[WebLivro] Ambições - Capítulo 07 - Acusações
Capítulo 07 –
Acusações
A relutância
pode ser uma forte aliada, encoraja-nos a lutarmos mais de uma vez ao ponto de
nos sentirmos satisfeitos apenas quando alcançamos a vitória. Por outro lado,
ela pode representar um grande inimigo, uma potente força opositora, algo que
nos faz desistir de nossos desejos e insistir nessa desistência em nome do medo
e da dúvida.
Whesley não dera
o primeiro passo apesar de prometer a si mesmo que não agiria como das outras
vezes, relutava em seu ser, resistira na reflexão dos questionamentos que
rondavam sua mente atribulada. Suportaria a rejeição da irmã? Seria capaz de
ouvir as duras palavras sem correr para seu exílio, sua defesa? O que faria se
não conquistasse o perdão que almejava? Permaneceria na esperança de unir sua
família e sentir o sublime amor fraterno?
— Estarei com
você — perceptiva, Samara soube desvendar aqueles instantes de paralisia,
prestativa, ofereceu seu auxílio naquela tarefa difícil —. Depois que conversar
com aquela que precisa do seu carinho poderá falar comigo, contar como foi,
farei o possível para ajudar...
— Obrigado —
libertou um sorriso discreto —. Precisarei de alguém que possa me escutar sem
que me condene... — encarando as íris azuis, admirado pelo brilho de olhos tão
belos e sutis, o empresário teve em seu peito um sentimento acrescido, estava
diante alguém que se diferenciava de todas as outras pessoas, alguém que ao
invés de um olhar acusador oferecia um olhar de compreensão, talvez ganhasse
uma nobre amiga —. Não há mais o que adiar — suspirou apreensivo, como se o
mundo dependesse de sua bravura —. Nem sempre o caminho é plano, preciso me
acostumar...
E lá se foi o
casal.
Não se tocavam.
Por enquanto.
Whesley caminhou
pelos corredores do hospital a passos lentos, recordou-se de um dos poucos
momentos infantis que permanecera em sua mente, quando despreocupado,
indiferente aos problemas de um universo que o atormentaria tão logo crescesse,
divertia-se na piscina da mansão junto da irmã alguns anos mais nova. Riam,
gargalhavam, abraçavam-se. Eram unidos. Um não vivia sem o outro. Um amava ao
outro de uma forma tão forte que promessas eram feitas, dentre elas, a mais
simples de cumprir, a esquecida de forma egoísta, de jamais se separarem
acontecesse o que quer que fosse.
Como conversaria
com a irmã conhecendo a própria deslealdade? Sabendo que não cumprira a maior e
mais importante promessa feita na paz da infância? Como convenceria alguém que
magoou a confiar em seu retorno?
Parou em frente
ao quarto.
Encostou os
dedos na porta.
— Acha bonito se
encher de drogas e tantas impurezas mais ao ponto de colocar o nome da sua
família na lama? Sabe quem eu sou? Sabe a importância da minha imagem perante
os eleitores? Sabe quais esforços preciso ter se quiser participar da
reeleição? — Cícero, no topo da sua arrogância, ignorava suas responsabilidades
e acusava a filha, que dependia de sua atenção naquele momento de fraqueza, das
possíveis ruínas que o acometeriam —. Se quisesse mesmo o amor, o carinho e a
atenção de seus pais seria uma jovem melhor, exemplar, não agiria como uma
inconsequente, se fazer de coitada não ajuda em nada!
Sofia, desde que
acordara, aguardava pelos sermões e era o que recebia. Tentava entender o que
fizera para ser tão desprezada, reprovada, mas não encontrava respostas.
— Acha que tomei
essa atitude pensando em chamar a atenção? — sua voz soava abafada, sem energia
—. Estou bem crescida para acreditar que conseguirei mudar a realidade dessa
família que vive de aparências, mostra o que não é, uma família que em nada me
orgulha. Minha intenção era morrer! — lágrima densa rolou por seu rosto,
lágrima de tristeza.
— E ainda
repudia aqueles que a trouxeram ao mundo e garantem seus maiores luxos? —
Sílvia, a primeira-dama do Estado, em cima de sua pose de socialite, ao invés
de oferecer conselhos e confortos preferiu o caminho do julgamento, uma
especialidade —. Consegue se ouvir? Percebe que se comporta como o rebelde do
seu irmão? Chorou tanto por ele, lamentou tanto quando o vira partir, mas
aprendeu direitinho, pratica a mesma ingratidão, tem a mesma postura
egocêntrica!
