[WebLivro] Ambições - Capítulo 09 - Sentir-se Protegido


Capítulo 09 – Sentir-se Protegido

Sentir-se protegido.
Talvez seja esse o maior desejo do ser humano, sua mais perseguida ambição. Uns a encontram nas riquezas, outros no isolamento, mas têm aqueles que buscam proteção no amor, encontram no outro um porto seguro, sentem-se protegidos ao lado, nos braços, do outro.
Deitada sobre o peito de Felipe, escondida num quarto de hotel cuja localização nem sabia, Acsa se sentia defendida atrás dos braços que firmemente a envolviam como se prometessem jamais soltá-la. Provava do viciante sabor da paz. Experimentava uma tranquilidade há tempos roubada.
— Se fosse possível declarar o quanto a amo... Espero que saiba que meu sentimento é imenso, entregaria a vida sem questionar, faria o impossível para salvá-la de quem quer que seja — sereno, acariciando a pele macia que nunca se cansava de sentir, o rapaz declarou seu ardente propósito, intenção de um valente coração.
— Desafiar um alguém tão poderoso, ir contra uma organização tão inteligente, expõem o tamanho do tesouro que guarda consigo, não poderia ter escolhido alguém melhor para entregar o meu ser... — sorridente, satisfeita por aquele íntimo momento, pela conversa fortificante que alimentava suas certezas, a oriental levou a mão ao rosto gentil, encarou os olhos brilhantes, conseguia enxergar seu reflexo naquelas íris conquistadoras —. Se eu morresse agora, se precisasse partir, estaria feliz, conquistei um privilégio, nada mais me importa...
— A verdade é que temos muito tempo pela frente, muitos sonhos a concretizar e outros a sonhar... — meigo, como sempre era ao lado daquela que o levava a universos distantes e redentores, Felipe cobriu a mão que acariciava seu rosto, sentiu o calor que dela emanava, não conseguia acreditar em um futuro no qual a mulher que conquistara seu íntegro desejo não se fizesse presente —. Nunca achei que pudesse me ligar tão intensamente a alguém, pensei que viveria sordidamente, aventureiro, esse era eu. Mas você apareceu... — não resistiu o sorriso discreto, passeou os dedos pelos lisos cabelos enegrecidos, enquanto vivesse demonstraria seu afeto —. Você apareceu e me transformou, com sua delicadeza me conquistou. Estou viciado no que me garante...
— Acredito que nossas histórias não teriam outro desfecho, estavam predestinadas a um encontro redentor... Quando pude cultivar a certeza de que alguém se disporia a me amar, a ser meu companheiro? Sempre estive sozinha, fui adotada por pessoas incríveis e mais tarde arrancada de suas mãos, fadada a uma realidade de humilhação, opressão... — sentou-se na cama confortável, apoiou a testa na do querido namorado e fechou os olhos mantendo as mãos unidas —. Com todo seu charme, com toda sua coragem e com todo seu cuidado, você surgiu oferecendo aquilo que desisti de achar, aquilo que me mantém viva e que almejo para sempre sentir...
— E eu prometo que vai...
Beijaram-se.
Esqueceram-se dos problemas, da longa viagem que precisavam enfrentar, dos obstáculos da vida. Esqueceram-se de tudo e se entregaram a um beijo aquecedor, aconchegante, forte o bastante para apertar um pouco mais o laço do amor.
A porta caiu.
— Desculpem atrapalhar o romance — alguém perigoso se apresentou —, mas rebeldes não são pagos com amor, oferecemos dor!


Há pessoas afortunadas, ricas, que vivem largamente, com seguranças aos seus pés, com olhos atentos para defendê-las, no entanto, ainda assim se sentem desamparadas, solitárias, desprotegidas. Isto se deve ao fato de não confiarem naqueles que estão ao seu redor, que compartilham o mesmo espaço, que convivem o dia-a-dia. Não conseguem acreditar em pessoas tão próximas.
Mas o sentimento de proteção insiste em ser suprido.
O desejo por amparo é insuportavelmente acrescido.
Partem para os desconhecidos, para aqueles que estão distantes, que não conhecem suas vidas, que nunca encararam seus olhos ou se fizeram presentes, vêem no mundo virtual uma ótima chance para descarregarem seus receios e encontrarem apoio.
Sofia, negligenciada pelos pais, acreditando no abandono do irmão, recorreu à internet, às redes sociais, não fez questão dos tantos avisos de que pode ser perigoso, estava descrente, nenhum mal a incomodava.
Mas teve sorte.
Fez um bom amigo.

