[Conto] O Direito de Amar
Os dedos
delicados deslizavam sobre a pele macia ao toque. Os cabelos cheirosos cobriam
parte do tronco desnudo enquanto este subia e descia conforme o lento ritmo da
respiração. Os braços sempre tão fortificados envolviam o corpo frágil que
muito apreciava ter a sensação de segurança. Dois amantes dividiam os mesmos
lençóis, compartilhavam os mesmos cobertores e mutuamente se aqueciam naquela
fria manhã de inverno.
— Sua
companhia é sempre tão agradável — a voz meiga sussurrou discreta, temia ser
notada, precisava ser encoberta —. Sinto-me lisonjeada por tê-lo em minha vida
apesar de todas as dificuldades.
— Um amor
verdadeiro supera todos os desafios e eu te amo genuinamente — a voz suave
também soou cautelosa, precisava ser assim, aquele amor precisava ser vivido
hesitantemente para que pudesse sobreviver —. Não me importarei se for
necessário que vivamos em uma caverna, se em manhãs como essa eu a tiver em
meus braços serei o mais honrado dos homens!
— Falando
assim sinto vontade de aceitar sua proposta, vencer o medo e desbravar esse
mundo como uma fugitiva, mas além de injusto é perigoso, seríamos confrontados
em qualquer lugar, seríamos oprimidos onde estivéssemos, não é essa a vida que
merecemos — levou os olhos singelos ao rosto que tão bem conhecia, cujos
mínimos detalhes nunca passaram despercebidos —. Não posso me render, não
podemos nos entregar, todos vivem os seus amores ou aquilo que acham ser o
amor, nós também somos dignos desse direito com a vantagem de nossos
sentimentos serem reais e verdadeiros — acariciou a face cuja barba era bem
cuidada, tocou os lábios cujo sabor nunca deixava seu paladar —. Eu amo você,
caro cavalheiro, não serão ordens descabíveis que mudarão tal realidade...
— Ouvindo-a
falar dessa forma, cheia de valentia e determinação, disposta a encarar os
problemas nos olhos, sinto-me um covarde por cogitar fugir dos tais, às vezes
me questiono se mereço tão digna mulher — cobrindo a mão que pousara em seus
lábios, entrelaçando os dedos que como imã se atraíam, o sujeito apaixonado
abriu um sedutor sorriso —. Mas então me alimento da sua força, encho-me da sua
coragem e entendo que você não merece viver nas sombras, nós não merecemos ser
obrigados a esconder da luz algo tão puro... — acariciou as bochechas rosadas
—. Concluo que pelo amor sempre valerá qualquer luta — trouxe a amada mulher
para si, beijou-a com ternura e desejo.
Do corredor,
passos foram ouvidos.
De repente, a
porta se abriu.
— Juliana,
apronte-se — o pai da jovem moça soou a potente voz —. Precisamos resolver um importante
assunto lá embaixo.
Tão logo o
sujeito hostil deixou o quarto, o jovem rapaz ressurgiu da varanda.
— Henrique,
precisa ir — conteve-o antes que cedesse aos seus beijos e incentivasse a ira
do pai —. Mais tarde nos encontraremos no lugar de costume.
— Contarei
ansioso os segundos que até lá demorarão — cortês, beijou a mão da moça pela
qual se afeiçoara, hábil, escalou até o telhado e sumiu das vistas de sua
amada.
Elegantemente
vestida, para o agrado do pai, Juliana desceu as escadas exibindo o largo e
simpático sorriso, escondendo a desconfiança que surgira entre os seus
pensamentos quando avistou na sala de estar um velho amigo do poderoso
governador acompanhado de seu jovem filho.
— Perdoem-me,
rapazes, por um deslize perdi a hora — aceitou a mão estendida do pai, por quem
foi levada para mais perto de seu convidado.
— Uma dama tão
bela não tem com o que se preocupar — o importante comerciante tirou o chapéu
em demonstração de respeito, beijou a mão coberta pela luva de pano —, a não
ser servir ao seu marido — aquele homem conhecia os princípios da moça, o olhar
provocativo confirmou a audácia das palavras.
