[WebLivro] Ambições - Capítulo 12 - Palavras Reveladoras


Capítulo 12 – Palavras Reveladoras

Por algum momento Whesley acreditou que era uma visita de mãe para filho, imaginou que teriam uma conversa reconciliadora, que firmariam o compromisso de pelos próximos dias fazerem o possível a fim de reparar um passado defeituoso. As esperanças sucumbiram à realidade. O jovem rapaz não poderia ter surpresa mais indesejável.
— Enlouqueceu?! Depois de tudo, depois de todas as coisas, com tudo o que esse homem representa, está me pedindo para que faça alianças? Ele não terá outra coisa senão o meu desprezo e não vou discutir esse impasse! — as palavras duras soaram convictas quanto o pensamento irredutível.
— Nossa família possui dívidas com esse homem, eu preciso cumprir com meus acordos, estar tranquila quanto às promessas que fiz, só assim estaremos livres de cobranças! — a primeira-dama, achando que intimar o filho seria tarefa fácil, forçou seus argumentos, lutaria pelo objetivo cujo fracasso custaria vidas.
— Suas dívidas, não tenho nada com o problema de vocês. Além disso, será que é tão imperceptível a estratégia usada por esse astuto? Fazer com que me convençam a um contrato é uma forma de continuar prendendo nossa família, sugando o que é nosso.
— É inteligente, sei que é esperto, não permitiria que fôssemos tragados pela impiedade...
— Pensei que estivesse aqui por um motivo mais nobre, vejo que me enganei — Whesley lançava o olhar frustrado sobre a mãe, culpou-se, não deveria ter criado expectativas —. Não quero me envolver com os problemas que não souberam resolver. Meu pai matou um homem, eu não.


Ao soprar de novos ventos nossa história vira de página, muda de capítulos e momentos de ascensão nos aguardam. Infelizmente têm aqueles que por medo não permitem aos seus livros seguirem o curso, colocam pesos sobre as folhas para que elas não dêem lugar aos novos escritos. Sofreram tanto que não acreditam no futuro.
Felizes são aqueles que permitem a história prosseguir.
Descobrem segredos maravilhosos.
Experimentam momentos de prazer.
Samara se permitia a essa mudança, convencia-se de que chegara o momento de avançar, de viver seus planos, de construir a vida que sonhou. Aceitava o fato de que o amor estaria em seus próximos capítulos.
Ao entrar em casa tomou cuidado para não ser percebida, arrumou-se para uma noite de descanso e repousou a cabeça sobre o travesseiro.
Fechou os olhos.
Não os da alma.
O sorriso em seu rosto delicado denunciava quais pensamentos a rondavam. Whesley, com seu jeito especial de sorrir e maneira sutil de encarar, fazia-se presente na mente apaixonada, não se ausentava de seus desígnios.
O que estava acontecendo?
Não era apenas uma amizade inocente que nascia, era mais que isso, um sentimento que lhe garantia o privilégio de se sentir importante, especial. Nunca se apaixonara daquela forma. Sempre acreditou em alma gêmea. Finalmente parecia ter encontrado a sua.


Durante uma sincera conversa conhecemos pessoas diferentes da maioria do mundo, pessoas que sabem o que estão falando, que falam com sabedoria, que usam da verdade para nos ensinar, aconselhar e confortar. A vida seria mais fácil se ao invés de discutirmos, confrontarmos ou calarmos, passássemos a conversar, a explicar o nosso porquê e entender o dos outros.
Às vezes, tudo o que mais precisamos é de uma construtiva conversa.