“No mundo online as pessoas enjoam fácil do que usam. Pensei que tivesse enjoado...”
“Posso não ter muitos amigos, mas valorizo os poucos que tenho, mesmo que seja apenas um, jamais abandonaria... Abusei da sorte e fiquei desacordada por alguns dias. O importante é que estou bem, o que pode não ser tão bom quanto dizem”.
“Quantas vezes precisarei dizer que você é mais do que qualquer problema, que você é maior do que qualquer mágoa? Não pode se render, acreditar que não vale a pena, que nada mudará, que as coisas permanecerão como são eternamente. Há mundos a serem descobertos, pessoas que podem fazê-la feliz, precisa acreditar!”
“Viver como uma rejeitada, vendo seus pais se consumirem de ódio e seu irmão desistindo de uma família desestruturada, cheia de maus sentimentos, é sufocante, é atormentante. Queria descanso. Queria refúgio. É difícil acreditar em mudanças. É difícil acreditar nas pessoas”.
“Não acredita em mim?”
“Com você é diferente...”
“Por eu estar longe? Por nem conhecê-la se não através de fotos? Sabe quem eu sou, sabe qual a minha realidade, será que conversaria comigo se fôssemos como vizinhos ou se esconderia atrás dos medos?”
“Você é diferente. Apesar de nem sempre concordar não me condena e nem me trata com desdém. Sinto-me bem quando conversamos, sinto-me de alguma forma valorizada e segura...”
“Se se sente mesmo assim por que tomou uma atitude como essa? Poderia ter me deixado para trás, como fizeram com você, como reclama constantemente”.

Encarando a tela do celular, a jovem refletiu sobre a última mensagem, precisou confessar que pensava somente em si, na sua dor, e ignorou um amigo, mesmo que virtual, um amigo cujas palavras eram dóceis, suaves e a agradavam. Precisava valorizar o único que se dispôs aos seus desabafos, o único que lhe dava atenção.

“Seria mais fácil se estivesse aqui, se aceitasse minha proposta e viesse embora para Lobato, sabe que é meu grande sonho, ter com quem começar a viver de verdade...”
“Sabe que é impossível. Não tenho condições para isso, tenho alguém que depende do meu carinho e não posso aceitar que faça por mim aquilo que é minha obrigação. Eu também gostaria de conhecê-la, poder conversar olhando em seus olhos e a convencendo de que a vida é muito mais do que pensa. Mas não posso...”
“Você precisa acreditar, Samuel, acreditar que tudo é possível”.

O amigo de Sofia era o primo de Elisa.
Não poderia ter encontrado alguém melhor.


O casal se separou ligeiramente.
O homem e seu comparsa avançaram contra os jovens.
Mas não lidavam com amadores, brigavam com sujeitos sedentos por justiça e vitória.
Acsa, hábil em seu estilo de luta, não recuou em relação ao opositor, correu ao seu encontro, saltou destramente e não poupou forças no pontapé contra o maxilar do criminoso. Sorriu ao vê-lo desmaiado.
Felipe aguardou seu rival se aproximar um pouco mais, antes que ficasse na mira do revólver jogou-se na cama, usou as pernas para imobilizar os braços do homem, empurrou-o com força e não permitiu que ele se reerguesse. Pressionou a garganta vulnerável. Só soltou quando os sentidos daquele um foram logo perdidos.
— Deveríamos esperar por essa investida, não foi uma boa ideia interromper o trajeto... — empilhando as três malas, Acsa lamentou.
— Precisamos correr o quanto pudermos. São mais espertos que nós — Felipe confessou.
— Disso você está certo, mas se equivocou ao acreditar que escaparia do Sistema — um terceiro, ainda mais perigoso, se manifestou no cômodo desajustado, cenário da recente luta —. Nossos olhos estão espalhados, nossos membros nem sempre são tão violentos, mas asseguro que eu não possuo misericórdia — atrás dele outros dois homens se fizerem presente, tinham refém, uma inocente criança —. Não tornem as coisas mais complicadas, sabem que será inútil, a menos que queiram carregar até o túmulo a culpa pelo triste fim de uma doce e inocente criatura! — sorriu vitorioso.

Continua...

No próximo capítulo:

— Desgraçados miseráveis! — Felipe, condicionado pela vida atlética que costumava levar, pensou ser forte o suficiente para arrebentar as amarras, debatia-se, lutava contra a prisão —. Precisam pagar por seus atos nojentos, bando de ratos!
— O que ensinamos sobre protestos? — o superior se aproximou do prisioneiro, agarrou seus cabelos, puxou-os para trás forçando a cabeça do rapaz destemido contra a pilastra que o impedia de correr —. Sugiro que poupe energia – desferiu um soco contra a barriga vulnerável —, ou morrerá de fome!

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