[WebLivro] Ambições - Capítulo 63 - A Anunciação
Capítulo 63 – A Anunciação
Lutas existem para que sejam vividas, sofridas, ganhas ou
perdidas. É inevitável o esforço. Quem quer alcançar êxito não se incomoda com o
suor que molha todo corpo e tenta, de tantas formas, driblar o cansaço. Lutas não
são como os momentos de sossego, assemelham-se mais ao furor do sol que
desponta ao meio-dia.
Estava sim cansada, estava sem dúvidas exausta por tanta
aflição, tanto medo imposto, tanta desesperança motivada por um sujeito que não
enxergava limites, não se preocupava com as vítimas que faria, importava-se
apenas com a plena satisfação dos próprios anseios.
E se não conseguisse?
E se perdesse aquela luta?
Além de perder a oportunidade de construir uma vida ao lado de
Whesley, além de precisar se convencer que era uma ilusão acreditar que
abraçaria filhos e seria presenteada pelo doce som de gargalhadas infantis,
fracassaria com a humanidade, o triste fim que a alcançaria seria o mesmo de
tantas outras pessoas que nem ao menos puderam se preparar para o inesperado,
não permitiria que os homens vivessem a história que sempre sonharam.
Não era o momento de sucumbir ao cansaço.
Não dava mais para procurar descanso.
Precisava lutar.
Colocou-se a caminho da mata envolta por tanta maldade.
Não se deu conta de que alguém indesejável e malquisto seguia os
seus passos.
— Pelas descrições, é exatamente aqui — iluminando o solo com a
lanterna que carregara, Amanda distinguiu onde estavam —. Eu tenho certeza de
que é aqui! — a partir dos lapsos que confrontavam sua mente, a detetive
conseguira acesso a vagas lembranças de quando fora levada do Sistema e
recobrara a consciência —. Não dêem nem mais um passo, o próximo pode nos
explodir.
— Não se destruirmos tudo antes — Samara tirou a mochila das
costas, procurou pelo explosivo que levara —. Precisamos nos afastar, as
armadilhas se desfarão estrondosamente e, então, sem pestanejar, avançaremos
contra a entrada preparados para os ataques do inimigo — encarava seus
parceiros com seriedade, nada poderia sair do controle —. Façam o possível para
não ceifar a vida de ninguém, mas também saibam se proteger — recomendou —. O
primeiro que conseguir acesso à sala-mãe não hesite em encerrar o sinal do
Sistema, o mundo depende da nossa coragem, da nossa força, não tenham medo,
lutem, mesmo que contra a própria consciência! — afirmou como se soubesse as
coisas que os aguardavam, na verdade repetira as mesmas ordens de Matheus anos
antes quando em uma tentativa fatal a Resistência chegou perto do êxito.
Afastaram-se alguns metros.
Possuindo o explosivo, Felipe não poupou forças ao lançá-lo
contra a entrada camuflada.
Em poucos segundos as trevas deram lugar ao brilho da explosão.
Progrediram com agilidade.
∞
O relógio passava das cinco horas da manhã.
Trabalhadores e estudantes eram despertos ao som de seus alarmes
instalados em relógios ou celulares.
Preguiçosos, sentavam-se sobre a cama.
Sentiam o gelo da manhã.
Esticavam seus corpos.
Começavam a se arrumar para mais um dia de obrigações, sem nem
se darem conta do que os aguardava fora de suas casas, nas ruas, onde o Sistema
já imperava.
Cansado de adiar, decidido que era o momento exato e certo de
que ninguém o atrapalharia, o Líder acionou a Anunciação, os satélites comunicaram-se
com os chips colocados em tantos Alienados, o exército sombrio colocou-se a
serviço das ordens exigidas.
Não poupavam ninguém.
A mais indefesa das vítimas que colocavam os pés na calçada era
possuída pelo terror daqueles controlados por uma mente assustadoramente cruel.
Tinham as casas invadidas.
Suas famílias rendidas.
Começava a escravidão.
Ainda unidos, buscando segurança um no outro, o jovem casal pôde
ouvir gritos ao redor, frases de ordem, palavras de dor, angústia.
— O que está acontecendo? — Sofia sussurrou mais uma vez.
— Samara falou a verdade, custei a acreditar, não estava
convencido de que sofreríamos uma ameaça tão grande... — Samuel respondeu
confessando sobre o risco que os acometia —. Mas vamos ficar bem — apertou o
abraço —. Todos ficaremos.
