[Conto] Para Sempre


Eu acredito que o maior erro da juventude esteja no ato de acreditar que a imortalidade é uma possibilidade, de que vencer o passar do tempo é uma tarefa que somente os fracos não conseguem resolver, de que somos fortes demais para qualquer tempestade que fazemos de chuvinha que a nós sobrevém. Eu acredito que o maior erro da juventude seja o de viver nesse universo de imaginações provocado pela petulância que há dentro de nós. Mas a vida passa, o relógio não trava e o tempo mostra que o nosso tamanho é bem menor do que poderíamos acreditar.
Aprendi isso tarde demais,
Derramei lágrimas para tal.
Mas, agora, passando esses dedos trêmulos sobre os lábios que em tantas noites me aqueceram e que em tantas manhãs me agraciaram com o seu belo e delicado curvar, posso abrir um singelo sorriso sendo levado de volta ao passado, quando a minha história de amor começou, quando eu acreditava que era bom demais para ser finito.

Éramos adolescentes ainda, ou ao menos estávamos no final dessa fase conturbada do ciclo humano quando nos conhecemos e instantaneamente nos apaixonamos. Apesar de jovens, inexperientes em tantos assuntos, nunca ousamos duvidar de que o nosso amor fosse verdadeiro, nem mesmo vacilamos quando diziam que era apenas uma paixonite, amávamo-nos verdadeiramente, desde sempre nos amamos.
Entretanto, apesar dessa certeza, a timidez da juventude nos aprisionou em uma amizade que parecia eterna, que muito estimávamos, que por algum pouco de tempo serviu para aquietar nossos desejos apaixonados, mas que quanto mais nos aproximava, mais deixava de ser o suficiente e alimentava as reais intenções que pulsavam em nossas almas predestinadas ao amor.
E, então, um belo dia, a magia aconteceu.
Estávamos na praia naquele fim de tarde de outono quando o vento frio que soprava das esbeltas ondas tocavam nossos corpos ainda distantes. Apreciávamos o reflexo do sol nas águas agitadas enquanto falávamos sobre os planos para o futuro. Mas naquele dia, diferente de todos os outros, minha atenção às palavras era mínima, meu foco estava naqueles olhos esverdeados que reluziam como joias preciosas ao colecionador devoto. Ela era linda. Seus cabelos dourados, ondulados nas pontas, dançavam no ritmo do vento e exalavam o perfume que passei a desejar para sempre sentir.
Ela queria se formar em medicina, prometera ao avô falecido que não pouparia esforços para cuidar de cardiopatas, principalmente dos menos favorecidos que dependiam dos serviços públicos. Confesso que muito mais pela sua beleza estonteante, eu era apaixonado pelo coração valoroso que pulsava dentro de si. Mas naquele dia eu não falei sobre os meus planos individuais, não aguentava mais colocar a cabeça no travesseiro e não ter sossego dos cenários que criava em minha mente, dos diálogos que imaginava serem possíveis para que abrisse meu coração. Pouco me importava minhas realizações pessoais. Meu maior objetivo só seria alcançado se Ester me aceitasse.
— Espero que não me interprete mal, mas não posso responder sua pergunta, não por enquanto, o que tenho a falar vai além de mim, envolve alguém que aprecio — ela queria saber dos meus projetos, mas naquele instante só um importava: amá-la pela eternidade. Pela primeira vez, de uma forma nunca feita, aproximei-me da garota que me enlouquecia, que me transformava em um verdadeiro poeta, que de mim tirava os mais belos versejares —. Sei que somos amigos, não posso negar que nossa amizade tem me feito um bem grandioso, se antes eu levava uma vida de bacana, despreocupado com o futuro, agora, por sua causa, anseio ter uma vida, ser alguém e servir de orgulho às pessoas que amo ou ao menos à pessoa que mais amo. Essa transformação não seria motivada apenas por uma amizade. É o amor. É o amor que nos transforma — encarando seu olhar intenso, arrisquei-me a envolver a delicada mão que descansava sobre a areia ainda morna, respirei e prossegui —. É claro que tenho planos individuais, e não os esconderei de você, mas meu maior sonho não se resume a mim, envolve a garota pela qual estou apaixonado, a garota que prometo amar intensamente se for aceito como seu namorado...
Aquele sorriso que pelos próximos anos balançaria meu peito a cada exibição se abriu instantaneamente, seus olhos se encheram d’água e eu percebi que as palavras não soariam embora estivessem dentro do seu coração. Rompi as distâncias. Venci a timidez. Nossos lábios, pela primeira vez, se uniram tendo o mar como testemunha, pela primeira vez fui aquecido pelo seu beijo adocicado.

