[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 37 - Apaixonar-se


Capítulo 37 – Apaixonar-se

Naquela mesma noite na qual Rute permitiu que os sentimentos a governassem e decidiu por aceitar ao convite de um nobre guerreiro que, de maneira sutil, apresentava-se aos seus olhos, outro casal, inexperiente nos assuntos do coração, ingênuo quanto à força do amor, entregava-se a uma agradável conversa sentados no jardim que garantia à misteriosa casa um ar mais natural. Debaixo das estrelas, cheios de confusões, Felipe e Sara trocavam palavras amistosas, mas em silêncio, apenas para eles mesmos, confessavam o quanto era bom ouvir a voz um do outro.
— Sua ama e você são duas pessoas especiais, merecem o que de melhor a vida possa oferecer, se dependesse da minha vontade todos os seus dias seriam floridos... — o jovem músico, animado pela chance de tocar perante um grande público, confessava o quanto fora imprescindível o apoio de duas pessoas que nunca imaginara conhecer.
— Acredito que recebemos aquilo que doamos ao mundo, aquilo que sinceramente está dentro de nós — a adolescente, compreendendo que a vida segue um fluxo e que naquele instante lhe proporcionava a experiência do gostar de alguém, sentia-se confortável para se abrir, revelar seus pensamentos, suas crenças —. Tenho certeza de que é merecedor de boas coisas. Depois de tanto sofrimento é esse sorriso que precisa estar na sua face todos os dias!
Não havia percebido, a curva de seus lábios era espontânea, estar com alguém que proporcionava a sensação de paz era em muito gratificante ao garoto acostumado com açoites, acostumado também com a ideia subversiva que lhe obrigavam a aceitar sobre a sua condição: merecia a escravidão.
— Sempre disseram o contrário, sempre acreditei no oposto, diziam que eu era um desalmado merecedor da servidão, digno apenas de um trabalho interminável, sinto-me lisonjeado ao ouvir que boas coisas devem me alcançar... — levou o olhar ao céu, tentava compreender a reviravolta que transformou seu viver, como queria que tamanha sorte alcançasse o seu povo, a sua família.
— Ouço dizer como funcionam as coisas por aí, contam a forma desumana pela qual pessoas como você são tratadas, mas não podem acreditar em discursos ignorantes, vocês são especiais, maravilhosos, tanto quanto qualquer outro ser humano — na intenção de oferecer conforto, como se tal gesto pudesse aliviar as muitas dores já sofridas, Sara repousou a mão sobre a do violinista, um toque singelo, sutil.
Um toque diferente.
A partir daquele momento, quando os corpos se tocaram, as almas juvenis também se conectaram através de olhares que brilhavam, reluziam, perdiam-se um no outro naquele misto de emoções que afloravam e confusões que despertavam.
Um toque agradável.
Ficariam para sempre naquele gesto se não fosse a timidez despontar e a vergonha incomodar.
— Como eu estava dizendo — sendo o primeiro a romper a ligação dos olhares, Felipe motivou mesmo que indiretamente o curto afastamento de Sara, procuraram uma distração para os tantos pensamentos —, você e Rute são pessoas especiais para mim, sinto-me sortudo por ter o prazer de contar com essa amizade, por isso quero que estejam presentes na minha apresentação, esse pedido é inegociável! — frisando o quanto se importava com a presença daquelas que por toda a vida receberiam sua gratidão, o jovem garoto tirou do bolso o papel bem enfeitado, com letras estilosas e marcantes, estendeu-o à amiga —. Esse é o seu convite — e, então, voltaram a se encarar.
— Como seria capaz de negar? — possuindo o cartão, analisando seu conteúdo, a adolescente voltou a se atentar ao semblante que começava a almejar para sempre contemplar. O que acontecia com ela? Não queria admitir, por vergonha talvez, ou insegurança, mas sabia que experimentava o começo de uma paixão —. Imagino o quanto esteja feliz, é a concretização de um sonho!
— Perdi as contas de quantas vezes supliquei para que esse dia chegasse, às vezes parece imaginação... Estaria ainda mais feliz se minha família pudesse estar ao meu lado, sei o quanto se sentiriam orgulhosos...
— Quem são eles? — percebeu a forma sentimental com a qual o bom amigo se referiu aos que amava, ouviria mais essa parte da história se ele assim quisesse.
— Pessoas especiais, cheias de importância para mim, que me encorajaram a fugir, a voar... — lembrar-se deles despertava a tristeza, a saudade, os maus sentimentos que surgem quando somos obrigados a estarmos distantes de quem mora no nosso peito —. Torço para que um dia estejamos unidos e felizes, desfrutando da tão cobiçada liberdade, vivendo um sonho que a nós parece irrealizável.
— Pode parecer impossível, mas não perca sua crença e nem a alegria, toque como se estivesse tocando por eles, lute como se estivesse por eles lutando, sei que um dia não precisará pensar neles, pois estarão bem ao seu lado... — era a fé que possuía, a convicção que transmitiu.

