[WebLivro] Ambições - Capítulo 04 - Revelação


Capítulo 04 – Revelação

{Há 20 anos...}

Caminhos levam a destinos, não importa, todos têm algum fim, todos chegam a algum lugar, no entanto, nem sempre deixam claro qual será o desfecho, não avisam quais obstáculos precisaremos enfrentar, podemos nos surpreender tragicamente.
Escolhas levam a consequências.
Sejam boas ou más.
O pequeno Samuel, protegido pela ingenuidade de seus quatro anos, distraía-se com a prima um pouco mais velha enquanto Rute revelava seu desespero, o sofrimento que lhe tirava o sono, a opressão que prometia encerrar seus dias de vida.
— Não tenho alternativa, tiraram de mim todas as opções, ou faço parte deles, ou sirvo a eles, ou vejo com meus próprios olhos o triste fim da minha família, do meu filho! — buscava uma saída, queria encontrar na irmã mais velha palavras de solução –. O que eu faço?!
Diva, condoída pela situação, sentia-se ainda mais abatida pela falta de recursos, não conseguiria entregar à irmã o suficiente para que vivesse em paz, livre de qualquer obrigação, suas mãos eram curtas perante o iminente transtorno.
— Agora percebe o porquê dizíamos que não era uma boa ideia se deixar levar pelas palavras sedutoras? Poderia estar segura, sem muito luxo, mas segura, sem dever favor, submissão, a quem quer que fosse...
— Não imagina o quanto me arrependo, não imagina a amargura que pressiona meu peito, sinto-me impotente diante um inimigo poderoso...
— E se você fugir? — a mais velha, na intenção de salvar alguém que amava, convenceu-se de que teria que enfrentar a separação, precisaria ver a irmã partir deixando uma dúvida cruel, a incerteza se algum dia voltariam a se encontrar —. Será difícil, passaremos por uma dor amarga, ao menos se salvará, estará segura para cultivar a fé e a esperança em um futuro melhor.
Rute, com tanto medo perseguindo seus passos, com tantos receios por insistente companhia, levou os olhos marejados ao filho pequeno, indefeso, submerso ao despreocupado mundo infantil. Sentiu a densa lágrima escorrer pelo rosto. Sentiu o peito dilacerar.
— Não posso levá-lo. Não é justo que pague pelos meus erros — voltou a atenção àquela que lhe estendia a mão —. Cuida dele por mim?
Seria uma responsabilidade muito grande ter em sua casa alguém tão novo já injustiçado pelas ironias da vida, porém Diva seria incapaz de recusar ajuda à sua família, estaria sempre disposta a suportar o que fosse necessário para que os outros não sofressem.
— Tem certeza de que não há opção melhor? Não quer pensar em algo menos doloroso?
— Permanecer aqui, de peito aberto, próximo o bastante da morte, seria como zombar daqueles que possuem poderes inimagináveis, seria como provocar-lhes a ira e gargalhar da fúria que se levantaria. Aqueles que eu amo não podem continuar sofrendo...
— Continuar?
Rute abaixou a cabeça.
Não tinha forças para explicar o que consumia sua consciência.
— Seu esposo. Não é possível...
— Já havia sido avisada, desprezei o recado, não dei a devida atenção, meu marido já não está entre nós e a culpa é minha! — confessou —. Vai me ajudar? Amará aquele que me resta como eu o amaria?
Diva abraçou a aflita mulher, deixou o choro se libertar naquele abraço, o derradeiro, o de despedida.
— Seria incapaz de negar esse amor...

{Dias atuais}

— Sua mãe não morreu, Samuel, ela fugiu da morte, fugiu para que ninguém mais sofresse, fugiu para que hoje estivesse vivo! — a história foi revelada, não era mais o tempo de escondê-la.
— Por que ninguém me contou antes? Por que ocultaram de mim algo tão importante?
— Não estava pronto para descobrir a verdade, não entenderia, se agora lhe contei o que de fato aconteceu é por ter a certeza de que já possui uma maturidade aceitável, é sensato o bastante para compreender...
— Que apesar disso ela me amava? — o jovem rapaz se levantou rispidamente afastando a cadeira, exibindo o olhar confuso.
— Precisa me ouvir... — Diva tentou aproximação, mas foi forçada a interromper os passos.
— Quero ficar sozinho — deu de ombros. — Preciso disso...
Alguém iludido, que desde o início da vida é enganado, sofre quando a verdade aparece, quando o que estava em oculto se mostra ao sol com todo seu poderio revelador, transformador e destruidor. Samuel sentia que vivera uma mentira, que por todos aqueles anos experimentara uma ilusão, mas, o que julgava como maior dor, não era ter sido enganado, era descobrir que não foi amado.
E daí que correria riscos de vida? E daí que poderia morrer? Ao menos estaria ao lado de quem lhe concedeu a vida, partiria e seria poupado de tantas dúvidas.
Olhando para o céu, encarando as estrelas, recordou-se das tantas noites que aflito e sentimental lançava suas palavras aos astros na esperança de que sua mãe o ouvisse onde estivesse. Considerou tudo aquilo inútil, uma grande bobagem. Não era órfão por forças cruéis que tiraram de si o direito a ter pais, a partir daquele dia se consideraria um desprezado, um abandonado, alguém cuja mãe esqueceu que existia.


