[WebLivro] Ambições - Capítulo 02 - Culpa
Capítulo 02 – Culpa
Pensamos
conhecer as pessoas, saber quem são e o que querem para nós, para o mundo e
para seus próprios caminhos. Apenas pensamos. Somos enganados. Em muitas vezes
a verdade surge e muda nossos conceitos, altera nossas visões, descobre aquilo
que o tempo não pode encobrir pela eternidade. Revelado nos é o que não
queríamos conhecer.
Esse era o
sentimento de Samuel.
O jovem rapaz,
um moço trabalhador, sonhador e injustiçado por um passado que não se
explicava, mas insistia em se fazer presente, amava Diva, tinha enorme
consideração pela mulher que o acolheu e lhe ofereceu amor, não suportava vê-la
sofrer. Em silêncio acompanhava a prima rebelde, um incômodo silêncio.
Elisa conhecia o
companheiro, tão bem ao ponto de perceber o distanciamento, a falta de diálogo.
Do seu jeito frio se importava com o rapaz, era capaz de se condoer pela sua
triste história, não entendia o porquê daquele tratamento.
— Não vai falar
nada? — debaixo do sol escaldante, carregando sua simples mala, a jovem
ambiciosa lançou sua pergunta —. Sei que não gosta do tom que usei, mas não
existia outra maneira, ou isso ou ela se rastejaria aos meus pés, se arrastaria
pelo chão, mas não me impediria de alcançar o objetivo que tracei. Para quê
tornar as coisas ainda mais difíceis?
— Sua mãe está
cansada, avançada nos anos, é duro dizer isso, mas certo é que talvez não tenha
tanto tempo conosco, acha justo abandoná-la? Acha certo abandonar tudo o que
tem, que é o amor genuíno da sua família, pelo dinheiro que fácil vem e fácil
vai? — encarava a prima com firmeza, de uma forma jamais feita. Em seu lugar
nunca seria capaz de tamanho egoísmo, mas o que poderia fazer? A decisão já
estava tomada —. Você não me engana, sei que está partindo pelas ofertas de um
desconhecido, um homem de belas palavras, boa posição, mas que pode representar
trágicas realidades. Quer uma ascensão, quer o luxo que sempre perseguiu e está
cega por esse desejo.
Estava farta dos
discursos moralistas, enfadada pelos sermões que ouvia, era tão difícil
respeitarem sua escolha? Possuía a convicção de que nascera para o sucesso,
para ser vista, seguida, invejada, não queria viver para sempre à sombra da
simplicidade.
— Está certo,
quero mesmo uma ascensão e me disponho ao que for necessário para que os meus
sonhos se transformem em realidade. Por que não aceita? Por que ao invés de me
criticar não convence minha mãe de que isso é o melhor para todos nós? Será que
ainda não viu que o que faço é correr atrás de uma oportunidade para que
melhoremos de vida?
— Melhoremos? —
soltou uma risada incrédula, descrente —. Depois do que assisti não sei se
acredito que ainda se lembrará do seu povo quando o topo for seu limite ou se
pisará em nós como se pisa em vermes — foi duro em seu protesto —. O que há em
seu coração? Pensa mesmo naqueles que te ama?
A resposta não
foi dada.
O percurso foi
completo na companhia do silêncio.
Finalmente
estavam na rodoviária.
Entusiasmada por
tantas expectativas alimentadas através de uma promessa, Elisa apresentou a
passagem, irradiava felicidade, em poucas horas estaria longe de sua humilde e
desprezada origem para escrever uma nova história.
— Sei que não é
sua vontade, mas espero que possa me compreender... — abraçou o primo, nem
mesmo ela sabia que seus gestos e suas palavras eram sinceros ou se só fazia
aquilo por pena, compaixão, na tentativa de oferecer conforto —. Sei também que
é capaz de entregar a própria vida por amor aquela que o salvou, conceda-lhe
dias melhores, que possa me superar, perdoar e, quem sabe, um dia me receber
cheia de orgulho... — seguiu seu destino.
Samuel, com
lágrimas nos olhos, via a prima partir, procurar uma vida que talvez não
devesse, ir de encontro ao que poderia ser o abismo. Mas desejou boas coisas,
em seu coração suplicou para que os passos de Elisa fossem iluminados, guiados
por luz. Ela precisaria. As trevas são densas e trapaceiras.
∞
Há tantas
realidades. Existem múltiplas diversidades. Umas melhores, outras difíceis e
cada ser humano é desafiado por alguma.
Em Lobato,
município rico, alguém pranteava.
Whesley Rebelo
sentia o peito arder, a garganta sufocar. Como pôde ter sido capaz de um
egoísmo tão grande? Sua ação, covarde e mesquinha, era, para ele, a única razão
para que a tragédia acontecesse. Se estivesse ao lado da irmã, se ao menos a
tivesse levado para o exterior como sempre pedia, agora não estaria
contemplando-a num leito de hospital, vendo seus olhos fechados, sua mente
distante, vítima de uma overdose.
