[WebLivro] Ambições - Capítulo 06 - Amantes Unidos
Capítulo 06 –
Amantes Unidos
Seu nome era
Acsa.
Sua história
estava cercada de dores e aflições.
De descendência
oriental, apesar do desconhecimento profundo, Acsa só sabia que fora levada ao
orfanato ainda pequena, lembranças não existiam, seu passado seria todo branco
se não fosse pela família que a adotara.
Uma família de
privilégios.
Uma família
desleal.
Uma família que
a entregou por garantia caso a dívida com o traficante perigoso não fosse
quitada.
Uma família que,
na hora do desespero, não pensou duas vezes antes de se arrepender do acordo,
da deslealdade com uma criança inocente que crescera, tornara-se uma bela jovem
e poderia ter seu futuro de sonhos desmantelado como coisa inútil.
Lutaram por ela.
Foi vão.
Na guerra contra
o sujeito que não deixava vestígios de seus crimes muito bem planejados existia
apenas um vencedor, sempre e eternamente: o mascarado.
Morreram.
Acsa foi levada.
Sua vida se
transformou. Descobriu que era sustentada por dinheiro sujo. Passou a viver uma
realidade repugnante e desprezível servindo a um homem nojento e perverso. Foi
obrigada, em nome da própria sobrevivência, a render seu corpo, a pertencer aos
devassos planos de uma mente impiedosa. Junto a tantos outros, era vendida como
escrava sexual se não optasse por um caminho jamais imaginado.
Mas conhecera
Felipe.
Felipe era o
motorista destemido.
Seu nobre
coração ardia pelas vítimas. Sangrava pelos oprimidos.
Jovem, foi
enganado. Acreditou que ganharia dinheiro fácil traficando drogas, desprezou os
conselhos da família, dos amigos mais íntimos, deixou-os para trás e seguiu
seus passos tortuosos. Mas as coisas saíam de seu controle. Vidas eram apagadas
por sua causa. O crime atormentava sua alma, consumia sua consciência.
Achou que seria
fácil.
Exigiu
liberdade.
Mas o mascarado
não recebia ordens, antes era quem as dava, até mesmo seu mais singelo e tímido
“por favor” soava como um sagrado
mandamento cuja desobediência custaria a vida do pecador. Ameaçou arruinar a
vida do arrependido. Ameaçou extirpar sua família perante os seus olhos. Todos
sabiam, as ameaças daquele homem não passavam de promessas, promessas que se
cumpriam quando ninguém mais delas se lembrasse.
Ao menos o Líder
foi flexível e transferiu o aprisionado Felipe para outra função.
Seria o
carregador de seres humanos.
Carregá-los-ia
para o inferno.
Não existiam
alternativas. O rapaz aceitou a condição mesmo que seu espírito se enojasse por
aquilo. Repetia para si que era preferível a vida de desconhecidos do que a
daqueles que amava. Permaneceria nesse propósito se não conhecesse Acsa e se
não desenvolvesse por ela uma paixão avassaladora.
Jovens.
Amantes.
Envoltos por uma
inconsequente paixão não deixaram passar a única oportunidade que teriam para
que se vissem livres das mãos de um alguém cruel. A oriental não tinha nada a
perder, o jovem conseguiu convencer sua família a partir do Brasil. Precisavam
arriscar.
O plano era
simples.
Acsa tomaria,
durante os quilômetros finais da longa viagem, uma substância que a deixaria
como morta, sua pulsação não seria sentida e a respiração indetectável. O
efeito duraria poucas horas. O suficiente para que chegassem ao destino e
seguissem com o combinado.
Parecia
funcionar.
Parecia...
Felipe, cansado
daquela história, sentindo-se cada vez mais arrependido por ter ignorado os
sábios conselhos dos pais, jogou sua vítima para fora do carro e levou a
atenção à amada que, lentamente, despertava, recobrava a consciência, retornava
ao mundo.
— Funcionou? —
ainda enfraquecida, abalada pela tontura, a garota questionou, queria libertar
o sorriso de satisfação.
— Sim, minha
querida, estamos livres! — ouvindo o doce e melodioso som de uma voz que para
sempre almejava escutar, o rapaz sentou-se ao lado da namorada, repousou sua
cabeça em seu ombro, acariciava os fios pretos embriagando-se na lisura dos
mesmos —. Finalmente vencemos o pesadelo, derrotamos o invencível. Espero que
nosso gesto seja conhecido por todos e que cada um tenha a coragem necessária
para enfrentar o terror.
