[WebLivro] Ambições - Capítulo 20 - Recomeço
Capítulo 20 – Recomeço
Todos
enfrentamos momentos de angústia e aflição, momentos que sozinhos não
conseguiríamos suportar, não teríamos a força suficiente para passarmos pelo
oceano de opressões sem morrermos afogados. É aí que surgem nossos apoiadores,
pessoas especiais e sutis que por receberem o nosso amor e nos amarem,
disponibilizam seu auxílio.
Sílvia não tinha
quem a pudesse ajudar.
Não tinha porque
não queria.
Mas sabia que o
filho não a desprezaria.
— Sente-se
melhor? — ajudando a mãe a tomar o copo d’água com açúcar, sentado ao seu lado
no sofá da sala de estar e encarando-a com preocupação, Whesley perguntou.
— Obrigada — a
mulher agradeceu, seus olhos abatidos indicavam que algo a perturbava
gravemente.
— O que foi que
aconteceu? — tinha consciência de que a primeira-dama não o visitaria sem
necessidade, sabia que precisava do seu apoio e estava disposto em ofertá-lo.
Sílvia encarou o
vazio por alguns segundos, procurava como começar sua revelação, não queria
parecer uma interesseira sem recursos desesperada por agrados, queria
demonstrar que estava arrependida pelo passado de erros, pela história que não
se preocupou em escrever de forma digna.
— Sei que nunca
fui o que quis, a mãe que merecia ter, a amiga de que precisava a fim de
crescer preparado para um mundo cheio de mazelas que nos causam feridas
ardentes e sei também que posso decepcioná-lo ainda mais com o que vou contar,
mas é necessário, estou farta dessa vida sem sentido, o dinheiro não compra
felicidade e nem o prestígio nos protege da dor cruel que o arrependimento
manifesta em nosso peito, fui tola por esconder de mim a verdade, poderia ter
sido muito mais feliz — falava com serenidade, olhando para o jovem rapaz
fixamente, alguém que abraçou quando ainda um indefeso recém-nascido, alguém
que se transformou em um belo rapaz, de nobre alma, que poderia ter lhe
concedido tantas alegrias se assim tivesse permitido.
— Não se
preocupe em estar aqui depois de tudo pelo que passamos, não podemos nos
limitar ao passado, é inútil viver olhando pelo retrovisor, ignorando a bela
paisagem que diante os nossos olhos existe — acolheu as mãos agitadas em um
gesto de carinho —. Sempre há uma oportunidade para recomeçarmos.
— Sua mãe não é
tão correta quanto parece e nem tão certa quanto gostaria, possui segredos
difíceis de aceitar que deveriam ser encobertos para sempre. Eu não amo o seu
pai, repudio-o incontroladamente, há tempos não vivemos como marido e mulher,
há tempos nosso casamento não possa de um perfeito teatro — interrompeu a fala,
soltou as mãos que acolhiam as suas, encostou-se no sofá e olhou para a
luminária que garantia ao ambiente um aspecto elegante, não conseguiria revelar
o que escondia encarando olhos tão puros —. Meu coração pertence a outro homem,
Adrian, com quem mantive uma relação sem que ninguém soubesse, ninguém
descobrisse, até hoje.
Whesley
suspirou.
Era intenso
demais ouvir uma verdade tão transformadora, que explicava muitas coisas e
tornavam outras impossíveis de resolver. Sentiu desafeto na forma como a mãe
falara de seu pai, não seria capaz de unir pessoas tão opostas, como
conseguiria ligar sua família? Obrigando que existisse amor? Forçando fatos
alheios à sua decisão?
— Mãe, não há
problema nisso — não a condenaria, não perderia a chance de se unir a alguém
que amava fazendo julgamentos impiedosos, agora que sabia o que era o amor não
poderia discursar contra ele —. Por que não se separou se percebia que não dava
certo?
