[WebLivro] Ambições - Capítulo 50 - Precisar de Ajuda


Capítulo 50 – Precisar de Ajuda

A maioria de nós, em tantos momentos da vida, reconhece que nada seria sem o apoio, sem a ajuda do outro. Alguns, mais soberbos, enganam-se ao acreditar que são autossuficientes, ninguém é completamente independente, todos dependemos de outra pessoa até mesmo para nos movermos de um lugar ao outro.
Whesley, revelando o motivo por ali estar, confessando o desespero que sentia ao ver a irmã tão desanimada e nada poder fazer, percebeu que por mais que tentamos, por mais que persigamos o impossível a fim de caminhar pela estrada da vida com as próprias pernas, em algum momento veremos que não temos ao nosso alcance, que nem sempre teremos o controle das coisas em nossas mãos, chegará a hora da união, de juntar forças para que, então, as conquistas sejam apalpadas.
— Como ela está? — Samuel questionou, no tom de voz colocou preocupação, há dias não recebia notícias.
— Por enquanto, viva — o empresário foi franco, não existia outra definição para o estado da irmã, seu ânimo diminuía, nem mesmo os desenhos eram feitos, a terapia parecia não ter efeito —. Sente-se sozinha, ao longo desses últimos anos a solidão foi sua maior companhia, minha família não é das melhores e cometemos diversos erros — foi humilde, reconheceu que a culpa não era de Sofia, ela sempre precisou de ajuda —. Revelações foram feitas, reviravoltas nos surpreenderam e tudo isso contribuiu para que a dor aumentasse e agora parece insuportável.
Samuel ouviu com atenção, conhecia a história, admirou-se por estar diante a pessoa que a amiga mais amava, espantou-se por ter sido procurado, mas precisava entender por que confiavam que ele era a ajuda de que necessitavam.
— Nós nos conhecemos pela internet, com o tempo viramos grandes amigos, sei que ela está passando por momentos complicados, mas como poderia ajudar? — perguntou —. Não tenho tanto a oferecer, não sei nem por onde começar, acredito que mais do que de mim ela precisa da família.
— Estamos batalhando, acredite, mas ela precisa ter ao seu lado nessa fase tão conturbada todas as pessoas que ama e que a amam, ela sente muito carinho por você, tenho certeza de que o considera da família e se ainda está viva depois de tudo que passou foi por sua causa — o empresário esclareceu —. Não quero que se ache pequeno e nem simples demais, para a minha irmã você vale ouro e se é tão importante para ela, é igualmente importante para mim.
— Como poderia ajudar?
— Vindo conosco.
Um dilema surgiu.
Mais que carinho, Samuel sentia amor por aquela que conhecera de uma forma não tão comum, por aquela que demonstrava ser sincera de alma, aquela que o conquistou através das muitas mensagens, aquela que se mostrava sedenta pelo alívio que apenas os bons sentimentos poderiam ofertar.
Mas havia um impasse.
Era em Lobato que sua mãe estava.
O rapaz não se sentia preparado para encontrá-la, não se sentia disposto para ouvir suas desculpas, a história que contaria, seu coração enrijeceu para a mulher que o trouxera ao mundo, não conseguia se livrar dos maus sentimentos que brotavam em seu peito, não era de um alguém revoltado que Sofia precisava.
— Gostaria muito de aceitar, mas não é possível — respondeu com aperto na garganta, que amigo era ele? —. Não tenho condições para viajar, nem me instalar em outro lugar, além disso, tem a minha tia, não posso deixá-la, precisa de mim...
Whesley não respondeu, na verdade se alimentara de boas expectativas, não soube como reagir ao que não esteve em seus planos.
— E quem disse que precisa se preocupar com isso? Nós também o ajudaremos, seremos as condições de que precisa e sua tia pode vir conosco, sem problema algum, apenas queremos que venha para Lobato — Samara insistiu.
— Não posso usar Sofia como uma oportunidade de vida e não vou! — entrou em casa.
Diva reconheceu o semblante abatido do jovem empresário, a preocupação ardente estampada em seus olhos, condoeu-se por aquilo, foi capaz de sentir a mesma dor.
— Ela significa muito?
— Antes da minha namorada, era tudo o que tinha, o que mais me importava — lutou contra o choro, seus olhos se carregaram —. Mas errei, abandonei-a. E agora tento inutilmente corrigir as minhas falhas egoístas! — teve a mão tocada por Samara, um gesto de compreensão e auxílio.
— Fiquem aqui. Ele vai mudar de ideia — prometeu.
No quarto, sentado sobre a cama de cabeça baixa e mantendo os olhos fechados, Samuel já se culpava pelo fim trágico que pudesse sobrevir à Sofia. Mas o que ele poderia fazer? Além de ser orgulhoso o bastante para aceitar ajuda, era frágil no mesmo tanto para reencontrar a mãe, corria esse risco, queria se vir o mais livre possível de tal incômodo.
Sentiu a presença de Diva.
A tia se colocou ao seu lado.
— O que sentia enquanto acreditava que sua mãe tivesse morrido?
— Vazio.
— É isso que aquele moço sentirá e, o pior, se culpará pelo resto da vida mesmo tendo a consciência de que lançou mão sobre cada recurso que teve, acha isso justo?
— Nós não podemos ir, sabe disso!
— Será que sua amiga não merece o esforço? — argumentou certeiramente —. Sei que é mais pelas condições, sei que o orgulho é friamente derrotado quando agimos com o coração, mas o medo trava nossas pernas, o medo pode ser um terrível inimigo! — declarou abraçando o jovem —. Sente medo de se encontrar com sua mãe e não saber como agir, tem medo de feri-la ou de terminar ainda mais ferido, é um medo inútil — limpou as lágrimas que corriam pelo rosto juvenil —. Talvez a reconheça, mas ela não sabe quem é você, estará em suas mãos, caso se encontrem dentre a multidão, a decisão de descobrir a verdade.
Samuel deu ouvidos ao conselho, deu razão às palavras que trabalharam em seu intento, reconheceu que seria um péssimo amante se não lutasse por aquela que amava.
— Só vou se me acompanhar — deu a condição —. Sei que não será fácil, sei que se acostumar longe das raízes pode ser um desafio tremendo, mas quero que esteja bem, quero vê-la bem e só será possível se estiver ao meu lado.
Emocionada pelo enorme carinho que recebia do sobrinho, alguém que não saíra de suas entranhas, mas que cuidara como se tivesse concebido pelo coração, Diva abriu um sorriso, não permitiria que a responsabilidade sobre importante missão fosse transferida às suas mãos.
— Tudo bem, nós vamos!
O casal que ansiosamente esperava pela última resposta comemorou ao ouvi-la, sentiu as trevas de desespero dar lugar ao brilho da esperança.
Partiram naquele mesmo dia.
Tinham uma vida a salvar.


