[WebLivro] Ambições - Capítulo 54 - Conquistando o Inimigo
Capítulo 54 – Conquistando o
Inimigo
Levar Acsa até a presença do Líder e amarrá-la para que ficasse
vulnerável às investidas de seus opressores foi tarefa fácil, afinal, ela se
encontrava sem o poder de reflexão, sem a consciência necessária para que
compreendesse as dores pelas quais passaria. Mas que graça teria ao sujeito
desumano feri-la sem que pudesse sentir? Sem que pudesse demonstrar o horror
que ali imperava? Teve de volta a liberdade de pensar.
Olhou ao redor com espanto, com estranheza.
Depois de tanto tempo se sentia viva.
— Como é voltar? — sentado à sua frente, analisando-a com total
atenção, o Líder questionou.
Acsa se manteve no assustado silêncio.
— Imagino que não esteja entendendo coisa alguma, é como voltar
de um coma que durou anos, que nos prendeu por dias intermináveis, nada parece
como antes — o mascarado explicou o que parecia indescritível —. Fato é que a
vida continua, faz ideia do tempo que passou?
— Não...
— Alguns anos — mentiu —. E veja só, não vieram buscá-la —
sinalizou para que ligassem a câmera, a partir daquele momento tudo seria
registrado —. Onde está Felipe? Onde está o rapaz que prometeu ficar ao seu
lado? Acredito que tenha seguido outro rumo, caminhos diferentes, acredito que
tenha desistido de você, se convencido de que não valeria à pena arriscar a
própria vida e nem esperá-la, nesse momento deve estar rendido aos braços da
esposa... É como eu digo, não podemos acreditar no sentimento que as pessoas
dizem possuir, elas nos enganam, mentem, no primeiro vacilo deixam de sentir o
fictício amor intenso que juraram, se tudo fosse realmente verdade como pode
desaparecer tão de repente? — lançou as palavras astutas.
A oriental, desorientada quanto ao tempo que se passara, sem
qualquer lembrança dos últimos dias, abriu os ouvidos ao discurso malicioso
mesmo se recordando das promessas que recebera daquele que amava, acreditava
que tivesse sido esquecida.
— Não pode ser verdade... — ainda assim, uma pequena esperança
pulsava em seu coração, sabia que estava no meio de manipuladores, homens que
faziam o impossível a fim de terem cada vez mais seguidores. E se estivesse
sendo enganada? —. Não estou aqui há tanto tempo e nem ele me abandonaria, sei
quais palavras foram trocadas entre nós, quais juramentos fizemos, não os
quebraríamos!
— Fidelidade — o Líder se levantou calmamente —. É uma palavra
bonita, devo confessar, de sonoridade sutil e significado sedutor, mas o fiel
não passa de um cego iludido que enxerga apenas o que deseja e não aquilo que
infelizmente existe — caminhou em direção à prisioneira —. Não compensa ser
fiel, não compensa acreditar que seremos recompensados, que seremos tratados
com a mesma fidelidade que doamos, é ilusão — mostrou o celular à Acsa —. Você
pode ser fiel, podemos ser fiéis, mas ninguém é a nós!
Os olhos da jovem mulher se avermelharam abalados, o lamentoso
choro logo apertou seu peito, a foto que contemplava denunciava que os dias se
passaram como num sopro, os anos se foram e Felipe não aguardara por ela.
Parecia feliz. Parecia realizado. Porém, com outra mulher, a mãe do pequeno
filho, uma criança que puxara seu doce sorriso, que dependia da sua existência.
Levou o olhar afligido ao Líder.
Queria ter certeza.
— Infelizmente ele seguiu a vida, construiu uma família e vive
uma história da qual você não é personagem, talvez não passe de uma ligeira
lembrança ou nem isso signifique — permaneceu com as mentiras —. Felipe nunca a
amou, se a amasse realmente teria esperado o quanto fosse necessário, não acha?
Presa à cadeira, Acsa abaixou o rosto, sentiu as lágrimas
molharem sua face, sentiu o coração arder terrivelmente, a única coisa da qual
um dia teve certeza era sobre o que sentia pelo rapaz.
— Amor... Amor não existe, é invenção de poetas desocupados que,
sedentos por serem lidos e comprados, tocam as pessoas articulando mentiras
imbatíveis... Ainda é capaz de acreditar no amor?
Silêncio.
— Estou disposto em tirar as amarras, em permitir que caminhe
com as próprias pernas, mas precisa me responder se ainda acredita no amor.
— Eu não sei... — sussurrou.
— Foi enganada, esquecida, desvalorizada por aquele ao qual se
entregou, abandonada, trapaceada, no seu lugar tudo que seria capaz de sentir é
um ódio violento, vingativo, que me daria forças para apagar da mente aqueles
que me desprezaram, que me faria forte para causar dor!