— Devemos fazer
algo para ajudá-los, esqueceu-se do acordo que firmou?
— Sim, com
certeza faremos e não me esqueci de meu compromisso. Mas preciso tirá-la daqui,
quero estar longe o bastante para que jamais corra o risco de perdê-la, aí sim
poderemos ajudar quem necessita de nossa bravura! — era uma missão, contudo só
concluiria seus intentos quando ninguém mais que amasse corresse riscos.
— Obrigado... —
de olhos fechados, exausta pelo medicamento potente e pelos acontecimentos
humilhantes, Acsa agradeceu, aconchegou-se no namorado buscando nele a proteção
que necessitava, a segurança de que precisava naqueles dias terríveis —. Por
algum momento pensei que estaria abandonada outra vez, sozinha em um mundo tão
imenso, cheio de tanta gente e vazio de humanidade, mas aí você apareceu com
sua agradável companhia. Ter o seu amor me acalma...
Sentindo a
indefesa jovem em seus braços protetores, Felipe entendeu sua real missão,
estava muito além de apenas ajudar os afrontados, tinha que amar alguém que
teve o amor recusado, tinha que cuidar de alguém que um dia foi desprezado,
tinha que defender alguém que um dia se viu largado à própria sorte.
Suspirou
profundamente.
Sua missão era
difícil.
— Para sempre
ele será seu... — prometeu, deixou de lado as incertezas e firmou uma promessa,
não se permitiria ao fracasso e não deixaria a valiosa amante provar do amargo
gosto da derrota.
Lutaria.
∞
Há momentos na
nossa vida que precisamos de quem amamos para suportarmos os desafios, as
dores, os questionamentos impiedosos que tentam minguar nossa esperança. Mas e
quando não temos esse auxílio? E quando não temos quem nos ajude? A quem
recorrer na hora da angústia?
Whesley,
dirigindo pelas movimentadas avenidas de Lobato, sabia que contar com o apoio
dos pais era ingenuidade pura, amigos não tinha, colegas não possuía, teria que
enfrentar o severo olhar da irmã, alguém que decepcionou e não tinha com quem dividir
aquela aflição.
Encarava a
entrada do hospital naquela manhã ensolarada.
Faltavam forças
em seus pés.
Alguém esbarrou
em seu corpo afastando o transe.
— Perdoe-me... —
a mulher desconcertada recolhia os materiais que deixara cair, vestia branco,
era funcionária do lugar.
O jovem
empresário se recordou da figura.
Não tinha como
esquecê-la. Teve-a em seus pensamentos por muitos instantes.
— Samara? — não
economizou sorrisos.
A enfermeira
envergonhada, atenta ao seu ligeiro trabalho de recolher os objetos caídos,
reconheceu aquela voz, suspirou aliviada, era um dia de sorte.
– Whesley... –
encarou o rapaz, sentiu-se orgulhosa por se lembrar do nome, era tantas pessoas
que atendia todos os dias que se tornara impossível identificá-las —. Que bom
que é você... Digo... Poderia levar uma bronca...
— Acidentes
acontecem — abaixou-se para ajudar —. Dia mau?
— Apenas
apressado demais. Quando o despertador não colabora a tragédia está feita.
— Sei bem.
— Sente-se bem?
— prestou atenção no olhar preocupado —. Se consigo me recordar, estava como
uma estátua...
— Vim visitar
minha irmã, soube que está acordada. Mas pode não ser uma boa ideia. Talvez
seja recebido com desdém, com acusações, sei que é o que mereço, mas posso não
estar preparado.
— Se estiver
mesmo disposto a se reconciliar com alguém que ama, entrará por essas portas de
cabeça erguida, encarará os severos olhos de quem estima e pedirá perdão. Se
estiver mesmo disposto a vencer não fugirá da realidade, não será como um
covarde.
Covarde.
Whesley confessou
que fora covarde um dia.
Mas não o seria
outra vez.
Continua...
No próximo
capítulo:
— Família não deve ser comandada,
como pensa, não é uma empresa ou um território, família deve ser amada,
protegida com cuidado, zelada com afeto — o rapaz, surpreso pelas ignorantes
palavras, confessando que o pai em nada mudara, expôs seu pensamento –. Talvez
não quiséssemos fartura, o mais importante era termos nossos pais conosco,
vendo-nos crescer, ajudando-nos a desenvolver, coisas que o dinheiro, o
prestígio e o poder jamais comprarão ou dominarão!
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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