[WebLivro] Ambições - Capítulo 15 - O Sistema
Capítulo 15 – O Sistema
Há momentos na
nossa vida que interrompemos nossos passos e nos indagamos sobre como foi que
chegamos ali. Quais caminhos percorremos? Quais escolhas nos dirigiram para
aquele fim? Se estivermos incomodados com a realidade, como fazer para voltar
no início?
Contudo, ainda
que profundamente arrependidos, não podemos retornar no tempo, o aprendizado
que adquirimos não nos permite voltar à origem e viver outra vez todos os
nossos momentos com a vantagem de saber quais escolhas seriam as sensatas. É um
sonho impossível. A verdade precisa ser encarada.
Acsa se
lamentava. Deveria ter sido mais audaciosa, deveria ter se desvestido da
fragilidade e encarado de peito aberto aqueles que se mostravam impiedosos.
Poderia ter alcançado liberdade corajosamente, mas agora estava na presença da
mente perturbada por trás de tudo aquilo, ao menos, e só por isso não era
insuportável, tinha como companheiro o fiel namorado.
Felipe desejava
voltar no tempo. Como pôde ter feito aquilo com a própria vida? Como pôde
acreditar que teria dias tranquilos se unindo a gente perversa? Sentia-se
derrotado, humilhado, se tivesse a chance faria tudo diferente, deveria ter
pensado nisso antes de se iludir com o mundo atraentemente traiçoeiro. Apertou
a mão daquela que amava, sua dor só não era maior por saber que conhecera
alguém mais que especial.
Por trás da
máscara preta cujos olhos refletiam um amarelo ardente e apenas o sorriso
malicioso era exposto, existia um indivíduo de planos astutos, surreais,
inimagináveis àqueles de puras intenções, um plano que sabotaria o mundo,
mudaria a concepção de humanidade, devastaria o planeta.
— Nunca tivemos
a oportunidade de conversar com calma, como amigos de longa data, mas sempre há
uma chance, não se esqueçam disso, sempre há uma chance! — graças a um
dispositivo imperceptível instalado na garganta, a voz do Líder soava
irreconhecível, deturpada, ele não era apenas um criminoso, bandido procurado,
era inteligente, detinha o conhecimento, sua maior arma.
— Nunca
sentiríamos falta de compartilhar o mesmo ar com alguém tão repugnante! — o
rapaz, vestindo-se de coragem, convencendo-se de que seus dias chegaram ao fim,
enfrentou o sujeito venerado, acreditava não ter nada a perder, apenas
acreditava.
— Senhor
Andrade, não queira bancar o hipócrita, você sabia muito bem onde estava se
metendo, foi conquistado pela minha proposta, é tão repugnante quanto eu —
falava tranquilo, cheio de serenidade, mantendo o sorriso maroto.
Felipe analisou
tais palavras, concordou que faziam sentido, encarou a namorada sem saber o que
dizer, como se defender, talvez não passasse de um ser humano cruel, apático a
qualquer sofrimento.
— Mas as pessoas
boas se arrependem de suas más escolhas — Acsa, ainda que debilitada, declarou
seu pensamento, pôde deduzir quais vozes soavam na mente daquele que
conquistara seu coração, conhecia-o o suficiente para afirmar que Felipe era
alguém maravilhoso —. Não queira jogar o jogo de moralismos, não pode culpar as
pessoas por serem coagidas a trabalharem para seu esquema sujo e nojento!
— Senhora
Duarte, não seja tola, meus planos não são sujos e nojentos, é uma pena a
Anunciação não ter alcançado sua consciência fragilizada — sentou-se, sugeriu
que todos fizessem o mesmo —. Como eu disse anteriormente, sempre há uma chance
e terei a honra de lhes explicar sobre o Sistema.
O
Sistema não era como uma simples facção criminosa preocupada em desvio de
dinheiro ou obtenção de lucro através de negócios obscuros como tráfico humano,
seu propósito era muito maior, seu objetivo baseava-se na promessa de dominar o
mundo, padronizá-lo, alienar as pessoas para que agissem de acordo os
interesses de seu maior idealizador: o Líder.
Para
isso precisavam de recrutas, preferencialmente jovens, que com suas mentes
apagadas serviriam fielmente ao Sistema e partiriam pelo mundo anunciando que
dias de novidade se aproximavam, o dia da Anunciação estava mais próximo do que
nunca. A cada período de tempo, vítimas sequestradas eram reunidas, sofriam
torturas para que aprendessem a respeitar os bandidos, para que nem pensassem
em rebeliões ou resistência.