No refeitório do hospital, servindo-se com um pouco de café para
permanecer acordado a fim de proteger Sílvia quando mais precisasse, Adrian
percebeu o comportamento inquietante de algumas pessoas que de repente se
imobilizaram, todas ao mesmo tempo, levaram as mãos aos bolsos e sacaram dentre
os muitos artefatos fatais, facas reluzentes e revólver calibrados, apontaram
tais armas àqueles que os rodeavam, pessoas livres de Alienação que agora
seriam forçadas a uma torturante escravidão.
Ligeiro, o empresário colocou força nas pernas, avançou pelos
corredores do hospital driblando oponentes, esquivando-se de tantos que
secretamente serviam ao Sistema e que esperaram o exato momento para que
despertassem.
Adentrou desesperado o quarto onde a amada mulher estava
internada, trancou a porta demonstrando o tamanho da preocupação que o oprimia
e provocava o suor em seu rosto, instalou na parede o bloqueador de sinais.
— O que aconteceu? — percebendo a afobação, a ex primeira-dama
procurou por explicações.
— A guerra começou e não há nada que possamos fazer que não seja
aguardar pelo seu término!
∞
Avançavam pelos corredores escuros guiando-se pelas lanternas,
mantinham a audição aguçada e a visão ampliada, ignoravam as limitações, procuravam
se atentar a menor das percepções para que não fossem fatalmente surpreendidos.
Alguém apareceu de repente.
Felipe o agrediu com o cano do fuzil.
Foi apenas o estopim.
Novos homens surgiram.
O embate ganhou força.
Mas eles eram a Resistência.
Não desistiram nenhum segundo.
Retribuíam as agressões com novos ataques, sofriam dores, mas
também as causavam.
Desviavam-se de golpes.
Protegiam-se de tiros.
Derrubavam o inimigo.
Até que foram derrubados.
Próximos de saírem daquela zona de intenso conflito, Samara foi
abordada por um dos alienados que a imobilizou sobre o chão e preparou-se para
extingui-la.
Amanda não teve outra opção.
Não existia tempo.
Disparou.
Os três combatentes entreolharam-se abatidos, não queriam tomar
atitudes que geraram consequências aos seus corações, mas precisavam manter-se
a salvo se quisessem salvar o mundo.
Avançaram.
Explorando lugar tão desconhecido terminaram em um cômodo
qualquer.
A porta se trancou.
Caíram ao inalar o gás.
—E a Resistência prova então sua arrogante prepotência ao tentar
inutilmente abalar o Sistema — o Líder dirigia sua fala aos prisioneiros que
despertavam estonteados buscando na memória compreender como chegaram até ali
—. Tentaram uma vez, fracassaram, se fossem humildes e reconhecessem a fraqueza
que possuem eu os pouparia do sofrimento, da servidão, mas ao preferirem pela
tola valentia me deram a liberdade de devastá-los como se faz com vermes
repulsivos! — as luzes se acenderam, revelaram Whesley acorrentado na cadeira
posta num tanque de notória profundidade, ainda vazia, o vidro transparente não
escondia a face de quem ali estava —. Eu te avisei, Samara, passaria pela mesma
dor do passado — com as próprias mãos ligou a torneira, a água começou a encher
o reservatório —. Verá alguém que ama agonizar até o último suspiro! —
gargalhou malignamente.
— Desgraçado! — a Capitã moveu o corpo rispidamente, seu esforço
foi vão, estava amarrada à pilastra, reconheceu que fora derrotada, libertou o
pranto.
— Chega de fingirmos ser aquilo que não somos, chega de mostrar
coragem onde só existe medo e chega de esbanjar piedade onde só existe ambição
— levou as mãos à máscara —. Chega, também, de se manter no anonimato, é
chegada a hora de conhecerem o seu rei — permitiu que a luz tocasse seu rosto.
Espantaram-se.
Amanda foi quem mais se surpreendeu, uma ingrata surpresa.
— Pai?
— Filha... — era Fernando, sempre foi, por todo aquele tempo.
Continua...
No próximo
capítulo:
—
Você nunca saberá o que é isso, sua vida sempre será esse vazio interminável,
essa miséria de espírito. Pode dominar o mundo, mas sabemos que seu verdadeiro
intento é ser amado, mas não se engane, as pessoas não o amarão, antes o
temerão e o medo desperta o ódio e o ódio desperta a inimizade e a inimizade,
por fim, pode nos destruir para sempre! — profetizou —. Hoje somos nós, amanhã,
inevitavelmente, será você!
É o penúltimo
capítulo, nesta quinta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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