— Servir ao
meu marido? — sorrindo educadamente, Juliana ocultou o desconforto que tal fala
lhe causou —. Lamento dizer, mas sou uma mulher solteira. Ainda que me case,
não estarei ao lado de um tirano, terei um esposo, a quem não servirei, mas
inegavelmente amarei...
— Este é
Eduardo — sentindo-se desafiado por uma mulher, sem poder retrucá-la com suas
grosserias por assumir que sua resposta fora respeitosamente ousada, o
comerciante guiou a mão de Juliana ao rapaz ao seu lado, quem acolheu a mão que
jamais lhe pertenceria e a beijou —. Pode parar de lamentar a vida de solteira,
este viril cavalheiro está disposto a lhe conceder o seu nome.
Imediatamente,
achando que nunca seria submetida àquilo e se decepcionando incontestavelmente,
Juliana recolheu para si a própria mão e levou o olhar surpreso ao pai.
— Está na
hora, não concorda? — o governador entregou as intenções daquele encontro —.
Não é bom para uma mulher estar sozinha, ela sempre necessitará de um bom homem
ao seu lado, garantindo-lhe honra e decência, ninguém melhor que o estimado
Eduardo para minha amada Juliana.
— Sou a única
responsável por minhas próprias honra e decência, não necessito da sombra de um
homem limitando os meus horizontes — protestou assustada com o que estava
prestes a acontecer.
— O assunto
não está aberto a discussões.
— Ninguém pode
decidir por mim escolhas que me dizem respeito! Quando lamentei não estar casada
fui apenas simpática, em muito me alegro não ser como vossas esposas, mulheres
que fizeram infelizes, mulheres que ainda não despertaram para o direito que
possuem sobre suas próprias vidas — as palavras de revolta e rebelião
assustaram os homens que temiam perder um poder injusto que usurparam, o poder
de decidir sobre a vida de alguém.
Causando
desconfortos, a jovem mulher deu às costas, avançou em seus passos nervosos,
mas foi interrompida no caminhar pela mão que pressionou seu braço.
— Não aceitarei
que minha filha se comporte como uma sufragista ordinária! — declarou
assiduamente —. Vá para o seu quarto e procure se convencer da nova realidade
que viverá, é o melhor que fará, ou, é tudo o que pode fazer!
Em seu quarto,
Juliana permitiu que as lágrimas caíssem sobre a cama que instantes atrás a
acolhia com o homem que amava, mas que naquele momento testemunhava o choro de
medo e raiva. Dentre os seus pensamentos muitos questionamentos se levantavam,
queria saber quando que as mulheres teriam direito sobre a própria vida, quando
que as mulheres seriam reconhecidas como pessoas independentes tal qual os
homens, queria saber, também, se no futuro teria o prazer e a felicidade de
amar destemidamente o galanteador Henrique.
Pouco antes do
almoço caminhou pelo corredor da mansão.
Ouviu o plano
do pai.
— Não há
alternativa senão a morte — falava com um subordinado —. Quero Henrique morto
antes do anoitecer. A forma como o faremos de pouco me importa — sentou-se em
sua poltrona —. Sem ele no caminho evitarei maiores problemas!
Seu coração
pulsava forte, as pernas almejavam ardentemente terem a capacidade de dar
passos maiores e os olhos dos quais vertiam lágrimas queriam mais que tudo
contemplar a face de Henrique.
Afobada,
Juliana adentrou a humilde mercearia onde o amado trabalhava. Pouco se importou
em ser reconhecida como a filha do governador, pouco se preocupou em fazer os
clientes esperarem, arrastou Henrique para os fundos do estabelecimento,
precisava salvá-lo.
— O que
aconteceu? — surpreso, o rapaz indagou.
— Precisa
fugir, ir para longe, meu pai ultrapassou todos os limites e quer matá-lo! — as
palavras lutaram contra o choro e anunciaram triste notícia.
— Fugir? — o
moço se indignou.
— Eu sei o que
falei sobre fugir, mas se quiser sobreviver essa é a única maneira! Não o
impedirei nem hesitarei em minha decisão, irei com você aonde quiser, aonde
achar ser mais seguro, estarei ao seu lado como uma fugitiva, ao menos estarei
feliz!