— A família do
seu pai, seus avós, eram pessoas presas a uma representação ultrapassada de
sociedade ideal, seguiam às cegas as tradições impostas ao longo das gerações e
ao fazerem acordo com meu pai exigiram que acontecesse um casamento entre mim e
Cícero, não pude retrucar, por mais bizarro que pareça fui obrigada a aceitar,
casei-me com quem não queria, fui incapaz de tirar do meu coração alguém com
quem planejei um futuro, foi tudo muito difícil e vi nesse segredo uma forma de
respirar aliviada.
— Entendo que
não foi fácil, mas por que está me contando isso? Se sua preocupação era que eu
pudesse rejeitá-la ao descobrir saiba que nunca o faria, estou disposto a
abraçar quem se permitir ao meu abraço mesmo que possuam defeitos, erros, nada
disso me importa.
— Eu sei... —
derrotada pela emoção, cheia de lágrima nos olhos, a mulher passou a mão pelo
rosto do filho, chorava orgulhosa, admirada pelo bom e compreensivo homem que
ele se tornara —. Na primeira vez que o visitei percebi que estava diferente,
sem a postura rebelde de antes, sem o discurso cheio de remorsos e acusações,
parecia disposto a esquecer o que se passou e eu, com minha arrogância, ignorei
essa nova oportunidade que a vida pode estar concedendo, quero que me perdoe.
— Não precisa
fazer assim, não a culpo por nada, não mais... — o constante choro de amargura,
de sentimento de rejeição e desprezo, deu lugar às lágrimas emotivas, de
felicidade, de realização, de alívio por saber que estava perto dos objetivos,
das conquistas. O jovem empresário acolheu a primeira-dama em um abraço forte,
repleto de carinho e amor, abraço sincero.
Mãe e filho
foram envoltos pelo perdão, pelo reconhecimento de que erros acontecem, de que
a vida possui mesmo suas ironias, mas que sempre haverá uma chance para
recomeçar, para fazer dar certo.
— Mas não posso
continuar escondendo os fatos e preciso ser transparente se vamos mesmo
escrever uma nova história — Sílvia rompeu a íntima aproximação, colheu as
lágrimas que transitavam sobre sua pele e vestiu o semblante sério dirigido a
Whesley —. Adrian e eu fomos flagrados, não nos preocupamos com os perigos e
nosso beijo foi assistido por Rodolfo que novamente exigiu uma parceria com
você. Não vou pedir nada, apenas precisava saber da verdade antes que ela fosse
revelada de forma pior.
O rapaz refletiu
em silêncio.
Analisou todos
os acontecimentos.
Não se deixaria
abalar por forças maliciosas e nem permitiria que a mãe precisasse se esconder.
Agiria.
— Ele deu prazo?
— Até amanhã.
— Fique
tranquila, as coisas tomarão o rumo que precisam tomar — soou ameaçador.
∞
–
Detetive Clark, que honra tê-la em meus aposentos, é uma pena que minha
recepção não possa ser mais calorosa — o Líder se sentou no assento reservado
de frente para a cativa.
—
Nojento desprezível! — amarrada às grades de metal, com o corpo ensopado de
suor, a detetive não se deixou intimidar pela presença do opressor, optou por
enfrentá-lo, provar que não poderia ser venerado por quem quisesse, sempre
existiria alguém disposto a apresentar sua insignificância, aproveitaria seus
últimos instantes de vida para provocar quem todos temiam —. Acha mesmo que
terá a submissão do mundo? Acha mesmo que todas as pessoas se prostarão de
joelhos e o adorarão? Você não passa de um verme e quando elas perceberem o
esmagarão sem a menor importância!
O
sorriso doentio do sujeito misterioso foi exibido.
Amanda
sofreu mais uma descarga elétrica.
–
Até nove miliampères de energia você apenas sentirá dor, até vinte pode perder
o controle muscular, enfrentar problemas respiratórios... Dois ampères é o
suficiente para que eu destrua seu coração, agora imagine cinquenta vezes isso,
não restaria nem o seu pó! — discursava com clareza, calmo, completamente
intempestivo, seguro a cada palavra —. Sugiro que se redimida, volte atrás e
reconsidere a postura rebelde que adotou. Você tem direito à Chance Final.