A
promessa era clara e repulsiva: seriam levados para trabalhos forçados, para
campos de produção massiva ou para a escravidão de seus corpos. Cada indivíduo,
avaliado pelos olhos maliciosos, recebiam um destino injusto, cruel e desumano.
Porém, antes que a dor se intensificasse, era apresentada a Chance Final,
exerceriam pela última vez o que chamavam de Livre Arbítrio, de qualquer forma
seriam dominados, a diferença estava no teor dessa dominação: dolorosa ou
neutra.
Os
cativos eram enfileirados, o propósito do Sistema lhes era apresentado e,
então, deveriam escolher entre a alienação e a escravidão. Era um direito. Cada
um decidiria seu próprio caminho, traçaria o próprio destino e, para os
maldosos, não poderiam se lamentar dizendo que não tiveram oportunidades.
Quem
se recusava à alienação seguia para uma vida de dor, quem se permitia a ela
seguia para a perda da própria consciência, da própria essência, da própria
individualidade. Apenas obedeceriam sem refletir, esse direito não existiria
mais.
Havia
uma espécie de UTI imensa, capaz de acomodar quinhentos leitos para cada
paciente com seus respectivos médicos já alienados pelo Sistema. O procedimento
era simples, corriqueiro, algo fácil para acontecer, quase impossível de
reverter. Os candidatos à Alienação tinham a parte traseira de suas orelhas
cortadas o suficiente para que na superfície do encéfalo fosse aclopado um
microchip. Ao acordarem da anestesia não eram mais os mesmos.
Os
alienados eram divididos em grupos, cada grupo se dividia pelo globo levando
consigo a Anunciação: “O mundo não será mais o mesmo”. Através do microchip
eram comandados por sinais de satélites lançados surdinamente ao espaço,
recebiam ordens e as executavam como robôs, sem qualquer relutância, sem
qualquer questionamento, apenas serviam ao Sistema.
— O número
necessário está quase completo, acredito que em poucos meses teremos cem por
cento do exército formado e, então, quando esse dia chegar, eu darei a ordem
mais esperada, mais aguardada e profetizada: mudem o mundo. Nesse momento a guerra terá início, os alienados
oprimirão aqueles que os rodeam, os forçarão a serem como eu quero, a agirem
como é o meu desejo. Toda resistência e a menor da rebeldia serão cobradas com
a vida! — terminou sua instrução, revelou o plano que executava sem qualquer
dificuldade.
O jovem casal
não tinha reação, não conseguia assimilar um projeto tão impossível, tão
impensável.
— Devem estar se
perguntando como pensei em tudo isso e como nunca sou descoberto, compreendo a
ignorância que os persegue, mas tão logo a Anunciação os alcance passarão a
pensar como eu penso. A tecnologia é a maior arma, a mais destrutiva que o
homem poderia construir, é a que vai destruí-lo! Graças a ela e graças às
minhas inúmeras formações científicas dentre doutorados, construí os satélites,
construí o microchip e construí muito mais, além de tudo me mantenho invisível,
praticamente imperceptível, completamente seguro. Graças às minhas promessas de
vingança ninguém ousa contar essa história, seriam chamados de loucos e logo
depois eu os mataria! — abriu o sorriso, gostava do impacto que causava —.
Agora que conhecem minha ambição pensarão infinitas vezes antes de me
desafiarem, é o que sugiro!
— Você é louco!
— Felipe reagiu a tudo o que ouvira —. Como pode pensar dessa forma? Está se
fazendo de uma entidade invencível, divina, não percebe o tamanho de sua
ignorância?
— Eu ignorante?
— Você não é
divino!
— Mas e seu
quiser me tornar? Quem me impedirá? — levantou-se e caminhou até seu
prisioneiro contido por dois homens embrutecidos —. Sabe o que é isso? — tirou
do bolso do casaco preto aquilo que usava para controlar mentes junto ao
canivete afiado, reluzente —. Posso apagar sua existência agora mesmo! Pense no
que pode perder, pense na namorada que cairá no esquecimento, será como
inexistente!
Continua...
No próximo
capítulo:
— E quem disse que não me faz
feliz? O simples fato de existir já é minha felicidade — Sílvia, deitada sobre
o peito de Adrian, acolheu sua mão, fechou os olhos sentindo-a, como se ao
abri-los estivesse em outra realidade —. E quem disse que não está ao meu lado?
É melhor que isso. Todos os dias mora em meus pensamentos, dentro de mim!
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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