[WebLivro] Ambições - Capítulo 13 - "Não o Contrarie!"
Capítulo 13 – Não o Contrarie!
{10
anos antes}
A
ambição faz do homem uma criatura perigosa, intransigente, inconsequente. Ela
não é saciada enquanto o topo não é alcançado, enquanto seus impulsos não são satisfeitos.
O problema é que a má ambição nunca se dá por completa, sempre persiste e fecha
os olhos para o abismo. Não importa qual seja o caminho a trilhar, o destino
deve ser alcançado.
—
Já transferimos o bastante, muito me espanto por ninguém ter descoberto, mas
não vou continuar nesse esquema, os limites aceitáveis estão prestes a serem
rompidos, não permaneceremos em oculto por muito tempo — o então governador,
uma autoridade corrupta, dava sinais de desistência, de covardia, de traição.
—
Esqueceu que banquei toda a sua campanha além de pagar jornalistas para que
acariciassem generosamente o seu ego e destruíssem a reputação de seus
adversários? Cícero, um poderoso empresário, retrucou a oposição de seu
parceiro naquela jogada estratégica, não permitiria que cada perigosa conquista
fosse perdida de maneira tão simples —. Sabemos quem manda aqui, sabemos quem
de fato é o governador, ele não é você!
—
Querido, talvez ele tenha razão, pelo menos por enquanto devamos dar uma pausa,
esperar as coisas tomarem outros rumos, isso não quer dizer que precisamos
parar, ao menos aguardar — Sílvia, única mulher presente no escritório da
mansão Rebelo, manifestou sua opinião, aquilo que percebia —. Os cofres não
ficarão invisíveis por muito tempo, logo questionarão se as obras em andamento
exigem mesmo tanto investimento, estamos indo com sede demais ao pote...
—
Quanta baboseira sou obrigado a ouvir... — o líder da organização, ambicioso ao
extremo, reclamou —. Por que não ouvimos o tesoureiro? Tenho certeza de que
tudo está sob controle.
—
Não. Não está — o homem alto, de grave voz e rígido olhar, coagido a participar
de tamanha sujeita, levantou-se, ajeitou alguns papéis sobre a mesa e começou
sua explicação —. O tesouro diminuiu drasticamente nos últimos anos, basta
compararem os gráficos. O congresso nos questionou, conseguimos desviar a
atenção para as obras que seguem a todo o vapor, falsificamos notas e prestamos
contas, porém se novas suspeitas forem levantadas, uma vez que o dinheiro não
para de cair, investigações sérias serão instauradas e o nosso barco vai
afundar!
—
Já está afundando! — seguindo o exemplo de seu secretário da economia, o
governador também se colocou em pé, vestiu um semblante sério, manteve os olhos
fixos sobre seu patrocinador e, corajosamente, enfrentou-o —. Se quisermos
continuar no poder, se é sua intenção em um futuro próximo se tornar governador
e alternar mandatos com os seus aliados, precisa ser discreto, evitar as
suspeitas, seguir o esquema que há tempos funciona. Contudo, se agir feito um
compulsivo amador, arruinará a todos nós, iremos de pais dos pobres a
charlatões medíocres e a cadeia será nosso destino se coisa pior não acontecer.
Digo que vamos parar e é o que faremos!
—
Com que direito me insulta dessa forma? — descarregando a raiva de ser
contrariado sobre a mesa inocente, Cícero protestou furioso.
—
A de governador. Não me importa se moveu ou não os peões para que eu ganhasse a
batalha, fato é que meu posto garante grandes poderes. Sugiro que me obedeça,
que siga o plano como sempre fizemos, ou o Estado bloqueará seus bens e os distribuirá
como mercadorias baratas! Sabe que posso fazer isso, sabe que posso arruiná-lo!
—
Seria um ato suicida.
—
O que tenho a perder? Minha vida política está consolidada, esse é o meu último
mandato, pelos próximos anos saberei o que é o Brasil apenas pelo mapa, mas
você está apenas no começo, seus planos apenas nascem e poderão ser sufocados!
—
Não conseguem perceber que quanto mais fortes estivermos mais difícil será para
nos derrubarem?
—
Obedeça!
Sempre
haverá alguém disposto a correr qualquer risco e ele sempre esbarrará em outrem
que o impeça de avançar em sua ambição. Mas seus anseios são maiores que
quaisquer obstáculos ou medo, nada o interrompe.
—
Como falei, sou eu quem dita as regras e odeio rebeldes — sorrindo, encarava
seus ouvintes —. Minha empresa é um verdadeiro monopólio dentro e fora do país,
contribuo inegavelmente para o desenvolvimento da região onde me instalo, minha
ausência é só o início para uma crise perturbadora. Ou aceita as minhas
condições ou pode dizer adeus aos patrocínios fervorosos que garanto para o seu
governo manipulador.
—
Não fará falta.
—
É uma pena, caro irmão, é uma pena... — levantou-se calmamente, todos o
encaravam ansiosos pela sua decisão, respeitavam-no temerosamente —. O problema
é que não costumo ir embora — ágil, sacou o revólver, destro, disparou
friamente —, prefiro despedir...
Todos
se levantaram assustados, estarrecidos, perplexos.
