[WebLivro] Ambições - Capítulo 19 - Acordo
Capítulo 19 – Acordo
Aproveitadores
estão sempre atentos para que jamais deixem passar uma oportunidade de
manipulação, de chantagem, de ameaças e de dominação. Afinal, essas são as suas
armas, aproveitam-se da fraqueza e do medo de suas vítimas para que sobrevivam,
sustentem-se e tenham suas sórdidas ambições alcançadas.
Rodolfo era um
aproveitador.
E não deixaria
passar tamanha oportunidade.
— Não é possível
uma coisa dessas — zombava —. Não posso acreditar que você esteja se arriscando
tanto por uma mulher comprometida com tantas que existem no mundo, será que é
uma forma de compensar o que sofreu?
— Se eu fosse
você calava a boca! — Adrian avançou.
— E se eu fosse
você me colocaria em meu insignificante lugar se não quisesse ser descoberto! —
fez o rival retroceder —. Quem diria, Sílvia, colocando em xeque toda a fortuna
que possui ao lado de um governante tão poderoso por um homem que se quer lhe oferece
alguma garantia de que possa confiar em suas declarações... Não acha arriscado?
— Acho arriscado
querer intimidar pessoas que não sabem o significado da palavra limite, pode
custar caro, o preço de seu silêncio! — a primeira-dama não recuou, manteve-se
firme, enfrentou o adversário.
— Esqueceu-se de
que também faço parte dessa trupe que mata, esconde o cadáver e segue
normalmente como se nada tivessem feito estampando no rosto um sorriso safado?
— aproximou-se do casal —. Sou frio o bastante para extirpá-los com minhas
próprias mãos sem preocupação alguma, mas hoje descobri que vocês não possuem a
mesma frieza, beijando-se tão apaixonados, tão conectados um ao outro,
esquecendo-se até mesmo da possibilidade de serem flagrados, jamais teriam a
valentia necessária para calar um inimigo, acho que estamos em desvantagem e eu
estou liderando essa competição! — sorriu vitorioso.
De fato, não
eram perversos e nem ambiciosos ao ponto de ceifarem vidas, motivarem
sofrimentos e causarem dores que não gostariam de sofrer. Tinham suas
histórias. Possuíam seus erros. Mas não eram inconsequentes, reconheciam-se
como merecedores do resultado de seus equívocos.
— O que você
quer? — Adrian deu espaço para negociações, faria o possível para que nada
atrapalhasse seus desejos, para que fosse livre a fim de compensar os mais de
dez anos separado de quem amava.
— É bem simples,
está ao alcance de sua amante. Enquanto me dirigia até aqui planejei discursos
convincentes, estava até mesmo disposto a ameaças mais enérgicas, assustadoras
e proféticas. Deixaria uma amostra do que posso fazer. Porém, com essa grata
surpresa, dando voz ao meu coração e simpatizando pelo relacionamento que me
emociona, nosso acordo será bastante simples. Vocês têm até amanhã para que
Whesley me procure e então viverão felizes para sempre, ao contrário disso,
podem se preparar para as investidas da madrasta má! Temos um acordo?
A mulher não
sabia o que responder. Apesar do distanciamento que sempre existira entre ela e
os filhos, conhecia-os muito bem, o suficiente para confessar o gênio forte do
mais velho, sua irredutibilidade quanto às decisões que tomava.
— Pense bem,
minha cara, pense com o coração, contemplando os olhos de Adrian, reconhecendo
que o ama de uma maneira que não sabe explicar — usando seu poder de persuasão,
uma arma perigosa e astuta, Rodolfo procurou pelas palavras certas, sabia que a
maneira mais eficaz de convencer alguém era tocando em seus sentimentos —.
Conhece seu marido, sabe mais que todos nós que Cícero é um homem impiedoso,
sem misericórdia, que jamais aceitaria uma traição, que nunca aceitaria ser
desonrado dessa forma sem punir violenta e severamente os envolvidos. Talvez
sejam castigados, talvez ele a puna através de seus filhos ou então matará
vocês dois de forma apática, um de frente para o outro, um assistindo a morte
do outro!
Sílvia sentiu
temor.
Deu razão ao
discurso, a consequência da descoberta seria desastrosa.
— Eu aceito —
incerta quanto ao que faria, cheia de dúvidas e receios, a primeira-dama
respondeu —. Temos um acordo!
— Estão vendo?
As coisas são muito mais fáceis quando cedemos! Não me decepcionem mais... —
partiu com o gosto da vitória.
Aflita, Sílvia
se sentou no sofá que ornamentava seu escritório, inclinou o tronco para
frente, apoiou o rosto nas mãos como alguém preocupado, sem esperança, sem
expectativa alguma de solução.
Mas não estava
sozinha.
Não mais.
Adrian se sentou
ao seu lado, passou um dos braços por suas costas, tocando seu ombro trouxe-a
para mais perto, ofertou-lhe proteção, segurança, alívio.
