[WebLivro] Ambições - Capítulo 05 - Parceria


Capítulo 05 – Parceria

Rodolfo era um homem de sucesso financeiro, mas seu peito ardia pela derrota que sofrera no passado, pela falta de controle que não pôde evitar, pela indesejável surpresa que para sempre perseguiria sua mente. Se por um lado conseguira notoriedade, por outro não passava de desconhecido à única pessoa que lhe importava.
A paixão se transformou em ódio.
Seus intentos agora buscavam apenas uma coisa: vingança. Sua injusta justiça.
— Estava certa ao dizer que existia interesse entre nós, não posso negar o óbvio... — repousando a taça de vinho sobre o criado-mudo, o empresário quebrou o silêncio que pairava no quarto e insistia em sua presença —. Mas qual seria o seu?
— Mudar de vida — Elisa levou as íris azuis em direção ao parceiro, sua resposta foi simples, direta, queria mudar sua história, não importava quais passos deveria trilhar.
— E é claro que vê em mim alguém que pode ajudá-la nesse propósito... Mas não sou de me apegar, não me apaixono como um ingênuo garoto que sonha com a mulher de sua vida... — acariciou o ombro descoberto —. Uso e descarto! — sorriu perverso, estava sendo transparente, queria medir a insistência daquela que representava poderosa ferramenta para seus planos, queria ter certeza de que fazia a escolha sensata.
— Quando foi que falei que acredito em relações amorosas? — a ambiciosa mulher, mantendo o olhar sedutor sobre o magnata astuto, passeou o indicador pela discreta barba grisalha, não se cansava de lançar charmes, não queria ser amada, estava decidida em despertar os desejos carnais de um homem tão poderoso —. Pessoas não se amam, pessoas negociam, fazem acordos e quando se cansam de suas palavras rasgam o que disseram, apagam o que prometeram e livram-se umas das outras... Por que está comigo? Por que não fugiu enquanto nossas conversas estavam reclusas a um mundo no qual ninguém nos enxerga? Por que eu?
— Por que você é a mulher que me fará feliz...
— Soou meloso.
— Soará traiçoeiro... — levantou-se vestindo o roupão —. Pessoas decepcionam e ferem, pessoas são egoístas ao ponto de jogarem fora todo o nosso esforço, toda a nossa demonstração de afeto por um único erro. Não importa o quanto acertemos. Um equívoco é o suficiente para que pisem em nossas cabeças! — observava a noite iluminada através da luxuosa sacada que tornava a vista de seu quarto mais que agradável.
— Foi magoado? — Elisa se envolveu no cobertor, colocou-se ao lado de Rodolfo e passou a contemplar a mesma paisagem, nunca vista antes, a que acresceu em seu coração avarento o desejo por conquistar a realidade que pensava merecer.
— Fui desprezado, tratado como verme... Posso transformá-la em uma das modelos mais preferidas dos fotógrafos, se não a mais cobiçada deles. Tem potencial e eu tenho esse poder. Mas quero algo em troca — descansando o cotovelo sobre a mureta, o empresário se virou para a jovem mulher, fácil presa —. Quero que destrua os Rebelo e como prêmio fará parte da Eras Modas eternamente. A vida de uns pelo seu sucesso, sua riqueza, pela transformação tão querida. Será outra pessoa, nunca mais sentirá o cheiro da pobreza na qual viveu por todos esses anos.
Era uma proposta tentadora.
Era uma proposta irrecusável.
Ignorou todos os ensinamentos da mãe.
Desprezou toda a bondade que foi instruída a cultivar.
— Em uma guerra alguns morrem para que outros ascendam — deu sua resposta —. Não se arrependerá dessa parceria! — sorriu realizada, tinha em seu coração que alguns esforços deveriam ser experimentados em nome da ambição.


