[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 23 - Prazer em Vviver
Capítulo 23 – Prazer em Viver
Ao longo da
vida, escrevemos o nosso livro. Alguns capítulos são cheios de alegria, são
floridos, risos são irradiados, a paz domina sobre todos os parágrafos. No
entanto, como tudo flui, o capítulo precisa mudar e aí nos deparamos com um
enredo denso, com personagens sombrios e desenrolares indesejáveis.
Infelizmente muitos perdem a esperança e esquecem as páginas em branco que
aguardam ansiosas pelas reviravoltas, pela volta da paz e da alegria.
Rute, em dado
momento de sua história, passou por capítulos tristes e desanimadores,
capítulos aos quais se rendeu desacreditada quanto ao futuro, prendeu-se neles
e não avançou em sua singular obra. Sofria por isso, desejava viver, respirar
ar fresco, ver gente, sentir o toque do sol, mas o medo a travava e o passado
barulhento a privava do melodioso e inspirador som de cada amanhecer.
Aquilo a
consumia.
Matava-a.
— Que belo dia
está fazendo! — Sara, sempre animada, sempre na intenção de agradar a pobre
ama, entrou em seus aposentos, descansou sobre o criado-mudo a bandeja de café,
abriu as janelas permitindo que a luz dissipasse as sombras —. Um dia perfeito
para que celebremos a vida!
Atordoada, a
amargurada mulher percebeu que se entregou ao sono por tempo demais, o vizinho
já não tirava perfeitas músicas do violino e o sol forte anunciava a chegada do
meio-dia.
— Celebrar a
vida... — revirou os olhos sentando-se sobre a cama —. Já que perdi o horário
deveria ter me deixado dormir, só assim encontro paz! — reclamou tomando posse
sobre a bandeja.
Sara, notando
que a cada dia Rute se mostrava mais descrente e desanimada, sentou-se aos pés
da cama, encarou aquela a quem sentia muito dever, precisava insistir,
precisava fazê-la acreditar que era sim possível ser feliz mesmo com tantos
motivos para choros eternos.
— Não diga isso,
não diga que apenas dormindo encontra paz, mesmo acordada pode desfrutar da
mais pura e intensa tranquilidade.
— Não faz ideia
de como têm sido os meus dias... — tomou um gole do líquido quente, lançou os
olhos ofuscados sobre a adolescente que a cada dia se mostrava mais encantada
pelo viver —. Olhe para mim, uma mulher desinteressante, fracassada, que vive
aos cantos da casa, que não possui motivos para continuar nesse mundo, que não
tem filhos, não tem... — interrompeu a própria fala, preferiu não declarar, mas
sentia falta de nunca mais ter experimentado o amor.
— É uma pena que
pense dessa forma, é uma pena que se desvalorize tanto enquanto possui inúmeras
qualidades adormecidas, escondidas, que querem irradiar ao mundo, mas são
acorrentadas por uma alma presa ao passado, aos dias que não foram bons, dias
que passaram e que precisam ceder lugar a dias melhores! Ainda há tempo, não
pode continuar desperdiçando o tempo que possui, mas que um dia perderá para
sempre...
A mulher nada
retrucou, concordou que precisava avançar, mas não o faria, não o poderia
fazer, não queria sentir dores novas e ainda maiores, sofreu e não soube como
enfrentar o sofrimento.
— O vizinho nos
convidou para um jantar — Sara anunciou —. E eu disse que iremos.
— Enlouqueceu?!
— Rute não escondeu a surpresa, o incômodo espanto —. Como pode decidir assim e
apenas me comunicar? — lembrou-se de quando agia da mesma forma e a mão
aplicava seus sermões, a cada dia tinha mais certeza do quanto ela e Sara se
pareciam.
— Se viesse
consultá-la com certeza iria negar, ele foi gentil, é uma pessoa diferente das
outras, alguém que pode se transformar em um grande amigo! — a jovem garota
insistiu.
— Se quiser, vá
sem a minha companhia — relutou.
— Não irá bancar
a grosseira, sei disso, o compromisso já está marcado e aguarda que
educadamente o cumpramos — argumentou de maneira irrefutável —. Prepare seu
humor e viste a melhor roupa, sei que terá momentos nos quais se esquecerá de
tudo e sentirá o prazer da vida!
¤
Em uma sangrenta
batalha o vencedor não é apenas o mais forte ou esperto, essas virtudes podem
fazer a diferença, mas não desistir mesmo que cheio de feridas é uma ação
corajosa que garante a vitória. Mesmo fraco, cansado, o segredo é não acreditar
que o inimigo é mais poderoso, é não entregar a ele o cobiçado prêmio, mas
persistir em derrubá-lo. Mesmo que a derrota chegue será com glória, não há
pior derrocada do que a desistência.
