[WebLivro] Ambições - Capítulo 47 - Quando o tiro sai pela culatra
Capítulo 47 – Quando o Tiro sai
pela Culatra
O lugar estava cheio.
Samara não envergonharia o namorado armando um verdadeiro
barraco, mas não esconderia a inimizade que passou a sentir pela ambiciosa,
astuta e maldosa mulher.
Calada, levantou-se.
Foi embora.
Aturdido, tentando compreender a postura de Elisa, Whesley foi
atrás daquela que importava, a única capaz de abrir o seu coração e nele fazer
morada. Na calçada do restaurante a puxou pelo braço, encarou os azulados olhos
constrangidos.
— Perdoe-me por aquilo, não sei o que aconteceu, ela nunca teria
a liberdade e nem o direito de ser tão invasiva.
— A culpa não é sua, mas também não conseguiria manter a postura
diante alguém com tanta audácia, foi surreal — reclamou.
— Espere aqui, preciso pagar a conta e faço questão de levá-la
para casa.
Nunca foi de se agraciar com brincadeiras dirigidas a ele,
sempre foi discreto em seus relacionamentos e exigia respeito para com a
própria vida, a postura de Elisa despertou no empresário sentimentos ruins.
— Desculpe, não era a intenção ofendê-la... — acertando a conta
no caixa recebeu a aproximação da modelo.
— Precisa rever seus conceitos de ofensa — manteve-se sério,
indiferente —. De onde pensa ter tanta liberdade para comigo?
— Somos colegas, trabalhamos juntos, não achei que um jantar
entre amigos pudesse incomodar sua namorada, sugiro que tome cuidado, ciúmes
não costuma garantir boas consequências...
— Trabalhávamos juntos — virou os olhos severos para a mulher
cujo semblante se espantou —. Não a contratei por ser talentosa, tem muito que
aprender, foi por pena — quando machucavam alguém que amava, Whesley assumia o
lado que herdara do pai, tornava-se frio para punir —. Não precisa voltar à
empresa, o RH enviará suas coisas e acertará suas contas, nunca mais quero
vê-la — deu às costas, mas faltavam palavras, tornou a encarar Elisa que
relutava contra o choro raivoso, aproximou-se um pouco, lançou o olhar de
desprezo —. Do meu relacionamento cuido eu, não preciso de palpiteiros — seu
ataque fomentou uma guerra prestes a estourar.
Ignorada, Elisa se perdeu nos próprios pensamentos, acreditou
que o aspecto ingênuo e inofensivo de Samara anunciava o quão fácil seria
derrubá-la, irou-se por reconhecer que existia uma mulher forte e destemida,
sábia, que prendia não apenas os olhos de Whesley em si, mas o coração. O
desafio a vencer tornava-se mais difícil.
— Senhora! — o atendente ergueu a voz.
— Desculpe — tirou da bolsa algumas cédulas —. Fique com o troco
— saiu desapontada.
— Acredito que não tenha sido tão mal assim, nosso encontro foi
bom — estacionando em frente à residência da enfermeira, o jovem rapaz procurou
pelas boas coisas, tentou amenizar o desconforto gerado por alguém desagradável
—. Aliás, sempre que estivermos juntos será bom.
— É claro que foi, estar contigo concede à minha alma momentos
de descanso, é quando me esqueço de tudo que está acontecendo, das obrigações
que possuo e recupero as forças para me manter em pé — ofertou o melhor sorriso
—. Só precisa saber que não sou uma interesseira, para mim pouco importa o que
tem, mas quem você é — declarou as sutis palavras, a pura verdade que brotava
do seu coração.
— Não se preocupe com isso, jamais pensaria em tamanha bobagem,
ao contrário, se há algum interesseiro sou eu, completamente interessado no seu
amor — tocou o coração de Samara, encolerizou-a instantaneamente, adorava vê-la
tão tímida, sem reação, perdidamente envergonhada quando estavam juntos.
Contente, ainda mais apaixonada, a jovem mulher abriu a porta,
teria que partir, teria que seguir seu destino, viver um presente no qual ainda
não tinha a agradável companhia como algo permanente.
— Ei! — o empresário a conteve, trouxe sua atenção a si,
acariciou suavemente o rosto delicado —, faltou uma coisa.
Beijou-a.
Beijaram-se cheios de afeto, repletos de desejos.
Entregaram-se a um beijo que lhes renderia uma noite de sonhos
maravilhosos.
∞
Deitada de costas, recebendo as firmes massagens de Rodolfo,
procurando relaxar e acalmar seu estado de espírito, Elisa remoia os últimos
acontecimentos, o fracasso que sofrera naquela noite que tinha tudo para que
seus planos começassem a causar dissensão.