Quanto maior o poder maior é a responsabilidade. Todos observam o líder, procuram imitá-lo para que sobrevivam, mas não deixam de acusar e condenar o menor dos delitos.
Whesley Rebelo.
Para o jovem empresário seu nome possuía um peso muito grande, praticamente insuportável. O mundo o conhecia. O mundo tinha os olhos virados para aquela marca tão influente, poderosa e cobrada.
Ele sabia que a irmã passaria por problemas impiedosos tão logo colocasse os pés de volta no mundo, seria humilhada, julgada de maneiras cruéis simplesmente por carregar um nome que prezava pelas aparências, que acima de tudo velava por sua capacidade de coagir, persuadir e dominar.
Exausto, mergulhou na banheira.
Sentiu a água morna cobrir seu corpo.
Sentiu as espumas o envolver.
Fechou os olhos em busca de paz.
Porém, o que há muito tempo não acontecia voltou à tona, a imagem de alguém pairou sobre seus pensamentos, não conseguia se esquivar do sereno e amistoso semblante de Samara, a enfermeira despretensiosa que o abordou de forma sutil e lhe ofereceu conforto em um momento de desespero.
Desacreditado no amor pelo péssimo exemplo que tinha dentro de casa, Whesley nunca se permitiu ao sentimento transformador, acreditava que ele representava dor e sofrimento, que ninguém o vivia plenamente. Esqueceu-se de que nós modelamos o que sentimos e temos a capacidade de usá-lo como realmente desejamos, a história que construiria não se igualaria a dos pais.
Ainda que se apaixonasse, ainda que sentisse interesse por alguém, recusava-se a confessar, esquivava-se de encarar a verdade do que sentia e se afastava daquilo que tinha por ameaça. Vencia o amor.
Mas agora seu coração batia diferente por uma mulher desconhecida, alguém que de maneira especial se aproximou, ofereceu palavras doces e agora se fazia presente em seus intentos.
Passou as mãos molhadas sobre o rosto.
Levou-as aos olhos na tentativa de apartar os pensamentos.
Falhou. Sem que percebesse abriu um sorriso relembrando a conversa, ouvindo na mente a melodiosa voz. Quando se deu conta estava gostando de refletir no jeito como Samara se fizera ímpar.
Mas não aceitaria aquela situação, a menos se estivesse enlouquecido, sabia bem que a lucidez era sua melhor companheira, não se permitiria a fraquezas, não daria atenção a um surto de carência. Durante toda a vida lutou contra aquilo que representava amarguras, não era o momento de se render.


Os portões resistentes se abriram lentamente soando o pesado som do confronto entre eles e o chão. Após longos dias e noites de viagem o caminhão estacionou, os carros que de modo discreto o escoltaram também interromperam a missão, homens armados rodearam o veículo para que a carroceria fosse destravada.
As portas se abriram.
Olhares amedrontados eram dirigidos aos agentes da facção que durante a noite exercia perversão.
— Essa garota está morta! — um dos quatro guardiões que acompanhavam os prisioneiros se manifestou, indicou o cadáver e aguardou por ordens.
— É por isso que o Líder sempre encomenda mais que o necessário — o responsável por receber os novos cativos vestiu no rosto um sorriso esperto —. Faça o que quiser com o corpo bem longe daqui. Leve alguém com você — virou-se aos demais —. Quanto ao restante, desçam em ordem, não queiram se fazer de espertos ou dirão que essa gracinha teve sorte em morrer!

O motorista mantinha o olhar fixo sobre a estrada, procurava enxergar além dos limites da noite, procurava se afastar o mais rápido de onde a maldade imperava.
— Acho que já está bom — o carona, estranhando os quilômetros rodados, sugeriu que parassem.
— O superior foi claro ao ordenar que nos livrássemos do cadáver longe o bastante.
— Já é o suficiente.
— Não para mim.
— Já é o suficiente! — apontou a pistola.
— Não para mim! — girou o carro na rodovia agarrando o braço estendido, tiros foram lançados, estilhaços de vidro se espalharam.
— O que está fazendo? — assustado, o homem se viu na mira da própria arma, colocou as mãos para cima, não tinha escolha a não ser rendição.
— Lutando pelos fracos — disparou contra a testa do parceiro –. Vingando os injustiçados!
A garota, deitada sobre o banco traseiro, abriu os olhos.


Continua...

No próximo capítulo:

— Obrigado... — de olhos fechados, exausta pelo medicamento potente e pelos acontecimentos humilhantes, Acsa agradeceu, aconchegou-se no namorado buscando nele a proteção que necessitava, a segurança de que precisava naqueles dias terríveis —. Por algum momento pensei que estaria abandonada outra vez, sozinha em um mundo tão imenso, cheio de tanta gente e vazio de humanidade, mas aí você apareceu com sua agradável companhia. Ter o seu amor me acalma...

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