[WebLivro] Ambições - Capítulo 45 - O Retorno
Capítulo 45 – O Retorno
Quando mais novo, enganado por histórias inventadas a fim de
poupar sua maior dor, Samuel desejava que as coisas fossem diferentes, que
tivesse a oportunidade de mais uma vez estar com a mãe, dizer que lhe amava,
ter a chance de ao menos se despedir. Mas, sabendo a verdade, tendo o
conhecimento de que a separação fora causada não pela morte, mas por um egoísmo
segundo seu julgamento, o rapaz não compreendia os próprios sentimentos, apenas
cultivava uma certeza: o desejo de estar perto se transformara em repulsa.
— Depois de tantos anos... Depois de tantos anos em silêncio,
sem mandar se quer uma notícia, sem dar sinal de vida, agora se acha digna de
nossa atenção? — revoltou-se —. Estava viva durante esse tempo, viva! Poderia
ter nos procurado se realmente se importasse!
— Samuel, não sabemos quais são os seus motivos, o que
aconteceu, tenho certeza de que se pudesse teria entrado em contato, tenho
certeza de que nunca nos esqueceu — Diva defendeu a irmã —. Sempre desejou
reencontrá-la, agora tem a chance!
— Já não sei como reagiria, nem se acreditaria nas desculpas,
nem mesmo se ainda quero vê-la.
Diva sentiu que o sobrinho cultivava medo por sofrer novas
dores, medo de passar pela mesma experiência, medo de outra vez ser deixado
para trás.
∞
Era já noite.
Na delegacia o silêncio imperava, ninguém entrava e nem saía,
nenhum movimentado era dado, a calmaria da noite parecia fora de risco.
A energia acabou.
O gerador não funcionou.
As câmeras se desligaram.
— Temos dois minutos até que tudo se normalize — as grades da
cela onde Cícero estava se abriram, alguém vestido de policial se apresentou, o
boné escondia os olhos, mas o sorriso suspeito estava à mostra.
— Quem é você? — o político logo se colocou em pé.
— Saber que me paga já é o bastante. Vá pelos fundos, darei
cobertura.
O falso policial seguiu na dianteira, colocava o revólver à sua
frente, não hesitaria em atirar assim como não hesitou ao disparar contra o
colega que o flagrou, a arma tinha silenciador, ninguém perceberia até que as
luzes se acendessem.
O político escapou.
Subiu na moto.
Foi levado para longe da delegacia.
Adentraram a mata de Lobato, foi onde interromperam a caminhada
e o cúmplice do ex-governador lhe ordenou que descesse.
— Não é aqui que vou ficar, preciso de um lugar seguro!
— É exatamente aqui que me ordenaram.
— Como isso é possível? Não confessou que é pago por mim? Sou eu
quem determina as ordens!
— Continua insuportavelmente prepotente e ainda se engana
achando que ninguém é páreo para sua insignificante força — o piloto tocou o
chão, tirou o boné, enfrentou o olhar surpreso de Cícero —. Seu erro é achar
que tem o controle sobre todas as coisas!
— Não pode ser! — colocou a mão na boca ao notar a cicatriz na
testa, ao encarar o semblante que jamais pensou tornar a ver —. Eu me lembro
muito bem daquela noite, cravei a bela no seu cérebro, está morto! — esbravejou
negando a visão.
— Não precisa se desesperar achando que enlouqueceu e que agora
imagina coisas, isso que está vivendo é a realidade, eu não morri! — vitorioso,
sorrindo espontaneamente, Fernando declarou suas palavras, confirmou que não
era miragem ou fantasia, ele estava de volta, sempre esteve por perto.
Alguns anos antes...
Tão logo aqueles que assistiram ao resultado
da insanidade que o controlava foram embora, Cícero pegou o corpo do então
governador, colocou contra as costas e o levou até o porta-malas. Na calada da
noite, quando as maiores perversões são cometidas, acelerou pelas ruas de
Lobato, avançou para um lugar afastado e esquecido, abandonado, onde
funcionavam negócios perigosos de homens criminosos.
— Tenho um serviço a você — o empresário se
colocou perante o sujeito alto, de corpo bruto, semblante rígido e inflexível,
olhar severo.
— Há tempos esperamos por sua visita. Há
dívidas pendentes — a voz grave soou exigente.
— O dinheiro que lhe darei será o bastante
para quitar todas elas e assegurar crédito por muitos anos — abriu o
porta-malas —. Queime!
— Como é? — o homem se espantou, reconheceu
a personalidade, não pôde evitar o susto —. Enlouqueceu? Como é capaz de me
trazer o governador? Faz ideia dos problemas que pode me causar?!