— É um direito seguirmos nossas vidas quando já não temos
esperança quanto aos planos iniciais, não posso fazer sofrer alguém que amei...
— Olhe bem essa foto, aproxime-se do rosto feminino, ele a usou
para sair daqui, usou-a como chave para a própria liberdade, para que
conseguisse estar com essa mulher, Samara, de quem aposto que já ouviu —
argumentou.
Acsa relembrou as tantas conversas.
Relembrou do nome de Samara.
— É contra ela que luto, ela que roubou o seu futuro, que tirou
das suas mãos um amor importante, que fez Felipe esquecê-la completamente e que
a mantém presa nesse lugar! — disse com convincente fúria —. É contra ela que
lutará se deixar de acreditar em sentimentos toscos e frágeis!
Fazia sentido.
A jovem garota se irou ao dar razão para o que ouvia.
— Se o amor não pode existir a mim também não existirá àqueles
que me traíram! — e assim entregava-se ao Sistema para servi-lo, demonstrava
que o afeto que existia agora não passaria de desprezo, fortalecia o Líder que
teria ao lado alguém que a Resistência não poderia machucar, seria seu escudo.
∞
Em seu segundo dia internado, sendo observado pelos médicos que
queriam ter certeza quanto a sua recuperação, Whesley adormecia tranquilo como
um menino que tem a convicção de que se algo acontecer basta dar um grito para
que os pais o socorram. Seus pais não estavam ali, Cícero desde que fugira da
prisão não deixava rastros e Sílvia fazia companhia a Sofia, quem estava ao seu
lado, observando-o entregue ao sono, rendido aos sonhos, era Samara que sorria
ao encará-lo, acariciava-o com delicadeza, sentia-se responsável por aquilo.
Os olhos preguiçosos se abriram.
O sorriso aos poucos foi exposto.
O empresário despertou.
— Bom dia... — a enfermeira disse com sutileza —. Como se sente?
— Com tanto mimo é impossível me sentir mal — sentou-se sobre a
cama —. Essa é uma das vantagens de namorar alguém que trabalha em hospitais, o
que era para ser incômodo torna-se agradável momento de descanso, ficaria aqui
para sempre! — beijou a delicada mão.
— Vou pedir para que tragam o café — colocou-se a caminho.
— Samara, espere — o rapaz interrompeu os passos cautelosos,
gesticulou para que a Capitã se aproximasse —. Estamos juntos a tempo
suficiente para que eu consiga decifrar seus pensamentos apenas contemplando
seus olhos e o que vejo é culpa — surpreendeu com a declaração —. Está se
culpando por me ver nessas condições, mas não deve, não pode acreditar nisso,
antes mesmo de entrar na minha vida Sofia já se entregava a essas forças que
trabalham enquanto dormimos, minha família já era atacada sem que
percebêssemos...
— Não consigo não sentir culpa, se antes já existiam riscos
agora eles são muito maiores, o ódio que sentem contra mim é terrível o
bastante para que cada pessoa ao meu redor sinta as suas consequências —
desabafou o peso que carregava —. Tudo o que eu queria era uma vida normal,
segura, na qual eu pudesse amar sem ter medo de perder quem amo como aconteceu
no passado, mas esse desejo parece tão distante da realidade, é com uma
utopia... — não conteve o choro de desespero.
— Não é utopia, é possibilidade! — Whesley colheu o choro que
era derramado —. Seremos muito felizes ainda, sinto isso, sinto que seremos
recompensados pelo bom coração que temos, pela alma nobre que você possui e que
expõe ao se preocupar até mesmo por aqueles que nem conhece. Quando isso acabar,
quando o nosso amor vencer qualquer obstáculo e derrotar o ódio apregoado por
um insano desalmado, veremos que valeu a pena persistir, valeu a pena
acreditar!
Tão motivador discurso fez brotar no rosto de Samara o sorriso
esperançoso, o sorriso que enfeitiçava seu eterno admirador.
Mas alguém quebrou aquele momento de paz.
— Vim o mais rápido que pude tão logo ouvi a notícia! — era
Elisa com sua inconveniente presença.
Continua...
No próximo
capítulo:
—
Hoje compreendo esse pensamento e aceito que para tudo há um tempo, se tentarmos
apressar as coisas podemos estragar o melhor que elas têm a oferecer — a jovem
garota, perdidamente atraída pelos olhos azuis a cuja beleza nunca se atentara,
abriu um sorriso tímido, sentia-se feliz por viver a realização de um sonho,
compartilhava o mundo real com alguém que conhecera em condições tão
contraditórias —. E se está feliz me sinto melhor. Cheguei a pensar que fosse
egoísta por querer tanto que viesse até mim, espero que entenda, precisava da
sua companhia.
São as últimas
semanas! De segunda a sexta, aqui no blog!
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