeu eterna alegria.
— Raquel... –
antes que entrássemos no carro pronunciei o mais belo e sonoro dos nomes
atraindo a face angelical para mim —. Raquel, eu preciso falar uma coisa —
senti-me um idiota, e se fosse rejeitado? As palavras sumiram tão facilmente
quanto apareceram.
— Matheus? —
meu nome soou no som de sua voz, eu queria que aquilo acontecesse para sempre,
não poderia me esconder atrás de medos bobos, precisava ser valente e, como um
guerreiro, conquistar meu objetivo.
— Eu nunca me
apaixonei até nos cumprimentarmos naquele acampamento, foi quando meu coração
se agitou e eu finalmente descobri o que é ser conquistado por alguém —
cauteloso, sem querer afastar a linda mulher, toquei em suas mãos enquanto me
fascinava pelo par de esmeraldas que embelezava o rosto de Raquel —. Não sei ao
certo o quê dizer, nem como dizer, mas fato é que eu me apaixonei por você e,
se me permitir, posso lhe apresentar um homem ansioso por garantir felicidades
ao restante dos seus dias...
Percebi que
seus olhos se agitaram e encharcaram, suas mãos se pressionaram às minhas e
seus lábios desenharam o mais fascinante dos sorrisos.
— Pode parecer
mentira, mas o mesmo me atingiu, só não confessei por medo de estragar tudo e
perder um amigo que nunca tive — suas mãos se soltaram das minhas e uma delas
pousou sobre o meu rosto —. Permitirei que me apresente esse homem se me
permitir lhe apresentar uma mulher que junto a você quer aprender todos dias
sobre o que é o amor.
As palavras se
esgotaram.
Beijei a doce
Raquel.
Naquele beijo
senti meu corpo estremecer e ser invadido por todas as sensações que nunca
havia experimentado, sensações que me convenceram de que não era apenas paixão,
eu começava a amar alguém.
Separamo-nos
alguns centímetros.
Mas parecíamos
sedentos por aquilo, como se tivéssemos sido privados daquilo por muito tempo e
agora tivéssemos reconquistado a liberdade de vivê-lo.
Tornamos a nos
beijar, mas com maior intensidade e mais desejo: nossas almas estavam
satisfeitas, contudo as nossas carnes se almejavam. Como se forças maiores nos
governassem, fomos levados de volta para casa, com as costas abri as portas do
meu quarto e descansei nossos corpos sobre a cama.
Foi quando
recobramos a consciência.
— Perdoe-me —
falei preocupado.
— Não posso
perdoá-lo por algo que também desejo.
E, então,
naquele dia inesquecível, nossos corpos se uniram para que jamais se separassem
e nossas almas se conectaram para que jamais deixassem de se comunicar.
Ao amanhecer,
querendo impressionar aquela que agora poderia chamar de namorada, preparei o
café da manhã, não hesitei em levá-lo à cama e, tão logo Raquel despertou,
apresentei o que tinha preparado. Mas pedi paciência, tinha uma surpresa.
— Sou grato
por ter conhecido alguém tão especial — voltei mantendo as mãos escondidas
atrás das costas —. E espero que ele se mantenha em minha vida pela eternidade,
agraciando o meu jardim, reinando em meu coração — revelei o buquê de girassóis
que eu mesmo preparara, entreguei-o a mais bela das donzelas e, como o maior
dos pagamentos, recebi o seu amor.
A partir
daquele dia, em todas as manhãs, não deixei de presentear minha amada com as
flores que tanto apreciava, nem mesmo agora, no auge dos nossos oitenta anos,
nem mesmo agora que ela já não sabe o meu nome e a cada dia se sente mais
confusa. Eu sei quem ela é, o que foi e o que para sempre será. E enquanto eu
souber que a amo demonstrarei esse verdadeiro amor, sei que no âmago de sua
alma ela me reconhece e, em todas as manhãs, espera pelo que prometi lhe
conceder: infelizmente o amor não é palpável, mas os girassóis sim, eles
representam meus sentimentos pela mulher da minha vida.
~~~~~~
Vem
aí, uma nova emoção!
Há sentimentos que
não se pode explicar, definir ou analisar de onde surgiram ou para onde vão. Há
sentimentos que desafiam as regras e simplesmente nascem, florescem e dão
frutos. Dentre esses sentimentos está o amor, o mais nobre dos sentimentos, o
mais fervoroso e corajoso, aquele que se opõe ao preconceito, aquele que se
revolta contra a injustiça, aquele que se levanta assiduamente contra o ódio.
Ana e Artur, dois
jovens seres humanos, distintos apenas na cor da pele, igualmente dignos de
desfrutarem do que de melhor pode existir. Apaixonaram-se contrariando as
regras, ignorando os perigos, ensurdecendo-se às ameaças que seriam obrigados a
suportar se quisessem manter tal amor vivo, inteiro, íntegro até o último dia
de suas vidas. Para que não apenas o sintam, para que vivam esse amor
verdadeiro, inspirador, precisarão combater contra uma mente ignorante,
preconceituosa, que nunca soube ou se esquecera do que é amar, do que é o amor.
Precisarão combater contra o barão de São Pedro, Frederico, pai de Ana, o homem
mais poderoso e temido da região. O amor será colocado à prova, tal como o
ouro, o fogo só não conseguirá consumir aquilo que for realmente verdadeiro.
01º
de julho estreia, aqui no Web Livro e no Wattpad, sua nova emoção de todos os
dias. Marcados Pelo Amor! Uma história que vai marcar seu coração!
<<>>
Não
perca, toda sexta, um novo conto!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!