Daquele dia em diante a amizade deu lugar ao amor, a uma maior cumplicidade, a uma lealdade que jamais se abalaria, que nunca deixaria de existir. Os meses se passaram e nossos sentimentos apenas se fortaleceram.
E, agora, passando esse dedo apreensivo sobre o rosto macio, sou levado de volta ao passado, quando nossa parceria se firmou um pouco mais.

Desde aquele beijo na praia de passaram dez meses. Estávamos convictos de que aquele seria o nosso futuro, tal certeza respingou sobre as pessoas que nos cercavam e que passaram a acreditar que entre nós o sentimento era eterno.
Nossas famílias se aceitavam e nos aceitavam. Nunca me esquecerei dos pais que ganhei e nunca sairá da minha mente a forma acolhedora como meus pais abraçaram a garota dos meus sonhos. Entre nós existia harmonia. Uma ligação que nada romperia.
Mas, então, ao final daqueles dez meses, uma notícia nos abalou.
A mãe de Ester, duas semanas depois de ter descoberto o câncer, precisou dar entrada emergencial no hospital, lutou por sete dias, não cedeu nem um pouquinho, mas suas forças se esgotaram e sua vida ali se findou.
Ester era muito próxima da mãe, nem preciso dizer que sofreu arduamente, algo que por tantas vezes me fez ter a revoltada vontade de ter o poder de com minhas mãos aliviar o seu sofrimento. Foi meu primeiro choque de realidade na juventude: as coisas não estavam sobre o meu domínio. Mas não dei a devida importância à lição, não sabia que mais tarde precisaria dela.
Ao final do enterro, depois que os muitos parentes e amigos se despediram ofertando suas palavras de condolências, restamos apenas Ester e eu sentados no banco de concreto em frente à sepultura que guardava o corpo de uma mulher tão especial. Angustiada, enfraquecida, como que indefesa, Ester se lançou ao meu peito, seus dedos se enterraram em meus braços e sobre mim derramou o choro apertado.
Foi quando, de uma maneira inédita, toquei a pele macia de seu rosto, molhada pelas muitas lágrimas que disputavam espaço. Foi quando tive outro choque de realidade, ao qual dei o merecido crédito. Aprendi que aquilo era amor, aquilo era amar: nas horas de maiores dificuldades, nos instantes de maior sofrimento, não importa o tanto de amigos que tenhamos, nem a quantidade de parentes que se apresentem, tudo o que queremos é o afago daquele que em suas mãos possui o nosso  coração.
— Vai ficar tudo bem — foi o que consegui dizer na tentativa de consolar —. Sempre estarei aqui, por você... — aquela foi minha mais importante promessa, selada com o beijo que depositei sobre os fios dourados enquanto envolvia minha amada no abraço que intencionava aliviá-la de tanta dor.

Aquela de fato foi a maior lição que aprendi. Amar é confiar a alguém o seu momento de fraqueza e é reconhecer que o outro confiou em você ao fazê-lo. Hoje as pessoas parecem errar nesse ponto, confiam a qualquer um a sua dor, ou então desdenham daqueles que lhes confiam lágrimas. Está o amor em extinção?
Mas, agora, passeando esses dedos encharcados sobre os ombros convidativos ao toque, mais uma vez sou levado ao passado, quando o amor se consumou, quando em meu vigor da juventude não me preocupei com o fim das coisas, o término parecia inexistente, atentei-me apenas ao início delas.

