[WebLivro] Ambições - Capítulo 59 - Noite Agitada 1
Capítulo 59 – Noite Agitada I
Algum tempo antes...
As ruas estavam iluminadas.
Agitadas.
Era uma agradável noite de primavera,
quando a temperatura estava propícia para que melhores amigos se divertissem
fora de casa, famílias se reunissem no momento de lazer e casais apaixonados,
como Samara e Whesley, deixassem um pouco de lado as preocupações do dia a dia
e se preocupassem apenas com o amor.
Caminhavam pelo parque de diversões.
Mãos dadas.
Haviam se divertido o bastante como duas
enérgicas crianças.
— Esqueci como era bom viver a vida, fico
tanto tempo no escritório que perco essas maravilhas! — o jovem empresário,
dedicado aos negócios, confessou que trabalho demais também prejudica.
— Nem me fale... Até conhecê-lo era do
hospital para o laboratório e vice-versa, por diversas vezes me via pensando no
Líder, mas agora... — fez uma longa pausa enquanto os passos lentos
continuavam.
— Mas agora...? — o rapaz queria ouvir.
Pararam de andar.
Os olhos esverdeados se ergueram a fim de
contemplar os castanhos, os dedos sutis tocaram o rosto masculino, passearam
sobre a pele bronzeada.
— Agora eu não paro de pensar em você.
Whesley adorava receber as declarações da
namorada, não por ser egocêntrico ou querer todas as atenções do mundo para si,
mas por sentir a necessidade de saber que era amado, que possuía nas mãos o
mais transformador e enriquecedor dos tesouros.
Beijou-a.
Sob a noite iluminada beijou gentilmente
aquela que amava, selou os lábios em um gesto tranquilo e sereno, gesto que
acalentava o peito de Samara, que a fazia desejar por mais daquele que nunca se
apartava dos seus intentos.
— Tem certeza de que é feliz estando ao meu
lado? — questionou —. Coloquei-o em tão difícil situação, quase perdeu a vida e
pode ser que corra riscos piores, é isso mesmo que quer?
— Você me ama?
— De uma maneira inexpressável.
— É o que importa — sorriu simpático —. Se
eu morresse agora, nesse exato momento, estaria feliz, fui privilegiado pelo
amor da mais nobre alma que poderia conhecer...
— Mas eu não me perdoaria...
O jovem rapaz colocou um dos dedos sobre os
lábios da Capitã, fez as palavras cessarem, levou suas mãos até o próprio
peito, onde o coração pulsava sereno.
— É isso o que me garante... Não é perigo,
não é ameaça, não é medo, não é inquietação... Você me garante paz — acariciou
os lisos fios cuja textura não se cansava de sentir —. Perdoar-se de quê? Por
me fazer feliz? Por me ofertar calmaria? Por ter transformado a tempestade que
dentro de mim existia na mais perfeita ordem? — encarava os olhos que remetiam
à natureza, era capaz de se enxergar neles —. Precisa entender que há coisas
muito maiores que nós, maiores que a nossa força e o que acontecer não será de
nossa responsabilidade, não conseguiríamos evitar, o que nos resta é amar...
Sempre sensível, constantemente sentimental,
a enfermeira permitiu que a emoção transbordasse, que as lágrimas sutis
saltassem de seus olhos, lágrimas de contentamento por ter encontrado um amor
verdadeiro.
Retomaram a caminhada.
Dessa vez abraçados, sentindo um ao outro.
— Um dia estaremos aqui, nesse mesmo lugar,
correndo atrás dos nossos filhos, sendo contagiados pela doce gargalhada que
darão. Quando esse dia chegar veremos que nossos medos foram inúteis... — como
se tivesse certeza do que dizia, como se conseguisse enxergar o futuro, o rapaz
anunciou seu maior sonho: o de ter a companhia da amada namorada por todo o
sempre, com quem construiria a família que sempre almejou, com quem teria o
prazer de viver tão inspiradora história.
— Eles terão um grande pai, tenho certeza,
alguém que servirá de exemplo, de melhor amigo, de quem tirarão segurança para
os dias difíceis, não poderia entregar aos meus pequenos melhor pai... — a
apaixonada mulher deixou exposta toda a admiração que tinha pelo querido
companheiro.
