[WebLivro] Ambições - Capítulo 16 - Lembranças
Capítulo 16 – Lembranças
O medo pode ser
incômodo, atormentador, pode tirar o sono, espantar a paz e garantir um eterno
estado de alerta, de ansiedade quanto às más coisas que podem acontecer.
Contudo, com todos esses indesejáveis malefícios, o medo pode ser um forte
aliado da sobrevivência, por medo averiguamos o espaço, calculamos cada passo e
só tomamos decisões ao estarmos certos do que almejamos.
Felipe sentiu
medo.
Felipe não
sentiu medo pela própria vida.
Felipe temeu
perder a namorada, fosse como fosse.
Abaixou a cabeça
em um ato de rendição, de humilhação, fechou os olhos anunciando
arrependimento, confirmando conhecer o poderio avassalador que o sujeito
desconhecido detinha.
— É tão melhor
quando os fracos reconhecem seu lugar e se resumem a ele, muitas dores poderiam
ser evitadas se todos se comportassem com submissão — o Líder voltou ao seu
lugar —. Imagino quais pensamentos vagueiam por suas mentes angustiadas,
imagino que seus corações pressionados desejam mais que tudo descobrir qual
será o desfecho provocado por uma ação rebelde, sugiro que se acalmem, afastem
o medo, a minha misericórdia será exercida — seus lábios finos que exibiam o
irônico sorriso, um gesto ameaçador e malicioso, moviam-se tranquilos como se
através deles todos os demais pudessem ser envoltos por calma —. Vocês terão
uma nova chance, ficarão aos cuidados de Rute — apontou para a mulher até então
atônita, bastou que seu nome soasse para que os movimentos retornassem e os
passos em direção ao Líder acontecessem —. Quero que os alimente, que os encha
de vigor, em poucas semanas retornarei e eu mesmo lhes apresentarei a Chance
Final, o momento da escolha, mas preciso que estejam vistosos, saudáveis,
atraentes e irrecusáveis — virou-se ao casal prisioneiro —. Empatia é um
sentimento nobre, confesso, através dele somos capazes de sentir a dor do outro
mesmo sem receber os mesmos estímulos, porém é também um sentimento traiçoeiro,
arma poderosa nas mãos de mentes com a minha. Rebelem-se outra vez, recusem-se
ao tratamento que receberão, façam o que puderem para que definhem ainda mais e
não serão apenas vocês os mortos, essa mulher, uma inocente, também perderá a
vida, mas não será apenas isso, fiz uma promessa, tão logo o Sistema se torne o
governo do mundo eu permitiria que ela reencontrasse o filho, alguém que ama,
alguém que foi obrigada a deixar ainda pequeno. Conseguem calcular a dor que
suas ações insensatas provocariam na pobre mãe? Sejam empáticos, é o meu
conselho!
Cheio de
autoridade, com submissos a sua volta protegendo-lhe a vida como se valesse
mais que todos os tesouros do mundo, o Líder partiu ao esconderijo, ao centro
do Sistema, de onde controlava os alienados e mantinha sua máquina em
funcionamento.
Felipe não
conseguia raciocinar, estava sem saída, sem planos reservas, sem caminhos
alternativos que pudessem salvá-lo de uma organização impiedosa, ambiciosa, que
pretendia instaurar o terror, a escravidão e a dominação sobre toda a sorte de
gente. Foi liberto dos devaneios quando a namorada, enfraquecida, desmaiou sem
cor. Acolheu-a. Condoeu-se.
— Ela vai ficar
bem — Rute, a mãe de Samuel, a mulher que planejou fugir de seu opressor, era
agora mais uma de seus alienados, servia-o sem qualquer reflexão, sem a
liberdade de contestar, sem nem ao menos as próprias decisões conseguir tomar
—. Farei o impossível para que fiquem bem! — a única lembrança que possuía era
a do filho, quem mais amou, por quem faria qualquer coisa.
∞
O passado.
O passado se faz
presente em muitas ocasiões: um aroma marcante, uma imagem com significado
profundo, um som que nos remete a fatos que vivemos, que passaram, que talvez
quiséssemos esquecer, mas que insistem em se manifestar.
Sílvia revivia o
passado.
Uma história que
não funcionou.
Mas que fora seu
desejo.