No entrave que
vivia, no confronto que para muitos poderia parecer impossível de vencer ou
inútil de ao menos tentar, Laís se manteve firme e não desanimou, antes de
declarar guerra e envolver pessoas que queria proteger, tentaria intimidar o
marido, fazê-lo desistir da insana ideia de casar a filha com qualquer rapaz.
Seu esforço
seria doloroso.
O barão também
era persistente.
— Acho que fui
bastante claro e nem deixei margens para discussões, a ordem foi dada, a
decisão está tomada, não há porque e nem pelo quê voltar atrás! — em seu
escritório, confrontando a esposa com o olhar severo, Frederico reagiu ao
protesto da mulher quanto à sua escolha.
— Não percebe
que nossa filha tem se afastado? Não percebe a tristeza em seus olhos? Não é
capaz de notar seu isolamento? — a baronesa apresentou os fatos, tentaria mexer
no sentimento do rígido homem, tarefa complexa —. Ela não quer se casar com
aquele jovem, não quer se entregar a uma vida que não planejou!
— E qual seria a
vida planejada? Quem seria o príncipe encantado? Vamos! Quais são as opções?
Laís ficou
emudecida.
Da ciência de
Frederico coisas destrutivas eram omitidas.
— Eu sou o pai,
eu sei o que é melhor para ela e já tracei seu destino. Agora está relutante,
pensando bobagens, mas tão logo comece a viver a minha vontade, verá o quanto
foi bom ter alguém que a guiasse.
— Guiar é
diferente de arrastar! — discordou outra vez —. Guiar é ser paciente,
cuidadoso, cauteloso, é deixar que andem com as próprias pernas, mas sempre por
perto a fim de evitar quedas fatais. Mas arrastar é levar à força, com
brutalidade, com impiedade, causando arranhões e cortes, despertando a raivosa
relutância!
— Laís, não
teime, será inútil, perderemos tempo com uma conversa cuja conclusão já
sabemos: quero que Ana se case com Pedro e é o que inevitavelmente acontecerá!
— Como pode
arruinar a história da própria filha?
— Seu pai
arruinou a sua?
Pergunta direta.
Pergunta capaz
de incitar perigosas respostas.
A mulher, repleta
de conceitos, cheia de pensamentos que condenavam o homem repleto de ignorância
junto a sociedade estacionado no tempo que não se permitia à luz, levantou-se
majestosa, encarou o esposo, aquele que só respeitava por temer sua fúria, mas
não o amava, medo e amor jamais se misturam.
— Não percebe
que meu pai arruinou as nossas vidas? — deixou o homem solitário, apenas
acompanhado pelos próprios intentos, pelas próprias dúvidas, pelas ameaçadoras
desconfianças.
¤
Adelaide também
possuía lembranças indesejáveis, memórias de humilhação, no entanto soube
enfrentar o sofrimento e permanecer na batalha, acreditava piamente que a
justiça não falharia. Relembrando o passado enquanto lavava roupas à beira do
rio, confessou que era recompensada pelos dias difíceis, teve a sorte de
construir uma família, plantar nos filhos a semente de seu legado, teve a
oportunidade de ser amada incondicionalmente.
Tal certeza fez
brotar o sorriso.
Sorriso que
seria ofuscado.
Por entre a mata
alguém sussurrou seu nome, chamou sua atenção, alguém conhecido, um antigo
companheiro de senzala, um escravo fugido, sempre ligeiro, que alcançou a sorte
de se juntar a outros do seu povo, que alcançou a proeza de ser escondido no
quilombo.
— O que houve
com Felipe? — o homem questionou.
— O que tem meu
filho? — a mulher se preocupou.
— Não iria
enviá-lo a nós?
O coração da
pobre mãe se apertou.
Viu o garoto
partir. Acreditou que conseguiria.
Pensamentos
desastrosos a possuíram.
##
No próximo capítulo:
—
Vida? Nós não temos vida. Já nascemos sem ela — revelou o sentimento de tantos
seres humanos tratados com crueldade, forjados de sua dignidade.
E
mais uma vez, acompanhando o drama de um povo sequestrado de suas origens,
capturado de seus costumes, privado de sua cultura, Ana se revoltou
internamente, enquanto na sua realidade nasciam com um glorioso futuro a viver,
do outro lado nasciam à espera da morte.
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