Desde quando
usava drogas? Desde quando buscava refúgio, socorro, abrigo? Qual era a
intensidade do sofrimento? Como ninguém pôde perceber? Fazer alguma coisa?
Estender a mão para quem necessitava?
— Espero que
seja capaz de me perdoar... — acolheu as mãos inanimadas, derramou sobre elas
lágrimas arrependidas, culpadas, desejava voltar no tempo e concertar aquilo
que pensava ser seu erro.
— Perdão... —
Sílvia, sua mãe, uma mulher que, embora sem motivos explícitos, vivia
amargurada, fazia questão de provocar no rapaz o sentimento de culpa, aquilo
aliviava sua responsabilidade —. Acha que é fácil assim? Ausenta-se por todos
esses anos, mal manda notícias, volta quando bem entende e acha que um simples
pedido de desculpas resolverá a tragédia? — seus olhos transmitiam desprezo,
seu semblante abatido era também gélido —. Por que nos deixou?
— Por conta do
egoísmo de vocês, egoísmo este que hoje gera consequências, colocou a filha de
vocês numa situação lastimável — Whesley não suportaria ouvir acusações, já se
responsabilizara o bastante —. Essa família está falida! — suas mágoas eram
muitas, sua história o deixara assim.
— Fomos nós que
a deixamos assim? — a mulher bem vestida, detentora de status poderosos,
primeira-dama do Estado, sempre estampada na capa de inúmeras revistas, não se
calaria, insistiria em seus ataques como sempre fizera —. Sabe muito bem o
quanto fez sua irmã sofrer, o quanto ela suplicou para que não fosse embora ou
que ao menos a levasse junto, o que você fez? Ignorou. Desprezou. Deu às
costas. Renunciou aquela que te amava!
— Isso não é
verdade! — o choro se intensificou, o rosto foi escondido ao repousar sobre os
braços —. Isso não é verdade...
— Sabe que é — a
ardilosa socialite se aproximou —. Tanto que não pode me encarar quando declaro
aquilo que sabe que aconteceu...
— Sempre mantive
contato, conversávamos por mensagens, passávamos madrugadas juntos, jamais me
distanciei daquela que precisava de mim! — uniu coragem para se defender.
— Nem me diga...
— Sílvia se sentou, ironizou as palavras do filho —. Estava tão próximo que não
percebeu o verdadeiro estado de sua irmã! — lançava um olhar intimidador, condenador.
Não havia
argumentos.
Não conseguia se
defender.
Whesley
precisava de um tempo para organizar seus pensamentos, avaliar a situação e
decidir seus próximos passos. Saindo do quarto encontrou o olhar reprovador de
seu pai, apenas o silêncio daquele homem declarava o julgamento.
Abaixou a
cabeça.
Precisava
respirar.
Sentou-se num
dos bancos de madeira que existiam no florido jardim, espaço de paz e
esperança, para onde crianças eram levadas, enfermos passeavam, a fim de que
fosse proporcionado um pouco de distração, alívio dos sofrimentos.
O jovem rapaz
passou a chorar amargamente, tinha a certeza de que ali ninguém o incomodaria,
se não o ajudassem também não colaborariam para que a dor crescesse. Olhou para
as estrelas, contemplou o luar, buscava no coração respostas, soluções,
conselhos.
— Whesley Rebelo?
— uma voz delicada se fez presente afastando os devaneios.
— Sim? Sou eu...
— disfarçando as lágrimas, escondendo o choro, levou a atenção à enfermeira.
– Desculpe
incomodá-lo, mas não contive meus impulsos, não suporto ver alguém sofrer e
ignorar, todos merecemos ser ouvidos — sentou-se ao lado de Whesley —. Trabalho
há alguns anos nesse hospital e, acredite, não é o primeiro homem que vejo
chorar — possuía olhos serenos, postura meiga.
O bem sucedido
empresário sorriu pela primeira vez, sentiu-se melhor, não ouvira condenações,
antes parecia receber o apoio que aos céus suplicara.
— Não pude
deixar de ouvir as palavras de sua mãe, imagino que não esteja em seu melhor
momento, mas não pode pensar que é hora de fraquejar. Muitos entraram aqui como
derrotados, mas acreditaram e saíram vitoriosos!
Quem era aquela
mulher?
Whesley se
perguntava curioso, a esperança retornou ao seu peito, ainda existem boas
almas.
Continua...
No próximo
capítulo:
— Vão julgá-lo, condená-lo,
acusá-lo de tantas coisas, mas nada disso pode ser maior que o seu desejo por
trazer paz a quem precisa, amor a quem não tem. Cuide da sua irmã, lute por
ela, lute também pela sua família e tenha como motivação que grandes lutas precedem
estrondosas vitórias.
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

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