— Vai mesmo pensar nos problemas sem se
questionar sobre qual será a recompensa? — argumentou astutamente —. É muito
simples o que precisa fazer, basta se livrar do corpo e manter lealdade a mim.
Tenho protegido o seu negócio, não se esqueça, sugiro que defenda o meu também
— não era uma recomendação, era uma ameaça.
O criminoso olhou ao redor.
— Leve-o para o crematório, de lá fica por
minha conta, mas espero que cumpra com sua palavra.
— Quanto a isso não se preocupe — tirou do
carro uma maleta, abriu-a, revelou as inúmeras cédulas —, é tudo seu!
O sujeito sorriu.
Gesto que transmitiu confiança.
O forno estava aquecido.
O fogo era cruel e avassalador.
O homem comprado, dono do tráfico que mais
gerava problemas ao Estado, aguardava a temperatura exata ser atingida,
precisava ter certeza de que qualquer rastro fosse apagado. Observando o
suposto cadáver notou algo estranho, seu peito parecia subir e descer como
quando alguém respira, procurou a pulsação, encontrou-a.
— Não pode ser! — desesperou-se —. Vamos,
aqueça! — encarou o termômetro como se desejasse aumentá-lo imediatamente.
Decidiu que não esperaria nem mais um
segundo.
Lançaria o governador para ser consumido
pelas chamas.
Mas alguém surgiu às suas costas,
pressionou o seu ombro, motivou a aguda e insuportável dor.
— O que pensa que está fazendo? — a voz
desconfigurada soou irritada —. Ia mesmo acatar as ordens de um traidor?! —
aumentava a força, sua presença parecia contribuir para que o forno aquecesse
mais rapidamente, a temperatura recomendada fora ultrapassada, chegava ao
limite —. Ia mesmo se esquecer de quem realmente o protege?
— O que queria que eu fizesse?
— Fosse leal ao seu Líder! — gritou —. Esse
é um dos nossos, é um guerreiro! Sabe o que penso sobre quem se levanta contra os
seus iguais?
Não obteve resposta.
— Penso que merecem a morte! — lançou o
criminoso na própria fornalha, pouco se importou com os gritos desesperados —.
Bando de imbecis avarentos! — jogou Fernando sobre os ombros —. Não deveriam
subestimar o Sistema como ingenuamente fazem!
— Fui salvo, meu caro amigo, a bala não conseguiu me destruir
por poucos milésimos de centímetros, mas garanto que essa mesma sorte nunca o
alcançará! — hábil, golpeou o inimigo, áspero e impiedoso chocou uma pedra
contra sua cabeça, o fez desmaiar.
∞
Era também uma noite propícia aos homens de boa índole que
apenas se preocupam em viver e fazer o bem, homens que não enxergam vantagem em
guerras sangrentas, homens que promovem a paz.
Sorridentemente envergonhada, Samara desceu os degraus da porta
de casa. Sorridentemente encantado, Whesley estendeu a mãe e encaminhou a
namorada até o carro. Fechou a porta. Seguiram para o jantar especial.
— Sinto muito por ela, mas é compreensível, passou por muitos
problemas, podemos considerá-la como alguém dotada de muita força, porém até os
mais fortes são duramente desafiados pela vida — com o cardápio em mãos, mas
sem conseguir tirar os olhos do namorado, a enfermeira demonstrou seu apoio.
— Quero ajudá-la a superar seus problemas e recomeçar a vida,
viver histórias incríveis, para isso preciso da ajuda de um amigo distante,
alguém que acredito ser importante a ela, alguém que sem nem imaginar
contribuiu para que a tragédia não acontecesse — contou o que pensava —. Aceita
fazer essa viagem comigo, nobre dama?
— Mas é claro, honrado senhor, qualquer coisa para o vosso
contentamento — divertiram-se.
Alguém se aproximou.
Descaradamente beijou a face do empresário com intimidade o
bastante para que transmitisse a ideia de uma amizade antiga ou um
relacionamento mais próximo.
— Que mundo pequeno. O que fazem no meu restaurante predileto? —
Elisa se sentou, mentiu, nem conhecia o lugar, foi o melhor pretexto que
encontrou para esconder sua perseguição e a repentina aparição.
Continua...
No próximo
capítulo?
Conheço
muitos homens valentes, cheios de coragem, que exalam força e garantem medo
apenas com a simples presença, mas você me surpreendeu — sentado como em um trono,
de frente para o prisioneiro, o Líder falou —. Além de assustar os meus homens
conseguiu me preocupar, conseguiu me causar espanto, o problema é que me
emocionou negativamente e eu não suporto quando isso acontece, não quero sentir
dores, quero ser o motivo delas!
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