Em uma hora de
desespero outras possibilidades tornaram-se impossíveis. Queriam viver o amor.
Precisavam sobreviver aos ataques. Teriam que ser fortes e deixar para trás
tantos sonhos para que tivessem a chance de tornar a sonhar.
Gritarias.
O som de
objetos caindo soou terrível aos seus ouvidos.
Som que se
misturou ao estrondo de disparos.
— Venha comigo
— Henrique instruiu —. Aconteça o que acontecer, mantenha-se atrás de mim!
Nos fundos da
mercearia havia uma janela que fora destruída pelos chutes do rapaz e permitiu
que o casal a atravessasse, mas não impediu que olhos traiçoeiros o visse.
— Aqui! — o
encapuzado esbravejou atraindo a atenção de seus companheiros —. Aqui!
Juliana e
Henrique não encontraram saída, de qualquer forma seriam pegos, desistiram de
adiar o inevitável.
Som de
disparos.
Em um ato de
puro amor, a moça se colocou diante do amante.
Os disparos
não soavam apenas, agora se faziam presentes através de uma arma ansiosa por
sangue.
As munições
aleatórias acertaram Juliana.
Mas também
atingiram Henrique.
Feridos, sendo
lavados por sangue, os apaixonados jovens perderam as forças sobre as pernas,
não conseguiram mais sustentar o próprio corpo.
O rapaz caiu.
Sobre seus
braços a moça desfaleceu.
Deitaram-se
sobre o pó.
De mãos dadas.
Antes que as
luzes se apagassem eternamente, encararam-se pela última vez, partiam com a
visão do amor.
Esquecendo-se
do plano, esquecendo-se de que precisava se esconder, o assassino retirou o
próprio capuz, avançou a passos furiosos querendo recusar a ideia de que sua
ignorância vitimava a própria filha.
Quem sabe amar
prova do prazer da vida enquanto em suas narinas houver fôlego, mas quem não
consegue aprender sobre a complexidade do amor acaba sufocado pelo próprio
ódio.
~~~~
Vem
aí, uma nova emoção!
O amor surge em
situações inesperadas, o amor trilha por caminhos impensáveis, o amor despreza
o que pode pensar a mente humana, ele está acima de nós, de quem somos. Ana
apaixonou-se ainda adolescente, conheceu a suavidade do amor e ardência da
paixão em uma época na qual os julgamentos eram impiedosos e os preconceitos
fatais. Rendeu, sendo filha do barão de São Pedro, o coração a Artur, um jovem
escravo, condenado a servir por uma razão que ela condenava, que ela não
aceitava. Ignorou os perigos, desdenhou da mente suja do pai e, embora
escondida do mundo, como se cometesse um crime, viveu aquele amor. Mas quem
pode ofuscar o brilho do sol? Ela não queria ser condenada a uma vida oculta,
muito menos aceitaria o pretendente determinado por seu pai, alimentou-se de
valentia para lutar pela liberdade, mesmo que aquilo lhe custasse marcas
profundas. É o amor capaz de oferecer cicatrizes penosas?
Há aqueles que
sonham e concretizam tais sonhos vivendo o amor sem qualquer receio, sem
qualquer punição. Entretanto, há aqueles que sonham com o amor, mas
consideram-se indignos de vivê-lo por se sentirem sujos. Escravizado desde o
nascimento, carregando o desejo pela liberdade desde que compreendera a injusta
e opressora realidade que o cercava, Artur convivia com o medo de amar. Estava
rendido à Ana, o futuro que imaginava não aconteceria se nele não estivesse a
moça pela qual se afeiçoara, mas como viver tal futuro sendo um prisioneiro?
Não compreendia as razões de seus grilhões, não conseguia entender o motivo que
o levava a ser inferiorizado, apenas tinha uma certeza: Ana. Estar ao lado de
Ana o fazia se sentir humano. Mas esse amor, tal como o ouro, seria colocado no
fogo. Resistiria?
Dia
01º de julho, aqui no WebLivro e no Wattpad, estreia sua nova emoção de todos
os dias. Marcados Pelo Amor! Permita-se aos suspiros e aos anseios que essa
história proporcionará!
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