— Já consegue explicar o porquê de ter chegado com tanto
nervosismo? — o dono da Eras Modas questionou mais uma vez —. Será que as
coisas não saíram como o esperado?
— Deveria ter escutado o seu conselho e permitido que me
instruísse, não teria cometido um grave erro — confessou.
— E qual foi?
— Ataquei de algumas formas a namorada de Whesley, tentei que
surtasse perante todos, destratasse a mim, mas percebi que não importava o que
ela fizesse, seu namorado lhe daria a razão — suspirou pelo incômodo passageiro
na nuca, aquelas massagens eram sempre um misto de boas e más sensações —.
Cheguei a insinuar que era interesseira, não passa disso, tenho certeza, é uma
simples enfermeira que agora vê a oportunidade para ser alguém no mundo.
Whesley se ofendeu e me demitiu.
— Droga! — Rodolfo intensificou a força das mãos —. Quando digo
para que me escute sei o que estou falando!
— Está me machucando! — a mulher reclamou, tentou se mover, era
imobilizada pelo descontrolado sujeito —. Para com isso! — aumentou a voz.
— Se não tivesse teimado em tomar conta da situação pelo próprio
mérito não teria perdido a oportunidade de ouro de estarmos próximos o bastante
do alvo! — afrouxou a mão, interrompeu seu trabalho —. Quem é a felizarda?
— Samara... — a ruiva se sentou acariciando as regiões
avermelhadas pela arrogância do manipulador.
O sujeito refletiu por alguns segundos, procurou na memória por
algumas informações, trocou a face irada por uma expressão de grata surpresa.
— Não será tão difícil quanto imaginei. É seu dever tirá-la do
nosso caminho, acabar com esse romance medíocre, é a forma que tem para se
redimir, mas dessa vez não ignore e nem despreze as minhas ordens! —
aconselhou.
∞
Tão logo o filho retornara de seu encontro, Sílvia comunicou que
sairia com Adrian, foi aconselhada para que tomasse cuidado, as horas estavam
avançadas.
— Nunca é tarde para acreditar que nossos sonhos juvenis se
realizarão, mesmo que estejamos velhos eles não morrem, é nossa obrigação
continuar acreditando — por sobre a mesa do luxuoso restaurante, ao melodioso
som que tocava ao fundo e tornava o ambiente ainda mais aconchegante, homem e
mulher mantinham as mãos unidas e o nobre cavalheiro não deixava de exibir todo
seu contentamento —. Essa filosofia tem sido o meu mantra, de onde tiro forças
para acreditar que estaríamos num momento como esse despreocupados quanto a
vida.
— Devo confessar que minha crença falhou em algumas ocasiões, já
quis desistir de tudo por acreditar que não valia à pena, que nenhum esforço
adiantaria coisa alguma, estava enganada, se cometesse certas besteiras jamais
viveria as segundas chances que a vida nos proporciona — leve, sem se incomodar
com receios, convicta de que os medos e as ameaças já não existiam, Sílvia
abriu o coração, permitiu que a alegria fosse exposta nas palavras contentes,
almejava que noites como aquela fossem duradouras.
Mas forças ocultas trabalhavam enquanto eles se distraíam.
Forças perigosas.
O plantão jornalístico chamou a atenção de todos os clientes,
provocou a ansiedade em cada telespectador.
— Notícia urgente! — começou o assustado
apresentador —. Recebemos a informação de que houve uma invasão na delegacia
onde o ex-governador Cícero Rebelo aguardava pela decisão das autoridades, a
energia foi cortada por alguns minutos e todo o sistema de segurança
comprometido — apertou o ponto eletrônico, a intensidade da revelação o deixou
confuso, precisou se certificar quanto ao próprio entendimento. Encarou a
câmera. Semblante surpreso —. O ex-governador é agora considerado desaparecido,
um foragido em potencial.
As janelas de vidro foram arrebentadas em estilhaços.
Gritos apavorados soaram no ambiente marcado pela constante
discrição de seus visitantes.
Adrian percebeu a luz vermelha fixada no peito da ex
primeira-dama.
Disparos inúmeros.
Gritos horrorizados.
Pessoas pranteavam.
Continua...
No próximo
capítulo:
—
E pensar que até pouco tempo conversava com a lua reclamando da solidão,
dizendo que não valia à pena se dedicar tanto em amar as pessoas se não somos
recompensados... — Whesley revelou mais um pouco dos momentos de enfado que
sofrera ao longo da vida —. E hoje estou tão bem acompanhado, vejo as estrelas
caindo e agradeço mais do que suplico — encarou as íris esverdeadas, olhos que
remetiam à força da natureza —. Meu único desejo é para que isso que estamos
vivendo nunca termine...
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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