[WebLivro] Ambições - Capítulo 03 - Esperança


Capítulo 03 – Esperança

Na vida passamos por turbulências, momentos de desespero, horas que não vemos saída, não temos soluções para os novos questionamentos e a dor, o sentimento de incapacidade e a culpa nos afligem com impiedade, derramamos lágrimas densas.
Samara, a enfermeira que abordara Whesley, era uma mulher de nobre espírito, queria que todos vivessem plena paz, queria que o mundo fosse justo para todos os homens, mas como seus braços eram curtos se contentava em levar conforto a quem estivesse próximo, não hesitava em oferecer apoio a quem seus olhos contemplavam.
Tinha a sua história, possuía o seu passado e também por esse motivo não pôde fechar o coração para a causa do rapaz, era capaz de sentir a sua agonia, colocar-se em seu lugar, queria ajudar.

— Às vezes a vitória parece a mais improvável das conquistas, às vezes tudo se vira contra nós e conspira para que percamos as forças... — o desanimado empresário, sufocado por tudo o que ouvira e sentia, desabafou à procura de alívio —. Nem mesmo nas pessoas que compartilham do nosso sangue encontramos o apoio preciso, a batalha se torna tempestuosa...
O que dizer para alimentar de coragem um coração desacreditado? Quais palavras usar a fim de trazer consolo a uma alma combatida? Paciente, a enfermeira encarou os ofuscados olhos escuros, olhos que um dia brilharam, mas que perderam a vitalidade, procurou em seu íntimo algum conselho, precisava ajudar, precisava salvar uma família.
— Há caminhos que precisamos percorrer sozinhos. Há caminhos que somente nós podemos abrir para que então aqueles que amamos consigam nos seguir... Estão machucados, presos por alguma coisa, enfraquecidos por um passado mal resolvido, estão cercados por sombras, desesperançosos, não sabem o que fazer. Se ainda sentimos vontade por lutar e vencer, precisamos ser fortes e caminhar por aqueles que caíram, se os amamos de fato, nem que tenhamos que carregá-los no colo, não os abandonamos.
Whesley concordou em seu peito. Deu razão a palavras tão sutis, delicadas e verdadeiras. Talvez devesse ser mais forte que qualquer investida contrária, ao invés de fugir, como fizera, deveria enfrentar os problemas e combater pela sua família, seu maior tesouro.
Mas as dificuldades e os obstáculos enchem de dúvidas cruéis nossas mentes atordoadas, chegamos a pensar que nada será suficiente, que não somos capazes, que não podemos fazer a diferença.
— A verdade é que tenho minha parcela de responsabilidade. Anos atrás fui embora do país, não suportava mais as brigas, as cobranças, a falta de amor e de união. Sentia falta de ter uma família como meus amigos tinham, via que o status, o prestígio e o dinheiro de nada valem quando estamos submersos a uma tristeza que nunca termina, que dia e noite nos incomoda — encarava as serenas íris verdes, prestava atenção no modo como o olhar cuidadoso o fitava sedento pelo desabafo, interessado em seu problema, desejoso por ofertar auxílio —. Fui forte, consegui resistir muitos momentos de desespero e construí a minha vida longe daqui, porém ignorei alguém frágil, fraco, alguém que não resistiria como eu resisti, alguém que necessitava da minha mão para que não caísse num mar de angústias... Ignorei minha própria irmã, considerei-me como dono da verdade e não me convenci de que ela não era como eu... Hoje, acordado para a realidade, percebo o quanto fui egoísta...
Contar um pouco de sua história confortou a alma aflita, sentia-se mais leve, mas queria ouvir mais daqueles lábios cheios de sabedoria, precisava de luz.
Samara se condoeu pela declaração, percebeu arrependimento e desejo por mudança, precisava encorajar as atitudes que protegeriam vidas.
— Vão julgá-lo, condená-lo, acusá-lo de tantas coisas, mas nada disso pode ser maior que o seu desejo por trazer paz a quem precisa, amor a quem não tem. Cuide da sua irmã, lute por ela, lute também pela sua família e tenha como motivação que grandes lutas precedem estrondosas vitórias.
Ficaria ali por quanto tempo seu ouvinte precisasse, mas o dever a chamava.
— A propósito, meu nome é Samara — já em pé, pronta para partir, identificou-se simpaticamente, a simpatia pela qual era conhecida.
— E eu me chamo Whesley — estendeu a mão para uma despedida —. Fico muito grato por sua atenção, era disso que precisava.
— Ajudar nunca é demais.