Ao chegar em Lobato, achando-se livre das origens, distante do passado, Elisa seguiu as recomendações de seu amigo virtual, conseguiu êxito e já  tomara posse do quarto a ela reservado em um hotel tão requintado.
Aprontou-se o melhor que pôde.
Aguardava ansiosamente pelo horário marcado.
Logo que o interfone tocou, a mulher pretensiosa retocou o batom, passeou os lábios um sobre o outro enquanto se olhava no espelho, ajeitou os fios vermelhos, lançou um sorriso animado e seguiu seu destino.
O motorista lhe abriu a porta do carro.
Era tratada como uma rainha.
Dirigida à mesa que possuía seu nome, Elisa foi avisada que seu acompanhante chegaria em poucos minutos, estava certo de que não testaria sua paciência.
Tudo aquilo era maravilhoso para os olhos azulados que brilhavam intensos. Sentia-se alguém importante, influente, poderoso. Sentia-se especial, superior. Sentia-se exatamente como sempre se imaginou.
O caminho para que a experiência se eternizasse se colocou diante a sua presença, depositou um beijo firme em sua mão e se sentou a sua frente.
— Pessoalmente é ainda melhor... – Rodolfo Eras, o bem sucedido e muito invejado empresário, exibia seu sorriso sedutor, seus olhos firmes contrastavam com os cabelos grisalhos e fitavam a jovem mulher como se a desejassem —. Ainda acha que sou um oportunista barato? — abriu os braços em um gesto para que a companhia olhasse a sua volta —. Agora está claro que posso realizar todos os seus desejos?
Elisa, ainda mais confiante e ainda mais determinada em seus objetivos, tomou um gole do champanhe, vestiu na face o sorriso encantador e não escondeu seu pensamento.
— Não apenas terei os meus anseios atendidos como realizarei os seus sonhos, afinal um homem como você não estenderia a mão a alguém como eu se não possuísse interesses secretos, intrigantes e até obscuros — sobre a mesa, alisou a mão adornada por um valioso anel —. Já pode abrir o jogo, parceiro, não sou de medir esforços.
— Sugiro que não vá ao pote com tanta sede, talvez minhas propostas a assustem, talvez não esteja tão disposta ao que a espera.
— Sou mulher ambiciosa. Estou aqui. Vou até o fim!

Durante o jantar descobriram um pouco mais sobre a história que os acompanhava, estavam à vontade, aliás, homens cercados por interesses demonstram o que não são em nome de suas vontades.
Elisa, arriscando todas as fichas, recordando-se das mensagens sugestivas que trocavam, não deixou de lançar seu charme ora passeando as mãos no cabelo, ora sorrindo docemente e outrora tocando no poderoso sujeito, proferindo palavras que indicassem suas intenções. Rodolfo, como alguém de negócios, percebia cada investida, esperto, deixava a jovem mulher acreditar que naquele jogo era quem seduzia, a verdade, contudo, era uma só: ele já a possuía como marionete.
– Disse estar disposta a qualquer coisa, gostaria de um ambiente mais discreto para que pudéssemos conversar a vontade? — como um apaixonado enlouquecido, o empresário segurava as mãos da acompanhante, sentia a suavidade dos dedos prestando atenção no rosto sedutor.
— Demorou demais... — acreditando ser quem ditava as regras, a ambiciosa manteve seu charme, seu devasso charme, adoraria ter sob seu domínio alguém como o magnata.
O restaurante não atenderia às necessidades do casal.
Ambos partiram para uma noite carnal.
Deitada sobre o peito nu do homem que despertara seus interesses avarentos, Elisa suspirava, imaginava cenas, não acreditava que finalmente o universo estaria ao seu favor. Rodolfo, sentindo a pele macia que tocava seu corpo, arquitetava planos altos, sonhava ilimitadamente.
Mas a preocupação surgiu em ambos.
Qual era a ambição que os cercava? Quem seria trapaceado? A quem estava reservada uma dor insuportável?


Continua...

No próximo capítulo:

Falhou. Sem que percebesse abriu um sorriso relembrando a conversa, ouvindo na mente a melodiosa voz. Quando se deu conta estava gostando de refletir no jeito como Samara se fizera ímpar.
Mas não aceitaria aquela situação, a menos se estivesse enlouquecido, sabia bem que a lucidez era sua melhor companheira, não se permitiria a fraquezas, não daria atenção a um surto de carência. Durante toda a vida lutou contra aquilo que representava amarguras, não era o momento de se render.

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