—
Não quero que me transforme em mais um de seus bonecos, não quero servir aos
seus pérfidos interesses, prefiro a morte!
–
Tão ousada, tão provocativa, tão corajosa... — liberou mais um pouco de
descarga elétrica, dessa vez mais intensa, com duração maior, ouvir os gritos
da prisioneira o satisfazia sadicamente —. Tão tola!
—
Desgraçado! — enfraquecida, ofegante, sentindo o suor escorrer de sua testa e
percorrer o corpo, a detetive Clark manteve suas provocações, mas já não
conseguia encarar o opressor, não tinha forças para manter a cabeça erguida —.
Por que faz isso? — antes de morrer tentaria descobrir.
—
Para que as pessoas sejam libertas daquilo que as atrasa! — levantou-se e
caminhou em direção à vítima, segurava um bisturi, na outra mão guardava o
microchip —. Não posso matá-la, mas também não posso entregá-la para a
escravidão, é esperta demais — levantou o rosto de Amanda, pressionou-a contra
as grades, virou sua cabeça de forma a deixar o ouvido exposto —. Fiquei sem
opções, você me obrigou a isso.
Rasgou
a parte anterior da orelha da detetive ignorando os gemidos.
Inseriu
nela o microchip.
Costurou
como um perfeito cirurgião.
—
Agora torça para que seu organismo não rejeite. Não me deu tempo para os exames
de compatibilidade. A dor e o tormento poderão ser insuportáveis.
O
Líder possuía planos maiores nos quais contaria com a boa forma de sua nova
alienada, mas não suportaria aguardar até o próximo descarregamento, exigiu que
levassem Amanda o mais rápido possível para seu novo destino, sua nova vida, a
que ele determinara.
O
motorista do carro de luxo olhava fixo para a estrada, a madrugada dobrava sua
atenção.
Já
a detetive mantinha os olhos imóveis, estáticos, como se contemplasse visões
surreais, sonhasse acordada ou simplesmente vagueasse pelo vazio.
Mas
a mulher sofrera um grande azar, ou o que chamaria de maior sorte que
conquistara: seu organismo detectara a presença do corpo estranho, o
dispositivo não era compatível a ele, precisava ser eliminado.
Como?
Amanda
passara a ter lapsos na consciência, saía e voltava para o estado inconsciente,
seu corpo começou a reagir tremendo, suando, exibindo desconforto.
A
realidade começou a ficar clara.
Mas
brigava contra a escuridão de uma mente dominada pelo alheio.
O
motorista era alguém preparado para imprevistos que pudessem acontecer, bastava
injetar o sonífero na detetive e levá-la de volta para que o Sistema reparasse
seu erro, mas antes que pudesse agir Amanda se manteve forte e esforçou por
continuar lúcida, conteve as mãos do rival. Confrontado o homem, a detetive
Clark lhe desferiu um golpe no estômago, ágil, tomou para si a injeção, fez seu
algoz adormecer.
Negrume.
Lucidez.
A
cabeça doía.
O
corpo tremulante sofreu as primeiras contrações involuntárias de músculos:
entrava em estado convulsivo.
Amanda
vasculhou o veículo.
Lutando
contra si mesma tomou posse sobre a faca ali jogada.
Rasgou
a própria orelha mordendo os lábios, arrancando sangue dos mesmos, tamanha era
a força sobre os dentes.
Teve
as mãos consumidas pelo líquido vermelho.
Conseguiu
retirar o dispositivo minúsculo, tremendamente poderoso.
Libertou-se.
Samara abriu a
porta.
Exausta,
encharcada de suor, sendo devorada por delírios febris, Amanda caiu em seus
braços.
— Ai meu Deus!
Continua...
No próximo
capítulo:
— Se era ele? — o homem a
interrompeu —. Conhece nosso código, sabe exatamente em quem pode confiar, mas
eu explico sobre o que não tinha certeza, está cheia de dúvidas, está se
permitindo aos sentimentos lá de fora e não sabe se permanecerá conosco — abriu
os olhos e encarou o rosto preocupado de sua ouvinte —. É capaz de mentir
olhando para mim?
De segunda a
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