Vivera
uma noite de intensa paixão, noites como aquela só aconteciam quando se
entregava aos braços de um homem pelo qual era perdidamente apaixonada, um
homem que a fazia estremecer, que acelerava seu coração e invadia seus
pensamentos como nenhum outro conseguia fazer.
Aquele
homem não era o seu marido, a cada dia reconhecia a gravidade de seu erro ao
ter dito sim para quem não sentia nada, nem o mais arrebatador amor e nem a mais
provocativa ambição. Casara-se por obrigação. Como se arrependia.
Aquele
homem era quem um dia se transformaria num empecilho, quem desafiaria os
poderes de Cícero e talvez correria riscos inimagináveis. Aquele homem era
Adrian Armani.
Amava-o.
Estimava-o.
Seus
sentimentos eram recíprocos.
Deitados
sobre a confortável cama, cobertos pelo edredom que os aquecia quando o calor da
paixão se esvaía, permitindo o toque entre os corpos, o aconchego da íntima
aproximação, o casal descansava, refugiava-se das preocupações, permitia-se à
tranquilidade que os momentos compartilhados garantiam.
—
Por que não fomos mais ambiciosos? Deveríamos ter lutado com maior força, não
precisaríamos nos esconder a fim de viver o que sempre intentamos — exausto
pelos cinco anos de um romance secreto, um relacionamento oculto, Adrian
desabafou o arrependimento, se pudesse reviver o passado teria sido mais forte,
ousado, destemido.
—
Meu pai dificultou as coisas, envolveu-se com a família de Cícero de um forma
ingênua e ignorante, aquelas mentes ultrapassadas, presas a tradições, causaram
tudo isso — a pobre mulher, exaurida de sustentar algo que não acreditava,
recuperava as forças quando estava com seu amante, o verdadeiro amor de sua
vida —. Se eu me opusesse, se contrariasse as ordens previamente determinadas,
poderia perdê-lo para sempre, sabe disso.
—
Queria ter o poder de fazê-la feliz, garantir seus maiores e mais sinceros
sorrisos, queria estar ao seu lado em todos os instantes — a voz soava baixa,
serena, os dedos acariciavam o rosto delicado. Como amava aquela mulher...
—
E quem disse que não me faz feliz? O simples fato de existir já é minha
felicidade — Sílvia, deitada sobre o peito de Adrian, acolheu sua mão, fechou
os olhos sentindo-a, como se ao abri-los estivesse em outra realidade —. E quem
disse que não está ao meu lado? É melhor que isso. Todos os dias mora em meus
pensamentos, dentro de mim!
Da sacada de seu
quarto, observando a majestosa paisagem que rondava a mansão, a primeira-dama
recordou um dos tantos diálogos que teve com alguém que não a deixava em paz,
que até naqueles dias se fazia presente. Queria que as coisas fossem
diferentes. Queria que o homem a entrar em seu quarto naquele momento fosse
ele.
Mas não era.
A mão pesada e
repulsiva pousou sobre seu ombro, massageou rudemente seu pescoço e os lábios
nojentos pressionaram sua pele.
Afastou-se como
sempre se afastava.
— Até quando me
rejeitará dessa forma? — Cícero, irritado, indagou.
— Até que
consiga apagar da minha mente o assassinato que provocou — respondeu —. Agora
vá, quero dormir, o dia foi cansativo.
Antes de se
retirar, encarando a esposa como se a condenasse por estar tão distante, o
governador não deixou de discursar suas ameaças.
— Esse dia está
mais perto do que possa imaginar!
∞
As pessoas
guardam segredos, alguns são simples, outros podem esconder a verdadeira
identidade de seus possuidores.
A campainha
tocou.
Samara atendeu.
— Alguém te viu?
— perguntou.
— Quando preciso
me torno invisível! — Adrian respondeu.
As pessoas
guardam segredos.
Continua...
No próximo
capítulo:
— Não é tão fácil quando pensa,
tudo o que sinto quando o encaro é a dor do dia que o vi partir, que o vi sair
por aquelas portas sem nem ao menos olhar para trás, foi embora como se nada
importasse, como se não tivesse motivos para ficar... — desviou o olhar por
alguns segundos, lutou contra as lágrimas furiosas, mas não venceu a voz
embargada —. Como se eu nem existisse...
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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