— Nem acredito que vou embora, esses dias pareceram uma eternidade... — Sofia, ajeitando seus pertences, comemorava a alta.
— Acredito que a expectativa seja grande para estar de volta em casa, com seus pais, seu irmão... — Samara, que ajudava a paciente, não perdeu a chance de puxar um assunto delicado, mas que precisava de atenção —. Nossa família é o bem mais precioso que podemos ter.
— Não sei se conseguiu perceber, mas minha família mais parece uma união de executivos. Para falar a verdade não sei como ainda estou viva...
— Não seria imaginação sua? Parecem tão próximos...
— Está falando das visitas inúteis que fizeram? — sorriu debochada —. Não passam de atores da vida real. São influentes. Meu pai é o governador. Por aparência são capazes de qualquer coisa.
— Não me refiro a eles, falo sobre seu irmão, de hora em hora nos ligava à procura de informações, estava realmente preocupado...
A jovem mulher, apesar de seus comportamentos externizarem o contrário, amava o irmão, possuía tantas memórias afetivas, tantas lembranças agradáveis de um passado que desejava ardentemente reviver. Contudo existiam mágoas, rancores, não conseguia abrir o coração.
— Talvez não passe de mais um ator — sentou-se na cama hospitalar, desabafaria com uma desconhecida, alguém que pensava nunca mais encontrar —. Foi embora e quebrou uma promessa, esqueceu-se de mim, por que apareceu agora? Remorso? Arrependimento? Ou seria puro interesse?
— Interesse de quê? — a enfermeira aproveitou a rendição de Sofia, sentou-se ao seu lado, emprestaria seus ouvidos, tentaria confortar a alma angustiada.
— É o que quero saber...
— Não vejo interesse nos olhos de seu irmão, a não ser um, provar que a ama e quer vê-la feliz. As pessoas erram, até mesmo as que mais amamos, as que moram em nosso peito, é natural, porém se arrependem e procuram corrigir suas falhas. Fato é que sabemos quando o pedido de desculpas é ou não sincero, precisamos nos ater a esse detalhe e nos libertar de orgulhos bobos, egoísmos sem sentido, empecilhos que nos impossibilitam de sermos felizes.
— Eu o amo, é tudo o que tenho e reconheço isso, queria entender porque me abandonou, parece ter me rejeitado, parece ter se preocupado apenas com a própria dor e esquecido que eu também sofria, eu também chorava... Para sempre morará em meu coração, só não posso acreditar que nunca mais me fará sofrer, não posso confiar em quem um dia depositei toda a minha confiança...
Palavras são reveladoras.
São também tocantes.
Escondido atrás da porta, atento a cada vírgula, Whesley ouviu o desabafo, aguardou alguns instantes até que as lágrimas cessassem, recuperou o fôlego, manifestou sua presença.
— Vamos? Vim buscá-la.


— Sinto muito orgulho do nosso governo, sinto tremendo orgulho do trabalho que temos feito e estou ainda mais orgulhoso por anunciar a nova parceria que firmamos e que renderá bons frutos à nossa população. Minha esposa sabe, luto dia e noite pelo melhor e é isso que temos conquistado!

Enquanto o governador discursava e inflava seu ego inabalável diante a portaria da nova empresa que se instalara em Lobato, capital do estado, Sílvia era abordada pelo importunador, cercado por sua infame presença.
— Atrás desse púlpito, todo engravatado, soando a voz para tanta gente, nem parece o safado de sempre, que rouba, trapaceia, mata e não paga as contas...
— Se tem alguém aqui que não passa de um aproveitador medíocre ele se chama Rodolfo Eras — sentada na primeira fileira, mantendo a pose elegante, a primeira-dama respondeu —. Você é um tolo insolente.
— Não, minha querida, apenas sou justo e valorizo meus esforços para manter a boca fechada, sabe que adoro uma delação premiada — sorriu divertido —. Mas também sou impaciente, gosto de ser atendido tão logo pense no pedido, seu filho ainda não me procurou...
— Desista. Ele não vai.
— Isso é tudo o que conseguiu?
— É o que avisei que conseguiria. Pare de agir como um verme guloso e tenha nosso acordo por encerrado, não sabe com quem está lidando.
— Mas é claro que sei, ao meu redor tem assassinos inescrupulosos e não vou continuar encobertando seus crimes, a coletiva de mais tarde arruinará definitivamente os Rebelo — ameaçou.
— Se naufragarmos, você naufraga junto. Estamos tão unidos quanto pensa. É tão culpado quanto nós! — venceu o debate.

— As negociações fluíram sem embaraços, consegui driblar as burocracias em tempo ágil e garantirei aos pais de família e aos jovens sonhadores a oportunidade que tanto buscam — Cícero prosseguia em suas animosas palavras, discurso que visava à reeleição —. O nome por trás desse negócio grandioso nunca me foi revelado, acordei com representantes sérios e competentes, mas hoje terei a oportunidade de, em nome de todos os meus caros cidadãos, agradecer à generosa oferta. Por favor, em meio aos nossos aplausos, com nosso mais sincero reconhecimento, apresente-se nobre alma! — sorria tranquilamente.
Alguém se levantou dentre todos.
Caminhou rumo ao palanque.
Colocou-se ao lado do governador.
Sorrindo, tirou os óculos solares.
Não poderia ser verdade.
O passado arruína o presente e aniquila o futuro.


Continua...

No próximo capitulo:

— Se eu fosse você passaria a me respeitar como seu novo governador, não estou aqui como amigo, como aliado, como um empresário sedento por dinheiro sujo ou um benfeitor hipócrita, tenho meus interesses e eles são complexos demais para a sua fragilidade — não era o mesmo Adrian do passado, aquele era mais ousado, destemido, desprezava qualquer ameaça.

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