Alguns meses após a tragédia, quando já estávamos recuperados e voltávamos a sorrir de coisas bobas e a enxergar animais nas nuvens, pedi a mulher da minha vida em casamento. Sempre emotiva, ela veio às lágrimas, me confortava saber que seu choro era de alegria.
A festa foi um sucesso, acho difícil me lembrar de algum convidado que não tenha nos dito o quanto estavam emocionados. Aquela noite ficaria marcada para sempre em nossas memórias afetivas.
Mas foi a pós-festa que nos ligou ainda mais.
Nossa viagem de lua de mel aconteceria em uma semana, então fomos para a casa que juntos escolhemos, mobiliamos e decoramos ao nosso gosto. Nossos corpos se desejavam, ansiavam pela consumação daquele amor que ainda crescia. Mal subimos às escadas e nossos lábios não se desgrudavam, foi quando a porte atrás de mim bateu que percebi que minha camisa já não me pertencia. Afastamo-nos alguns milímetros. Ficamos nos encarando pelos segundos que se sucederam. Foi quando tive a certeza de que não estava apressando as coisas, de que Ester me desejava tanto quanto eu a queria.
Toquei o rosto macio. Como embriagado, senti o calor de seus lábios em meus dedos. Desci aos seus ombros sedosos, massageei-os ternamente querendo dizer que sempre os tocaria como se estivesse tocando em rosas.
A distância tornou a se encurtar.
E a paixão nos aqueceu.
Ofegantes, nossos corpos exauridos se derramaram sobre os lençóis. Ester se deitou sobre meu peito e eu a envolvi com meus braços na intenção de nunca mais abri-los. Nossos dedos se entrelaçaram e nossos corações se abriram.
— Quando descobri que estava apaixonada não acreditei que fosse chegar onde estamos, pensei que fosse um devaneio adolescente, mas olhe só para nós — tocou minha face com seu dedo suave —, acorrentados um no outro.
— Por um pouco de tempo tive a mesma impressão, mas quanto mais ouvia sua voz, mais sabia que seria impossível viver sem você — envolvi a mão que descansava sobre meu rosto e a beijei apreciando o seu calor —. Sim, estou preso a você, minha melhor prisão, minha eterna prisão...


Para sempre, pela eternidade, para além da morte. Todas essas ideias são repetidas exaustivamente quando somos jovens, quando estamos embebidos pela força, pelo vigor da juventude, acreditando que somos de fato duradouros. Falei em eternidade e acreditei no que tinha falado, mas a eternidade chegou ao fim. Hoje, passando meus dedos sobre o quadro que repousa no lado da cama que por tantas noites teve a sorte de servir de aconchego ao corpo da minha amada, derramando lágrimas sobre a fotografia de Ester, tudo o que restou da mais bela mulher, entendo que a eternidade é relativa, só é eterna enquanto dura. E é isso o que precisamos ter em mente. É isso que essas rugas que carrego na face trouxeram consigo. Amei enquanto pude. Talvez quisesse aprender mais cedo que as coisas acabam, mas então viveria condenado a me preocupar com tão indesejável verdade. Ao invés disso vivi o presente, embora acreditasse no para sempre nunca deixei para amar depois, amei sempre que tive a oportunidade. O erro da juventude não é acreditar no para sempre, mas achar que estará aqui para ele. Nossas histórias, enquanto tiverem alguém para contá-las, atravessarão a nossa própria morte, mas nós não as escreveremos pela eternidade... Ame hoje, viva hoje, que o “para sempre” da sua história inspire aos tantos escritores que ainda virão...

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Vem aí, uma nova emoção!

Frederico, o barão de São Pedro, era mais do que um homem arrogante, era cruel, vil, hostil, sádico, enfim, um sujeito desumano. Não aparentava possuir nenhum pingo de humanidade, seus sentimentos foram tragados pela perversidade que o possuía. Pouco se importava em amar, também não se interessava em ser amado, seu maior objetivo sempre foi possuir, dominar, subjugar, ser como o divino, ter o poder da vida e da morte. Não se comovia com lágrimas, seu prazer estava em provocar o horror e ver que suas vítimas se convenciam de que nele, somente nele, estava o alívio que tanto buscavam desde que implorassem por misericórdia. Não compreendiam como um homem poderia ser tão traiçoeiro quanto o poderoso Frederico. Mas ele possuía segredos, segredos transformadores, segredos que viriam à tona com seu poder destruidor. Seria o imbatível abalado? Teria o amor forças suficiente para vencer uma mente doentia?

Dessa vez temos uma novidade. Ao invés de os capítulos serem postados apenas no blog, também serão compartilhados na plataforma Wattpad, um site de livros (cujo aplicativo você pode baixar gratuitamente no seu celular a partir da loja virtual como Apple Store e Google Play, basta fazer um cadastro rápido com seu e-mail e pronto!). Porém, com uma diferença. Enquanto que aqui no blog, de segunda a sexta, será postado um capítulo por dia, toda segunda, no Wattpad, disponibilizarei cinco capítulos de uma só vez! Aí você decide por qual lugar se sentirá mais confortável para se emocionar, amar e odiar! Lá no Wattpad você me encontra com o user @AmiltonJunior21, pode me seguir, adicionar Marcados Pelo Amor em sua biblioteca no dia 01º de julho, e não perderá nenhuma atualização, terá acesso a cinco novos capítulos toda segunda-feira! Por hoje só, mas na próxima segunda, exatamente às 17h15, começaremos a nossa jornada, espero você!

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