Refugiou-se trancada no quarto.
Acreditava que escondida do mundo seria poupada das dores que experimentava.
Mas de pouco adiantou.
Os pensamentos a perseguiam, a tristeza não ia embora e as dores não eram físicas, manifestavam-se direto na alma.
Sofia com ninguém conversava há dias, pouco se alimentava, não passava nem perto dos quadros em branco que, espalhados pelo quarto, aguardavam pelo seu dom. permanecia deitada, procurando alívio do mundo nas horas de sono, já não tinha vontade de viver.
O desânimo chegava ao ápice.
Mesmo com a insistência da mãe por uma conversa, mesmo com as tentativas do irmão para momentos de distração, a jovem mulher não se livrava das angústias, das recordações de um passado cruel, dos deturpados discursos proferidos pelo Líder a fim de convencê-la que as pessoas não amam, não se livrava das últimas palavras que ouvira de Cícero.
O desânimo chegou ao ápice.
Sofia já não se importava com nada mais, desistira de desenhar a própria história.
Subiu ao último andar do condomínio onde passara a morar desde que a mãe se separara do ex-governador.
Olhou para baixo, viu os carros agitados que saiam de uma direção à outra, não se importou com a assustadora altura.

Como frequentemente fazia a fim de tentar um comportamento diferente, Sílvia adentrou o quarto da filha, assustou-se por não encontrá-la, procurou-a em toda parte, descobriu as portas do fundo abertas.
Subiu a escadaria.
Pisou sobre a cobertura.
Viu a filha sentada sobre a beirada da estreita mureta que se ultrapassada serviria de testemunha diante a tragédia.


Continua...

No próximo capítulo:

— Belas palavras, discurso maravilhoso, mas os sentimentos como amor, empatia, carinho, não passam de ilusão! — Sofia se levantou, ficou em pé sobre a mureta baixa, virou-se à mãe dirigindo-lhe um sorriso irônico, medonho —. Eu tentei avisar a sua filha, tentei convencê-la de que se render às palavras dóceis de nada vale, de pouco importa, mas não me ouviu e agora se encontra a um passo da felicidade — levantou uma das pernas, equilibrou o corpo sobre a outra —. Deixo o vento me levar? — abriu os braços.

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