— Ele estava
certo. Quem seria capaz de amar pais tão ausentes e cegos?
— Assumiu a
posição de advogada? — o governador protestou —. Lembre-se que ao partir ele a
desprezou, se não nos ama tão pouco ama você, essa é a maior certeza que temos!
— Isso não é
verdade! — o sentimental Whesley, sem controle sobre o choro abatido, sobre a
voz embargada, adentrou aquele quarto cuja atmosfera pesada oprimia os
corações, afastava a união e desmanchava o sentimento de família que ali
deveria existir —. Por que não assumem sua responsabilidade, por que não
confessam que negligenciaram tudo aquilo que nós, seus filhos, necessitávamos e
pedíamos? É mais fácil condenar os outros do que assumir os próprios erros!
— Quem acha que
é para nos dar sermões? Para nos ensinar sobre comandar uma família? Onde está
a sua? Onde estão os seus filhos? Ou mantém a vida de aventuras de antes ou é o
mesmo inseguro de sempre, aquele moleque inutilmente doce que jamais será um
homem como eu, jamais saberá o que é ser forte e valente a fim de enfrentar o
mundo e seus desafios em nome do próprio sucesso. Se negligenciamos não
importa, o importante é que foram fartos a vida toda!
— Família não
deve ser comandada, como pensa, não é uma empresa ou um território, família
deve ser amada, protegida com cuidado, zelada com afeto — o rapaz, surpreso
pelas ignorantes palavras, confessando que o pai em nada mudara, expôs seu
pensamento –. Talvez não quiséssemos fartura, o mais importante era termos
nossos pais conosco, vendo-nos crescer, ajudando-nos a desenvolver, coisas que
o dinheiro, o prestígio e o poder jamais comprarão ou dominarão!
— Como seu pai
disse, você não tem uma família, não faz ideia do que é criar os filhos, quando
os tiver verá que amor não sustenta, não sacia e sede e nem aquece do frio. Não
pode nos ofender dessa maneira, não pode desmerecer tudo aquilo que fizemos.
— Quem pediu
para que abandonassem seus afazeres? Ao menos não precisavam se dedicar tanto
ao que é passageiro. Mas não foi apenas isso que me afastou, vocês não se amam,
não vivem em união e não conseguem transmitir bons sentimentos e eu queria
saber o porquê, queria que explicassem qual o motivo para tantas brigas, tanta
frieza, por que nunca fomos uma família?
Marido e mulher
tinham um passado.
Histórias mal
escritas.
Sombras que não
se dissipariam.
Não tiveram
resposta. Ergueram a cabeça. Esconderam-se atrás da desculpa do dia de trabalho
que teriam pela frente a fim de escaparem da falta de argumentos,
esclarecimentos. Era tarde demais para que mudassem a realidade.
Estavam a sós.
Depois de tantos
anos, de um imenso distanciamento, de um profundo e ensurdecedor silêncio,
estavam frente a frente para que declarassem palavras há muito contidas,
descobrirem sentimentos, ressentimentos, arrependimentos e mágoas há muito
aprisionados.
Os olhos
passaram a se encarar.
Uns, humildes,
prontos para reconhecer os erros e suplicar perdão. Outros, severos,
aparentavam decepção, exibiam irredutibilidade.
Whesley sentia
medo em iniciar o diálogo, sentia-se acuado, oprimido pelo semblante que o
encarava cheio de acusações, as palavras não soavam, as pálpebras se encharcavam.
Mas Sofia, com
tantas feridas, maior vítima de uma relação movida a interesses, endureceu o
coração, faria sofrer todos que um dia motivaram suas lágrimas.
— Não sei o que
faz aqui e nem o que pretende, mas adianto que será inútil qualquer tentativa de
reconciliação. Sugiro que vá embora, dê as costas e cuide da sua vida, sei que
não será esforço algum!
Continua...
No próximo
capítulo:
—
Nunca tive amigos leais, que fizessem a diferença, que se importassem mais com
o que sou ao invés do que tenho, nunca conquistaram minha confiança para que eu
revelasse minhas dores, nem ao menos o tentaram, mas como pode alguém jamais
visto me ofertar palavras de valentia?
—
Somos todos seres da mesma espécie, temos a graça da racionalidade, por que não
podemos nos ajudar? É um prazer saber que represento algum diferencial —
tímida, sem conseguir reagir ao elogio, Samara revelou a filosofia que a movia.
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