[WebLivro] Ambições - Capitulo 10 - Novidades
Capítulo 10 – Novidades
Falhamos ao
desprezar o poder de nosso inimigo, falhamos ao subestimar sua capacidade de
destruição, seu poder de nos encontrar e encurralar, sua astúcia em nos colocar
numa situação sem saída, sem opção, a não ser a dura e amarga rendição, a
confissão da derrota.
O casal se
encarou, espantado.
Queriam
liberdade. Queriam viver livres o amor que idealizavam, o futuro de conquistas
que pensavam em alcançar. Não queriam retornar ao tormento, não queriam ter
seus destinos controlados por homens de pérfidas intenções. Não queriam viver
na incerteza de como seria o amanhã.
Mas eram bons
seres humanos.
Não iriam
sucumbir ao egoísmo, estavam cercados, tentar reagir seria uma atitude
equivocada, inútil, que traria o fim de uma história que nem ao menos começara
além de dor àqueles que amavam a pequena garota. Abaixaram os olhos,
derrotados, estenderam os braços, pulsos colados, se deixaram algemar.
A criança foi
liberta.
Eles,
aprisionados.
— Acham certo o
que fizeram? Ou melhor, acham sensato ir contra as ordens e tentar uma
rebelião? — o homem irado alçava a voz como se ninguém o ouvisse, seus olhos
vermelhos não escondiam a intensidade de uma fúria fatal —. Ir contra o Sistema
é declarar guerra ao Líder, ele nunca perde!
Os jovens
estavam amarrados em duas colunas.
Um de frente
para o outro.
— A ordem foi
clara — continuou seu discurso —. Deveríamos capturá-los violentamente, não foi
necessário tanto furdúncio, mas apenas trazê-los de volta e explanar um sermão
não é o bastante. Precisam de punição. O Líder deverá chegar em dois ou três
dias. Até que ele chegue e decida o que fazer, ficarão sem comer e beber...
— Desgraçados
miseráveis! — Felipe, condicionado pela vida atlética que costumava levar,
pensou ser forte o suficiente para arrebentar as amarras, debatia-se, lutava
contra a prisão —. Precisam pagar por seus atos nojentos, bando de ratos!
— O que
ensinamos sobre protestos? — o superior se aproximou do prisioneiro, agarrou
seus cabelos, puxou-os para trás forçando a cabeça do rapaz destemido contra a
pilastra que o impedia de correr —. Sugiro que poupe energia – desferiu um soco
contra a barriga vulnerável —, ou morrerá de fome!
Foram trancados.
Largados à
própria sorte.
Cabisbaixos.
— Perdoe-me... —
sentindo-se derrotado, enfraquecido, humilhado, Felipe fez ecoar sua voz no
ambiente pouco iluminado que cheirava a abandono, a ameaças —. Deveria
protegê-la, planejei a fuga para que estivesse segura, livre das maldades desse
desprezível Sistema, mas falhei...
— Não pense que
estou te culpando, porque não estou... — Acsa, embora descrente, não alimentava
nenhum pensamento que colocasse a responsabilidade pela derrota sobre as mãos
do namorado, encarava-o como sempre o fez, encarava-o cheia de afetos —. Para
mim não importa como, importa que estejamos juntos, que soframos juntos, para
que juntos proclamemos vitória! — precisava ser forte e compartilhar esperança,
seu amante necessitava de força.
∞
Na jornada da
vida nos deparamos com novidades, vivemos novas histórias e desfrutamos de
oportunidades nunca antes percebidas. Somos surpreendidos. Somos recompensados.
Somos motivados a sonhar.
Samara,
retocando a maquiagem, sorria entusiasmada.
Sua mãe, uma
debilitada senhora, reconheceu aquele olhar.
— Posso saber
quem é o dono de seus pensamentos? Aposto que seja alguém muito especial para
que se arrume tão lindamente.
— Não pense
bobagens, mãe, sabe que tenho um propósito, nunca me apaixono, mas não tenho
nada contra novos amigos — respondeu divertida —. Quem sabe um dia eu o convide
para um jantar? Tenho certeza de que será um prazer conhecer alguém tão bom.
— Pelo jeito que
fala parece que se conhecem há tempos, tem certeza de que é apenas um amigo? —
a observadora mulher questionou, queria respostas diferentes, queria ver a
filha se apaixonando, firmando parceria com quem amasse, sentia que seus dias
chegavam ao fim.
— Há pessoas que
não escondem o que são, tão logo as conheçamos, descobrimos seus anseios...
Prometo não tardar, espero que fique bem.
Beijou a
admirada mãe.
Nunca se cansava
de amá-la e demonstrar esse sentimento. Era tudo o que tinha. Tudo que para
sempre desejava ter.
