[WebLivro] Ambições - Capítulo 11 - Alianças


Capítulo 11 – Alianças

A verdade é que em algum momento nosso coração balançará por alguém especial, sentiremos sensações desconhecidas, por ora estranhas, mas que se tornam agradáveis, inspiradoras e nos impulsionam a viver o que dentro de nós nasce, brota como uma semente, floresce como a palmeira.
Há forma de vencer esse intenso sentimento?
Somos totalmente resistentes ao amor?
Nem mesmo o mais durão, o mais severo e o menos sensível humano consegue calar seu coração, ofuscar seu interesse pelo alguém que o atraiu. Rende-se. Desiste da luta vã.
Whesley se ofereceu para levar a bela dama embora.
Houve uma elegante relutância.
Mas a oferta era irrecusável.
— Devo agradecê-la por essa noite especial, há tempos não sabia o que era sair por distração. Perdoe-me minha falta de habilidade, reuniões formais nos condicionam a uma constante postura nada divertida — o jovem empresário, sorrindo para a companhia, fez sua declaração, preocupava-se em ser tão agradável quanto à enfermeira, essa preocupação anunciava algo maior: aceitava aquilo que o envolvia.
— Se te deixará mais tranquilo saiba que é um excelente anfitrião, mal vi a hora passar e quando o tempo voa, pode ter certeza, significa que o momento estava muito especial — a partir de seu próprio conhecimento quanto à história do amigo, Samara se propôs a fazê-lo se sentir importante, aceito, coisas que provavelmente não experimentara antes, mas que merecia, transformá-lo-ia, aumentaria suas forças para a luta que enfrentava.
— Mais que uma noite diferente, você me proporcionou esperança. Em um mundo tão corriqueiro, no qual as pessoas mal conversam ou olham nos olhos, encontrar alguém que dedica seus ouvidos a lhe escutar é como ganhar na loteria. Posso voltar a acreditar que não estamos sozinhos ou abandonados no meio da multidão.
— Sempre haverá alguém disposto a nos ouvir, precisa acreditar que somos diferentes, que nem todos possuem o mesmo espírito impiedoso, pode estar perdendo grandes oportunidades por não olhar a vida à procura de seu bom lado.
Ela tinha razão.
Cercado por uma família que dificilmente conseguiria amar limpo de todas as mágoas e rancores, Whesley não conseguia se convencer sobre uma vida diferente na qual pudesse receber o amor, o afeto, o companheirismo das outras pessoas. Precisava se libertar do passado que o aprisionava em nebulosas desesperanças. Precisava dar uma chance a si mesmo.
— Pensa que sou inseguro?
— Penso que está machucado por tantas coisas. Mas permita-se ao bem, permita-se à cura — lançou um sorriso compreensivo —. Comece pela sua irmã, faça o que tenha por objetivo, salve-a!
— Não será possível, ela me despreza...
— Se desistir sempre que surgir uma barreira nunca poderá dizer com orgulho que ao menos tentou... Mas fique despreocupado, tentarei ajudá-lo nessa missão — firmou uma parceria, faria parte da batalha.
— Tem certeza? — espantou-se.
— Amigo é para essas coisas... — desceu do veículo estacionado em frente à sua casa —. Prometo que vamos conseguir!
Graciosa, Samara partiu.
Admirado, Whesley suspirou.
Sua vida entrava em grande fase.