“— E a família Rebelo passa por mais um momento de escândalo. Como se não bastasse a partida dramática do filho mais velho há alguns anos, Sofia, a caçula, entregou-se ao mundo dos vícios. Vítima de uma overdose, encontra-se internada num dos hospitais mais requisitados de Lobato. Seu pai, o governador Cícero Rebelo, preferiu o silêncio”.
A TV foi desligada.
— Sempre fiz o que pude aos meus queridos filhos para que retribuam garantindo ao meu nome o adjetivo “escândalo”. É muita ingratidão! — encarando a filha imóvel, conectada a tantos aparelhos, o governador reclamou.
— Licença... — a porta se abriu.
— Agora aparece? — Cícero, irritado pelos últimos acontecimentos, lançou seu olhar acusador ao filho, desejava nunca mais vê-lo —. É fácil posar de bom moço depois que a tragédia está feita, mas você sabe que a culpa é toda sua, sabe o quanto sua irmã sofreu quando partiu, conhece qual era o seu desejo, sabe que com tudo isso preferiu o silêncio, a companhia do próprio egoísmo!
Whesley se manteve calado. Se estivesse mesmo disposto a mudar seu relacionamento com os pais e promover um ambiente agradável para que Sofia se recuperasse, evitaria as discussões, optaria pela humildade, aceitaria a humilhação e percorreria o caminho da paz.
— Amanhã eu volto — sentimental, beijou a face da irmã —. Torço para que melhore.
— Não vai falar nada? Não vai desrespeitar os seus pais como sempre fez? — remoendo os eventos que um dia aconteceram, Cícero agarrou o filho pelo braço, impediu-o de seguir seus passos, queria ter razões para condenar aquele que só queria o seu amor.
— O que mais quer que eu faça? — oprimido, apertado pelas tantas opressões, o rapaz não escondeu o choro discreto que marcou seu rosto, um choro cuja origem se deu no íntimo de seu peito —. Já pedi desculpas e suplico para que nossa família seja uma família de verdade...
O governador abaixou os olhos, não tinha o que contestar, deixou o filho partir.


Quando a decepção é grande, a dor parece nos consumir, destruir nosso mundo, acabar com um futuro que tanto planejamos. A decepção incomoda, sufoca e pode ser fatal.
Mas podemos suportá-la.
Basta vermos as coisas boas que ainda nos cercam.
Diva, tarde da noite, sentada na mesa de madeira que ficava ao centro da cozinha simples, acompanhada pela vela cuja chama dançava com o vento delicado que pelas frestas de portas e janelas invadia a humilde casa, observava uma fotografia de Elisa quando ainda pequena, sentia falta daquela criança ingênua, feliz com o pouco, preocupada apenas em todas as noites ouvir uma história para dormir. Bons tempos, quando a ambição ainda não habitava em seu peito.
A lágrima rolou.
Caiu sobre o quadro.
— Ainda acordada? — sereno, Samuel se aproximou da tia, sentou-se ao lado, seria sua companhia.
— Não imaginei que fosse sentir tanta saudade de Elisa, eu a amo muito... — levou o avermelhado olhar ao jovem sobrinho, já não escondia o quanto sofria —. Tudo era tão diferente, tão melhor... Lembro-me do quanto me ajudou a cuidar de você, lembro-me das noites que os dois deixavam de dormir para lançarem seus devaneios infantis, da minha cama, ouvindo suas histórias, muitas vezes sorri e chorei... Mas ela já não é aquela doce menina, possui desejos que não posso atender, planos que aqui jamais se realizariam... Sou egoísta por me lamentar tanto?
— É claro que não, qual mãe não ficaria assim por ver seu bem precioso partir sem olhar para trás? — colheu as mãos cansadas, abraçou a pobre mulher —. Precisa reagir, precisa continuar com o comércio, com a vida, precisa entender que perto ou distante sempre terá uma filha e precisa acreditar que um dia conseguirão se reconciliar...
— Obrigado... Deus sabe o que fez quando sua mãe o entregou a mim.
A verdade.
A verdade não se esconde para sempre.
Samuel afastou-se de Diva, encarou-a seriamente e procurou por explicações.
— Ela não tinha morrido? Como pode ter me entregue?


Continua...

No próximo capítulo:

— Não estava pronto para descobrir a verdade, não entenderia, se agora lhe contei o que de fato aconteceu é por ter a certeza de que já possui uma maturidade aceitável, é sensato o bastante para compreender...
— Que apesar disso ela me amava? — o jovem rapaz se levantou rispidamente afastando a cadeira, exibindo o olhar confuso.

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