[WebLivro] Ambições - Capítulo 18 - Resistentes ao Tempo


Capítulo 18 - Resistentes ao Tempo

Quando jovens vivemos inúmeras experiências, algumas passageiras, momentâneas, outras são duradouras, ecoam pelos anos, pelo futuro, pela vida que se seguem. Algumas experiências nos garantem aprendizados ligeiros, outras marcam nossos corações tão profundamente que nada, nem mesmo o relógio, é capaz de apagar, de fazer esquecido o que um dia foi nossa melhor realidade.
Adrian fora o melhor momento da vida de Sílvia e agora, encarando-o diretamente nos mesmos ardentes olhos que apaixonados a fitavam, que confirmaram palavras sedutoras e românticas um dia declaradas, a primeira-dama percebeu de volta todos os sentimentos que pensara ter enterrado, ofuscado, sentimentos que nunca acabariam.
O empresário, por sua vez, ao longo do tempo, durante os anos que se passaram desde o assassinato frio e cruel que contemplara passivamente, apenas teve certeza de quais interesses moravam em seu peito: não amava com quem se casara, a única vantagem eram os filhos, mas só seria completamente feliz e realizado se estivesse envolto pelo doce, embriagante e intenso amor que cultivava por Sílvia.
— No que posso ser útil? — ignorando os próprios impulsos, controlando a vontade de tocar e sentir o único capaz de possuí-la por inteiro, a mulher magoada e ressentida optou pelo tom distante e frio, trataria seu amante como um desconhecido.
— Apenas quero que saiba que sou incapaz de feri-la, de causar o seu sofrimento — encarava-a de forma respeitosa, não forçaria o romper das barreiras, possuía consciência de seus atos passados —. Estou aqui por causas maiores, voltei por motivos que espero em breve revelar, não posso negar ou esconder meu desejo de vingança pelo que fizeram, mas você não é um alvo.
— Acho sensato da sua parte, não é mais do que justo, afinal, o que eu poderia ter feito naquela noite? Fui e sou só mais uma vítima, peça no tabuleiro de gente ambiciosa, nada do que eu fizesse mudaria nossos destinos — sua declaração não dizia respeito apenas ao crime de seu marido, remetia ao romance que vivera e ao desfecho inevitável que sofrera.
— Mas eu tinha esse poder e preferi me esconder atrás de arrogâncias e egoísmos — confessou seu pecado, progrediu alguns passos, mas os interrompeu tão logo percebeu o recuo daquela que apaixonadamente ansiava sentir, romper a distância, afogar a saudade —. Sobretudo, minha ambição é conquistar o seu perdão, é provar que me arrependo da escolha que fiz, é mostrar que a amo.
Sílvia também o amava. Era o namorado da adolescência, fora o amante que a ajudara suportar um casamento indesejável, contudo foi também quem lhe garantiu um coração partido.
— Está dizendo isso porque foi traído, foi trocado, deixado para trás — retrucou —. Quem ama de verdade não desiste de seu amor.
Adrian deu razão à lição, mas sabia que os humanos falham, fraquejam em suas ambições, fracassam ao acreditarem na incapacidade frente aos desafios.
— E eu não desisti — afirmou —. Queria ter uma família, queria que fugisse comigo para que fôssemos felizes, mas me negou essa súplica, disse não poder se entregar a mim como pedia, quem acreditaria ser amado dessa forma? Confesso que errei ao me precipitar, entreguei-me a quem não merecia, quem não possuía o que você possui. Pensei que poderia esquecê-la, pensei que conseguiria superá-la, mas enganei a mim mesmo — rendeu-se aos próprios impulsos, acolheu as mãos cujo toque suave o transportou para o passado, quando, ainda que vivendo um romance secreto, era realmente feliz —. Precisa saber que te amo e seus olhos proclamam que sou amado por quem nunca deixou meu coração, precisa me permitir a fazê-la feliz!
— Adrian... — a mulher emocionada, sorrindo levemente, carente de amor, de cuidado e atenção, não negou o que ouvira, não negaria a verdade, não fugiria da verdade.
A distância foi encurtada quando os olhos se fecharam e os lábios se tocaram em um beijo cheio de desejo, de saudade, um beijo que anunciava arrependimento pelo tempo perdido e ambição por recuperá-lo.
Um beijo também flagrado.
— Quando eu penso que as coisas não vão dar certo sou agradavelmente surpreendido! — disse Rodolfo Eras.