— Já me fez essa
proposta antes e fracassei como fracassarei outra vez — aninhada ao pescoço
daquele capaz de levá-la a sonhos reconfortantes, a mulher de cabelos claros e
olhos castanhos permitiu-se ao desabafo —. Meu filho o odeia, conhece suas
investidas contra a nossa família, o tem por aproveitador e nunca mudará de
ideia...
— E lhe dou
razão, juntar-se a alguém tão repugnante quanto Rodolfo é um castigo difícil de
suportar.
— Sei disso, mas
consegue entender que é a única maneira? Não há outro caminho, não temos
escolha, ele foi claro e nós fomos amarrados por cordas astutas.
— Fale a
verdade.
— O que quer
dizer?
— Envergonha-se
por me amar?
— Claro que não.
— Então fale a
verdade, conte ao seu filho toda a história, revele qual é a arma que nosso
inimigo possui, conte sobre nós, precisa fazer isso.
— Não tenho boa
relação com meus filhos, o abismo que há entre nós é impossível de atravessar.
— Sempre há uma
chance — aconselhou —. Precisa deixar o passado para trás, precisa entender que
se quiser superar tudo aquilo que é motivo de dor e lágrimas deverá romper os
abismos que permitiu existir entre você e as pessoas que realmente importam —
acariciou o rosto que há tanto não tocava, colheu a discreta lágrima que por
ali passeava —. Deixe orgulhos bobos, desmantele mágoas inúteis e lute pela
própria libertação. Na luta contra o mal precisamos de todo o apoio possível.
∞
Rute, sempre tão
obediente às ordens lhe dirigidas já que não tinha a escolha de recusá-las, acompanhava
os jovens prisioneiros no tratamento que lhes garantia maior vigor, beleza e
saúde.
— Está aqui há
quanto tempo? — desolada, procurando convencer de que fora derrotada e que seu
destino estava nas mãos de terceiros, Acsa tentou investigar o futuro que a
aguardava, a nova vida que teria.
— Não me recordo
— respondeu sem demonstrar qualquer emoção, qualquer dor —. Apenas estou.
— Faz ideia de
quem a trouxe para cá? — Felipe, com infinitos motivos para sucumbir ao
fracasso, alimentava esperanças, acreditava que nada fosse tão perfeito, o
Líder deveria ter cometido algum erro, ele só precisava descobrir qual.
— Não me recordo
— ajeitava as camas no cômodo pouco confortável —. Apenas trouxeram.
Acharam estranho
as respostas serem tão fechadas e próximas, pareciam programadas.
— Não importa o
que façam, o quanto calculem e nem o quanto imaginem, estão presos, derrotados,
seu futuro já está determinado — Rute, sem pretensão alguma, declarou as
palavras desanimadoras, curiosas, que fomentaram no casal o desejo por
investigar, entender e descobrir.
— Quem é o seu
filho? — Acsa não poderia ter feito pergunta melhor.
A mulher
apática, sem qualquer expressão facial que pudesse denunciar seus sentimentos,
de repente libertou o choro angustiado, demonstração de uma perturbação
constante e opressora, os olhos estáticos exibiam consciência, libertação.
— Samuel...
Samuel é o meu filho! Tiraram-no de mim! — as palavras saíam por entre o choro,
carregadas de dor —. Vocês precisam fugir enquanto podem, enquanto não são
privados da própria identidade! — anunciou.
— Você sabe o
que aconteceu? — Felipe percebeu o que acontecia.
— Sem que eu
quisesse, sem que permitisse, eles me doparam, fizeram a operação e me
trancafiaram nesse mundo escuro, sem significados, sem lembrança alguma — de
repente, como se perdesse o controle, começou a bater na própria cabeça
repetidas vezes, espatifou os cabelos pretos —. Eu não sei quem sou, não sei de
onde vim, não sei de nada!
— Rute,
acalme-se, preciso que me responda se é sempre que consegue voltar. Sei que
agora está consciente, que consegue dominar a própria mente, preciso saber como
consegue fazer isso.
— Eu não sei —
encarou os olhos de Felipe como se fosse suplicar por algo, como se dependesse
de sua ajuda para sobreviver —. Preciso que me salve...
Foram suas
últimas palavras.
A consciência se
apagou.
∞
Já noite,
ensaiando diversas vezes telefonar para Samara a fim de um passeio noturno
pelas ruas movimentadas de Lobato, Whesley se surpreendeu ao chamado do
interfone, receberia uma visita que não aguardava.
Tão logo abriu a
porta foi obrigado a ceder seu abraço.
Sílvia chorava.
Estava em
prantos.
Continua...
No próximo
capítulo:
Era intenso demais ouvir uma
verdade tão transformadora, que explicava muitas coisas e tornavam outras
impossíveis de resolver. Sentiu desafeto na forma como a mãe falara de seu pai,
não seria capaz de unir pessoas tão opostas, como conseguiria ligar sua
família? Obrigando que existisse amor? Forçando fatos alheios à sua decisão?
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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