Samuel sentia grande carinho pela amiga virtual com quem compartilhava horas de mensagem, nos dias que a internet falhava pela má conexão não conseguia escapar do vazio que o incomodava, habituara-se às tantas e boas conversas, acostumara-se com a querida amizade.
Contente pela distância encurtada pelo mundo online, o jovem rapaz passou a experimentar outro sentimento: insatisfação. Desde que Sofia ficara dias incomunicável e retornara com a  notícia de overdose sua intenção era em partir para Lobato, encurtar os quilômetros e oferecer seu auxílio a quem precisava. Mas como? Precisava ajudar a tia na mercearia, protegê-la, além disso, com qual dinheiro se sustentaria? Era orgulhoso demais para aceitar a ajuda da amiga, queria ter suas próprias conquistas a partir de seus esforços.
Mas parecia impossível.
No entanto, não custava sonhar.
— Pensativo? — já noite, acompanhando a programação noturna na companhia do amado sobrinho, Diva percebeu o silêncio de Samuel, sabia que na mente juvenil flutuavam tantos pensamentos.
— Nada demais... — o sorriso discreto, desconsolado também, denunciava que algo o distanciava da realidade e incomodava pela utopia aparente.
— Pode me falar, sabe que sempre estarei disposta a ouvi-lo. A descoberta quanto o seu passado despertou muitas dúvidas, posso imaginar, não quero que se torture com isso.
— Confesso que ainda me dói saber que fui desprezado, mas o que significa isso em comparação a todo o amor que recebi nessa casa? Talvez fosse mais um indulgente jogado por aí, mas tive a oportunidade de ser alguém e é isso o que me importa — aproximou-se da tia, refugiou-se em seu abraço.
— Mas há algo maior invadindo seu coração...
— Sim, é verdade — encarou a boa senhora depositando confiança, contaria seus sonhos mesmo que não significasse grandes coisas, desabafaria seus intentos —. Estamos em São Bento dede que nossos patriarcas aqui chegaram, nesse lugar conquistamos alegrias, famílias se construíram, pessoas que se amavam uniram-se intensamente, a história aqui escrita é inegável, mas chega o momento que precisamos nos reinventar, lutar um pouco mais pelos nossos objetivos, e para isso precisamos deixar a zona de conforto e arriscar vôos altos...
— Já imagino onde queira chegar, mas não posso fazer isso, não posso deixar para trás o lugar onde tenho raízes, onde há um pouquinho de mim em cada esquina... Mas você é livre. Você pode alçar vôos, é jovem, tem energia, tem desejos e desde que queira nada o impedirá, mas não posso fazer isso...
Já esperava pela oposição, mas não desistiria tão facilmente. Queria para aquela mulher o que um dia ela lhe desejou: o melhor. Queria lhe ofertar novas histórias, um futuro sem as manchas do passado sofredor, das decepções marcantes e desestimulantes. Queria poder viver seus próprios anseios, mas ao seu lado queria ter a amada família.
— Poderíamos estar mais perto de Elisa, poderíamos junto a ela viver maravilhosas experiências.
— Não acredite nisso, meu querido, porque não é verdade — Diva, sempre cuidadosa, acariciou a face do estimado sobrinho, sorria docemente, um sorriso enfraquecido que contrastava com os olhos abatidos —. Se a sua prima quisesse mesmo ter a família ao lado, teria nos oferecido essa oportunidade, esperaria que nos organizássemos para que partíssemos, mas quando foi que mencionou desejar a nossa companhia? Apenas seguiu sua própria essência, livrou-se daqueles que não despertam seu orgulho...
Samuel ficou em silêncio. Não era capaz de contestar o desabafo de uma mãe que se sentia abandonada, desprezada e reprovada pela própria filha. Era uma dor insuportável. Uma dor que abalava a vontade de viver.
— Porém, como falei, você é jovem e tem uma vida pela frente. Seja pelo motivo que for, é livre para construir seu futuro aqui ou longe daqui, mas eu preciso ficar, sinto-me melhor, sinto-me mais próxima de alguém que tanto amo...
— Não. Nunca a deixaria para trás. Faz parte de mim, é a família que eu tenho. Não importa onde esteja, eu te amo e ao seu lado ficarei... — renegaria a própria vida, mas não daria às costas a quem confessava amar.


Sentia-se livre.
Sentia-se sereno.
Sentia como se o mundo com os seus problemas já não existisse e tudo o que importava era a felicidade e a harmonia de todos os homens.
Entrou no apartamento.
Recebia uma visita inesperada.
— Mãe?! — o antigo Whesley demonstraria raiva, deixaria os rancores se manifestarem e garantiria um mau tratamento a quem só o condenava, mas o novo Whesley refletiu, não agiria como um hipócrita, queria corrigir o passado, recuperar tempos perdidos, precisava provar —. Sente-se — ajeitou o sofá —, quer alguma coisa? — correu à cozinha sendo seguido pela mulher —. Posso fazer um lanche.
— Não se incomode...
— Desde quando uma mãe incomoda seu filho? — surpreendeu com as palavras.
— Whesley, é uma visita rápida, não se preocupe dessa forma.
— E para o quê seria? — mostrava-se prestativo, atencioso.
Sílvia, embora surpresa, precisou se revestir da frieza que constantemente a protegia, ignorou a ótima recepção, desprezou o olhar amoroso de um filho que não soube amar, mas, ainda que discretamente, se arrependia por isso.
Precisou ser forte.
Tinha ordens a cumprir.
— Minha visita é bem simples, não perderá muito tempo, mas como ficou todo esse tempo fora sem mandar notícias possui uma grande dívida com a sua família. Quero que firme parceria com a Eras Modas, quero que faça um acordo com Rodolfo Eras.
O semblante simpático fechou-se instantaneamente.

Continua...

No próximo capítulo:

— Eu o amo, é tudo o que tenho e reconheço isso, queria entender porque me abandonou, parece ter me rejeitado, parece ter se preocupado apenas com a própria dor e esquecido que eu também sofria, eu também chorava... Para sempre morará em meu coração, só não posso acreditar que nunca mais me fará sofrer, não posso confiar em quem um dia depositei toda a minha confiança...

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