Ao sair da mansão, entristecido por fracassar em seu objetivo, mas ainda mais determinado em alcançá-lo, Whesley sentiu vontade por ver Samara, falar com ela, ter sua companhia nem que fosse por poucos minutos. Passou em uma floricultura, fez questão de escolher o mais discreto, ainda assim elegante, buquê que pôde encontrar. Enquanto pagava não se deu conta do sorriso espontâneo, indagado sobre para quem seria o presente respondeu que para uma pessoa especial. Seguiu seu trajeto, chegou ao hospital.
Antes de descer do carro refletiu se fazia a coisa certa, se não seria um erro demonstrar interesse por alguém que conhecera há poucos dias, poderia se arriscar a uma decepção que talvez não suportasse. No entanto, venceu as dúvidas e ignorou os receios, confessou que ninguém conquista a felicidade mantendo os braços cruzados.
Leve, entusiasmado, caminhou pelos corredores, sabia exatamente onde encontrar a doce enfermeira, chefe em seu setor, ao vê-la pela vidraça de sua sala não resistiu ao sorriso ansioso, tocou a porta.

Samara, aguardando relatórios sobre pacientes que necessitavam de maiores atenções, vagueou pelos pensamentos que a preocupavam, fazia noites que não conseguia dormir tão bem por conta da ameaça que o progresso do Sistema representava, queria saber quem estava por trás da conspiração, qual era o rosto escondido pela máscara, talvez assim as coisas tomassem rumos mais fáceis.
Mas também pensou em sua vida pessoal.
Estava apaixonada, Whesley conquistara espaço em seus pensamentos, recordava-se dele com carinho, com afeto, mas também com receio. Precisaria lhe revelar a verdade, deveria ser transparente o bastante se fossem mesmo compartilhar uma vida. Mais que preocupada pela forma como ele reagiria, estava preocupada com sua segurança, ela era uma ameaça em potencial.
O som das batidas na porta desmantelou a nuvem de inquietudes.
A visita trouxe contentamento.

— Espero não estar atrapalhando, prometo que tomarei o mínimo de seu tempo — o empresário disse.
— Fique a vontade — retrocedeu alguns passos conduzindo seu visitante para dentro —, não é nenhum incômodo.
— São para você — sem saber ao certo como iniciar o diálogo ou explicar a razão para uma visita inesperada, feito um adolescente constrangido Whesley apresentou as flores torcendo para que agradassem a enfermeira —. Espero que goste.
— São lindas! — mostrando satisfação, respirando o perfume exalado pelas margaridas, Samara se espantou com o presente ao perceber o cartão enterrado em meio às flores, ficou curiosa por descobrir os escritos.
— Leia depois, a sós, sabe como sou deficiente em questões como essa, mas garanto que o que escrevi brotou de meu coração, é um sincero agradecimento em forma de elogio.
— Sou eu quem deve ser grata por tanta gentileza, confesso que não esperava por isso em meio tantas preocupações.
— Passando por problemas?
— Nada que com um pouco mais de persistência não possa ser resolvido — reduziu a proporção dos infortúnios, ainda não era o momento de revelá-los —. Como vão as coisas com a família?
— Difíceis, mas não impossíveis, persistência é o segredo – demonstrou que seguia os conselhos —. Precisava vê-la, não é sempre que tenho amigos tão solícitos e quando os encontro não posso deixar de exibir minhas considerações.
— Seus amigos são sortudos se a cada visita os surpreende com um buquê tão bem escolhido.
— Meus amigos... — sorriu retraído —. Talvez eles se resumam a você — conseguiu declarar uma parte do que sentia.
Samara não disse nada, apenas sorriu, refletiu.
— Bom, preciso ir, mas espero vê-la em breve, precisamos marcar mais um encontro como aquele.
— E com certeza iremos.
Na hora da despedida o rapaz estendeu a mão, desconcertado, sem pensar em um gesto mais íntimo.
A jovem mulher, por sua vez, trouxe-o para um abraço amistoso, abraço que fez os corpos se aproximarem, sentirem-se, o abraço que garantiu um intenso sentimento.
“Acredito em anjos, eles são pessoas que despretensiosamente entram em nossas vidas”.
Passeando os dedos pelo manuscrito, Samara sorriu, amava e era amada.


O casal se separou.
Atônitos, homem e mulher encaravam seu algoz.
Rodolfo se divertia com a atmosfera densa que sua aparição malquista causava.
— Segredos e mais segredos. Será que não se cansam de me confidenciar tantos sigilos?


Continua...

No próximo capítulo:

— Acho arriscado querer intimidar pessoas que não sabem o significado da palavra limite, pode custar caro, o preço de seu silêncio! — a primeira-dama não recuou, manteve-se firme, enfrentou o adversário.

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