Colocavam
as mãos à dianteira do corpo.
Preparavam-se
para a fuga.
—
Mantenham-se sentados, a reunião ainda não acabou — como se nada tivesse
acontecido, voltando ao seu assento, ignorando o sangue que jorrava da cabeça
atingida e se esparramava pela mesa, Cícero manteve o tenebroso encontro —.
Agora podemos prosseguir em nossos projetos, ninguém mais nos incomodará —
repousou a arma carregada.
—
Enlouqueceu? — Rodolfo, que também fazia parte da quadrilha e preferira o
silêncio até aquele momento, não pôde permanecer no anonimato —. Você acaba de
matar um homem por motivos tão baixos e ainda quer que o ouçamos?
—
E o que mais poderiam fazer? Possuem o poder de ressuscitar os mortos? — zombou
divertido, achando graça da própria loucura.
—
Temos o poder de entregá-lo para a polícia! — o secretário da economia,
irritado com tudo aquilo, ignorou a ordem de um sujeito descontrolado,
dirigiu-se à porta, possuía convicção quanto aos passos que daria, passos que
por algum momento preocuparam Sílvia.
—
E ser desmascarado com toda a gang?
—
Fomos longe demais.
—
É isso o que querem? — intimou seus comparsas —. Querem ter suas vidas
arruinadas por um vagabundo corrupto que agora flerta com justiça? Era o que eu
esperava, o silêncio de vocês soa como um estrondo aos meus ouvidos. Sugiro que
retorne ao seu lugar, Adrian Armani, seu querido e amado governador estava sem
expectativas, confessou não ter o que perder, fiz um favor e adiantei o seu
descanso, mas você tem uma esposa maravilhosa e filhos saudáveis, uma família
que depende de seu auxílio, um auxílio que só poderá oferecer se estiver vivo.
Então volte ao seu lugar, feche a boca e me ouça! — esbravejou.
Não
existia escolha a não ser obediência.
—
Não o vimos essa noite, nem recebemos suas ligações, nenhuma notícia, nada, não
temos o que declarar — executando seus pensamentos, Cícero fitava cada olhar
lhe dirigido, sentiam medo embora não expusessem —. Tão logo sintam a sua falta
essas serão nossas respostas, provavelmente seremos os primeiros investigados.
Não se preocupem, as câmeras estão desativadas, os empregados ganharam folga e
os guardas não o viram quando chegamos, fiz questão de deixá-lo no banco
traseiro.
—
Já sabia o que ia fazer? – Sílvia, rendida às lágrimas, sentindo-se enojada
pelo marido, questionou o que não imaginava.
—
Estava dando muito trabalho. O que fazemos com as pedras que nos impedem de
avançar? Chutamos! — parecia se divertir com as próprias declarações.
—
E o corpo? — Rodolfo indagou.
—
Tenho meus subordinados espalhados por aí, ele será cremado, suas cinzas
terminarão no esgoto e nunca mais poderá nos incomodar!
A
atmosfera que circundava o escritório naquela noite de 23 de março de 2008 era
densa, sombria e sufocante. Não queriam chegar naquele ponto. Não imaginavam
que chegariam.
—
Para mim chega, eu quero sair! — Adrian exclamou.
—
Pare com bobagens, acredito que não será mais necessário momentos como esse,
poderemos continuar como grandes amigos, pense que guardará esse segredo por
amor aos seus filhos.
—
Não exijo, nem ordeno, suplico para que tenha misericórdia, peço humildemente
que conceda o meu desejo, deixe-me partir, desaparecerei, nunca mais ouvirá o
meu nome, mas não posso suportar a visão que impera sobre meus pensamentos — o
homem corajoso, que minutos antes enfrentara o temido Cícero, agora se
humilhava estrategicamente, implorava por piedade.
—
Vá — ser venerado daquela forma agradou o cabeça do grupo que respondeu
severamente —. Mas se pelos meus olhos seu vulto passar ou em meus ouvidos seu
nome soar, quero que se considere um homem morto!
{2018}
— O que faz
aqui? Como ousa retornar ao lugar onde será enterrado tão logo tosqueneje? — no
escritório do Palácio, o governador confrontava o antigo parceiro.
— Se eu fosse
você passaria a me respeitar como seu novo governador, não estou aqui como
amigo, como aliado, como um empresário sedento por dinheiro sujo ou um
benfeitor hipócrita, tenho meus interesses e eles são complexos demais para a
sua fragilidade — não era o mesmo Adrian do passado, aquele era mais ousado,
destemido, desprezava qualquer ameaça.
Continua...
No próximo
capítulo:
— Com quem pensa estar falando?
Foi inteligente o bastante para seguir meu exemplo, mas da mesma forma burro em
pensar que seria fácil... Posso acabar com a sua vida, basta permanecer nessa
arrogante e tola valentia.
— Pare de se achar insuperável,
pare de pensar que é inatingível, pare de se enganar! — do bolso, Adrian
retirou um pen-drive, trouxe para perto o notebook que descansava sobre a mesa,
injetou o hardware e abriu o arquivo revelador —. Senhores, assistam com
atenção, mas tomem cuidado com a vertigem.
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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