— Melhor mãe não existiria... — interrompeu
os passos mais uma vez, tornou a encarar os olhos que denunciavam a beleza da
nobre alma —. Essa é minha maior ambição, Samara, ter uma família com a mulher
que domina meu coração, que conquistou cada bom sentimento... Eu gostaria de
falar isso em outro lugar, num momento diferente, da forma como merece, mas não
aguento mais esperar, não posso mais adiar meu maior sonho... — ignorou os
muitos ali presentes, ajoelhou-se diante da jovem mulher, acolheu as mãos
delicadas —. Aceita ser a minha esposa?
Choro de alegria.
Choro de amor.
Aquela também era a maior ambição da
Capitã, viver um amor genuíno, viver uma história que agregasse há tantas
pessoas.
É claro que aceitou.
Selaram o compromisso através dos anéis
trocados.
Foram aplaudidos pelos curiosos
sentimentais que se reuniram em torno do casal.
Mas que se dispersaram desesperadamente ao
som de terríveis tiroteios.
Pessoas gritavam apavoradas.
Jogavam-se contra o chão a fim de se
protegerem.
Whesley se colocou sobre Samara.
Homens encapuzados invadiram o lugar de
distrações que ficaria marcado pela noite violenta que enfrentara, corriam a
passos fortes, carregavam armamentos pesados, dirigiam-se até o casal encolhido
que só queria uma coisa: paz.
— Você — um dos criminosos apontou para o
empresário —. Comigo!
Samara relutou, agarrou-se ao namorado
exigindo que o deixassem em paz, mas teve que se calar ao som do disparo
aleatório que a assustou.
Whesley caminhou rendido àqueles que o
exigiram.
Foi algemado.
— O Líder não vai mais esperar, a
Anunciação tem que acontecer e você terá que decidir entre a vida da humanidade
e a vida do homem que diz amar — o meliante declarou —. Sugerimos que pense com
o coração!
Como um simples e inofensivo refém, o
empresário foi levado embora.
Espionando o casal, Elisa se sentiu traída
por aquele ao qual se aliou e culpou Samara pelo que acontecera.
Cobraria sem misericórdia.
∞
Pela pequena janela que existia na cela onde estava encarcerado,
Rodolfo pensou sobre suas ações, sobre as atitudes que tomou em nome da
ganância, querendo se dar bem, querendo deter poderes sedutores sobre homens
comuns.
Arrependia-se pela perigosa ambição que o cegou, que o
embriagou, que tirou dele a capacidade de raciocinar, de refletir quanto às
consequências de decisões erradas, que o fez passar por cima da própria
humanidade e causar sofrimentos que jamais suportaria.
Arrependia-se.
Porém, já era tarde demais. Já cometera delitos demais,
altamente repulsivos, destrutivos, a dor que gerou foi desumana e covarde, não
merecia mais do que aquilo por ter se entregado à maldade, merecia perder a
liberdade de viver entre pessoas que buscam ingenuamente por apenas uma coisa:
realizar seus sonhos.
Sentou-se sobre o chão frio.
Deu passagem ao choro.
O som de um míssil rasgando o ar soou aos seus ouvidos.
A delegacia foi ao chão.
Violentamente.
Ali acabava a história de Rodolfo.
O ponto final fora dado pelo Líder que, de sua fortaleza,
controlando a devastadora munição, sorria malignamente.
∞
Respirou fundo.
Ajeitou o revólver nas mãos.
Ao avistar Sílvia na calçada do condomínio, Cícero a abordou,
colocou a arma contra sua cabeça, avançou com a refém para dentro do edifício.
À relutância do porteiro em permitir a entrada ameaçou disparar.
Tinha a morte em suas mãos.
Continua...
No próximo
capítulo:
Mantendo
o revólver na direção da ex-esposa caminhou até a janela do apartamento,
amedrontou-se pelos policiais que cercavam o condomínio.
Avançou
contra a mulher, arrastou-a até a janela, pressionou o armamento contra sua
cintura, alçou a voz para que fosse notado:
—
Ninguém entra! — aconselhou —. Ou tudo que farão será recolher um corpo! —
ameaçou.
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