O coração é mesmo cheio de mistérios. Para alguns pode ser fácil desvendá-los, mas para ouros, em especial àqueles que estão iniciando os desafios do caminhar, entender o coração é como desembaraçar fios embolados.
Os amigos se despediram.
Cada um para seu canto.
Mas um vazio estranho, nunca antes experimentado, instalou-se sem cerimônias, sem prenúncios, apenas se fez presente. Um vazio que alimentou uma indagação: quando estariam juntos outra vez?
Aquilo era a tão famosa paixão? Aqueles eram os sentimentos ofertados pelo discutido amor? Sara não encontrava respostas, apenas sabia que Felipe proporcionava sensações novas, agradáveis, sensações que adoraria repetir.
Ajeitando os aposentos de sua ama, antes de finalizar a organização, a adolescente encarou a mulher pensativa, trouxe-a de volta para a realidade, para o mundo sem devaneios.
— Quando sei que me apaixonei? — embora tímida pelas palavras, foi direta no questionamento, tinha sede de compreensão, desejava entender a si mesma.
Rute, surpresa pela pergunta e contente por ter a chance de explicar à filha sobre as coisas do coração, convidou a inexperiente e curiosa garota para se sentar ao seu lado, seria compreensiva, tentaria explicar da melhor forma o que um dia sentiu, o que depois de anos voltava a sentir.
— Cada um tem uma maneira de sentir o amor, de experimentá-lo, sempre sabemos quando estamos nos apaixonando porque os sentimentos são intensos e profundos, percebemos que não se resumem ao que compactuamos por um amigo, vão além disso, despertam em nós a vontade de sempre ouvir aquela voz, encarar aqueles olhos e sentir aqueles toques... — também ansiava pelo próximo encontro que teria com Victor, agradara-se de ouvir sua voz, contemplar os seus olhos, possuía discreto desejo de tocá-lo, o que era aquilo se não o retorno da paixão? — Felipe é um moço galanteador, não concorda? — usando da experiência que tinha, causou o desconcerto de Sara.
— Pelo que me parece, Victor também é um amigo excepcional, nunca a vi tão sorridente! — esquivou-se de responder o que ainda não tinha condições de afirmar.
— Não está cansada? — com aspecto divertido, Rute se colocou embaixo dos cobertores —. Apague as lamparinas ao sair — e assim também evitou confessar seu maior temor.

Os homens, embora não confessem, experimentam as mesmas dúvidas que acometem mulheres apaixonadas, sempre buscando pelo racional chega o momento que não suportam os próprios pensamentos, rendem-se às emoções.
Antes de se deitar, repleto de questionamentos quanto ao que sentia, Felipe resolveu confiar em Victor tanto quanto confiava no próprio irmão, acreditava que, como Artur, seu anfitrião teria as respostas.
— Acho que estou gostando de Sara.
— E eu de Rute — suspirou longamente, as emoções desnorteiam o mais centrado homem.
— O que eu faço?
O Protetor, apesar de nunca ter se rendido inteiramente a uma mulher, sabia o que era se apaixonar e o quão difícil pode ser esse importante momento, compreendeu que o hóspede queria mais do que compartilhar um segredo, queria auxílio.
— A melhor coisa que podemos fazer quando o amor nos aprisiona é não ter medo nem angústia ou receio — encarou o adolescente enxergando-se nele quando fez a mesma pergunta ao saudoso pai, quando ouvira aquelas mesmas palavras —. Não ter medo de senti-lo, não ter angústia de vivê-lo nem receio de demonstrá-lo — colocou a mão sobre o joelho do jovem garoto —. O que você faz? É muito simples. Quando tiver certeza de que é amor, apenas ame aquela que o conquistou.
Sim.

Para o amor apenas importa amar.


##
No próximo capítulo:

— Fico feliz pela certeza de que posso contar com o seu apoio, mais que apenas isso... — aproximou-se da encantadora dama, provou da doçura de seus lábios —, sinto-me afortunado pelo seu amor... — acariciou os cabelos castanhos, fios dançantes e charmosos —. Mesmo que ao seu lado esteja um outro alguém, não se esqueça de mim, do quanto estimaria lhe fazer companhia, procuro acreditar que um dia serei o companheiro que merece...

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