Whesley, atento
aos casais que compartilhavam mesas, as famílias que conversavam pacificamente
e aos grupos de amigos que aproveitavam o tempo livre para um encontro
amistoso, aguardava ansiosamente pela chegada de sua convidada, concentrava-se
na entrada, encarava o relógio, em poucos minutos ela deveria aparecer para uma
noite agradável, a primeira desde que voltara a Lobato.
Por que aquela ansiedade?
Qual o motivo para tanto nervosismo? O que explicava seu entusiasmo para aquele
jantar? O que realmente sentia pela nova amiga? Conhecia seus sentimentos,
sempre soube quando estava interessado em alguma mulher, porém a nova
experiência o surpreendia, era diferente, talvez estivesse mais amadurecido do
que acreditava.
Finalmente, em
seu longo vestido, Samara cruzou as portas.
Não era como a
enfermeira de antes.
Aos olhos de seu
anfitrião era ainda mais bela.
— Espero não ter
me atrasado — tímida, um tanto incomodada por algo que não era habituada a
praticar, a mulher cumprimentou o empresário com um beijo na face, tentou
esquivar-se da própria mente, mas não pôde esconder que se agradara pelo
perfume exalado.
— Mais pontual
seria impossível! — Whesley, exibindo seu estilo esporte fino, tocou as mãos
livres enquanto o beijo de cumprimento era trocado, sorriu animado, sorriu ao
sentir o doce aroma —. Sente-se — puxou a cadeira —, é uma honra ter meu
convite aceito.
— Foi
irrecusável, disse que há tempos não conseguia se distrair, como falei, estou
sempre disposta a ajudar...
Encantado.
Ainda que não
quisesse, ainda que não fosse sua intenção, o jovem rapaz se encantava pela
mulher simples ao mesmo tempo em que elegante, discreta ao mesmo tempo em que
marcante.
Pediram alguma
coisa.
Mas o que
queriam mesmo era uma agradável conversa.
— Sabe da minha
história, incomodei-a logo que a conheci com meu passado bagunçado, mas e você,
quem é a Samara?
— É uma pobre
sonhadora que acredita na bondade, que se orgulha e admira pelas pessoas que
lutam pelo bem, que aprendeu esse valor com os ótimos pais que teve... —
simpática, encarava seu ouvinte sem se intimidar, prendia-se nas ardentes íris
castanhas, íris também conquistadoras —. Confesso que tive sorte, nasci em uma
família maravilhosa, unida, mas que ainda assim esteve vulnerável às
indesejáveis surpresas da vida. Ainda adolescente presenciei um acidente, meu
pai não resistiu, minha irmã partiu dias depois, minha mãe sobreviveu apesar
das sequelas que a acompanham e eu sou um milagre, nem um arranhão, a não ser a
saudade incômoda e opressora.
— O melhor dos
milagres... — Whesley se comoveu, sempre soube que todos possuem desafios a
vencer, o que difere é o desejo pela vitória, pela conquista —. Acredito que
nada acontece por acaso, seu pai e sua irmã já estavam prontos para uma viagem
de descanso, enquanto você e sua mãe ainda precisam cumprir com alguma missão.
— Penso assim,
na verdade é o que me consola, sei que onde estão eles nos guiam para que
façamos o bem.
— Então sou
enormemente grato por terem me guiado até o caminho de um ser humano admirável!
— olhando para cima, exibindo o largo sorriso, o empresário mostrou gratidão e
contentamento por ter esbarrado em alguém ímpar no extenso trânsito da vida.
— Tem certeza de
que sou tudo isso?
— Foi a primeira
pessoa a me fazer sorrir desde que cheguei, não é só isso, é muito mais que
tudo isso! — precisou declarar as palavras elogiosas, sentia que precisava
manter Samara em sua vida, sentia que seu destino se transformava, a esperança
retornava e a luz raiava dissipando as múltiplas e densas trevas.
A enfermeira
repetiu em sua mente o que ouvira, sentiu-se importante, sentiu-se realmente
especial. Gostou dos tais sentimentos. E se a vida estivesse lhe oferecendo
novas oportunidades? E de dentre elas estivesse a do amor? Manter-se-ia em seus
inseguros propósitos ou se permitiria aos próprios desejos? Convencia-se de que
seu coração se apaixonava, o que sempre evitou acontecia lenta e intensamente.
Continua...
No próximo
capítulo:
— Não acredite nisso, meu
querido, porque não é verdade — Diva, sempre cuidadosa, acariciou a face do
estimado sobrinho, sorria docemente, um sorriso enfraquecido que contrastava
com os olhos abatidos —. Se a sua prima quisesse mesmo ter a família ao lado,
teria nos oferecido essa oportunidade, esperaria que nos organizássemos para
que partíssemos, mas quando foi que mencionou desejar a nossa companhia? Apenas
seguiu sua própria essência, livrou-se daqueles que não despertam seu
orgulho...
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