[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 31 - Um Novo Amigo
Capítulo
31 – Um Novo Amigo
Há
muitos perversos, há muita gente de corrompido coração, de intenções egoístas e
cruéis, mas também há pessoas nobres, ricas na alma, sábias quanto ao
significado da humanidade, sábias no ser
humano. Há os ardilosos, mas também há os que são capazes de sentir a dor do
seu semelhante.
Artur
sofria na agonizante solitária.
Mas
não sofria sozinho.
Alguém
compartilhava da mesma dor e se irava por isso.
Bruno
era um dos soldados que trabalhavam para Frederico, de pele branca, não se
deixava contaminar por preconceitos injustificáveis, não concordava com o
pensamento de que negros eram inferiores, de que seres humanos tinham que ser
separados por raças, para ele todos eram iguais ao mesmo tempo em que
distintos, essa diversidade deveria ser vista como soma, não como razão para
segregações.
Era
o responsável por vigar a masmorra enquanto ali permanecesse o prisioneiro, mas
sua aguçada humanidade o incitou a agir com sobriedade, com compaixão, com a
verdadeira justiça. Cauteloso, esquivando-se de possíveis olhares maldosos, o
rapaz conseguiu água e comida, levou os mantimentos ao calabouço, não hesitou
em destrancar a porta de metal e conceder alívio ao escravo oprimido.
—
Não tenha medo, estamos seguros — prestativo, ajudou o negro a se sentar,
paciente, aguardou que recobrasse a inteira consciência, passar horas em pé num
ambiente apertado e escuro não poderia ter o mínimo de prazer, atormentava
qualquer mente —. Como se sente?
—
Enfraquecido — Artur forçou a voz, aos poucos a respiração normalizava, não
precisava de tanto esforço por cada preciosa gota de ar —. Quem é você? —
ergueu os olhos, as vistas estavam turvas, lentamente se acostumavam com a
volta da luz.
—
Meu nome é Bruno, sou um dos soldados do barão, mas não se preocupe, minhas
posições em nada condizem com esses monstros, uso a chance de aqui estar para
diminuir o sofrimento de quem puder — o rapaz se apresentou, revelou as
valentes atitudes que constantemente exercia —. Não tenho as chaves para
soltá-lo das algemas, mas se permitir o ajudarei a se alimentar, acredito que
esteja faminto — expôs a preocupação.
—
Julgou certo... — Artur sorriu discretamente, pôde contemplar a face daquele
que se mostrava um novo amigo, o ambiente era iluminado por lampiões espalhados
por seu entorno —. Sabe como estão os demais?
—
Estão todos bem, foram poupados de torturas maiores — levou o odre à boca do
escravo, viu a satisfação daquele que molhava a garganta com água fresca,
satisfação que também despertou nele o contentamento por ajudar —. Confesso que
tenho admirado a sua coragem, mas precisa ser cuidadoso, nem todos têm a sorte
de encarar uma simples solitária, muitos sofreram torturas piores e não
resistiram.
—
Sei disso — saciada a sede, Artur suspirou aliviado —. Sei o quanto padeceram
em mãos impiedosas, luto não apenas por mim e por aqueles que continuam ao meu
lado, disponho-me a qualquer dor em memória aos que agonizaram em seus últimos
suspiros...
—
Lute com cautela e nunca sozinho, precisa reunir seu próprio exército sem que o
saibam, precisa ser inteligente se quiser vencer a escravidão — atencioso,
levou o pão à boca do rapaz impedido de usar as próprias mãos, deu de comer a
quem estava condenado à dor da fome —. Há outros como eu espalhados por aí,
todos ansiamos pelo fim dessa desumana realidade, aos poucos vamos nos unindo e
crescendo, em breve queremos iniciar nossa corrida rumo à vitória.
Acostumado
à fúria do homem branco, conformado pela forma ríspida com a qual tratavam o
seu povo, Artur se surpreendeu pela repentina aparição de um sujeito colocado
no lado oposto da batalha, mas que se oferecia para mudar de posição e combater
junto dos oprimidos. Acostumado com os açoites, recebia água e comida na boca,
recebia uma singela demonstração de irmandade.
—
É bom saber disso, é bom saber que dentre os fortes há aqueles que intercedem
pelos fracos e sou grato por isso... Não acha que está se arriscando ao me
ajudar? — preocupou-se com Bruno, um rapaz que se destacava pela bondade que
cultivava, bondade que ele mesmo julgava natural, algo que todos deveriam
possuir.
—
Estaria arriscando minha honra se não o ajudasse tendo a oportunidade. Gostaria
de mais alguma coisa?
—
Já fez o bastante...
—
Acredito que sempre terei algo a fazer... — o soldado, revestido por nobre
humildade, sentou-se ao lado do negro, já o considerava um amigo —. Torço por
viver dias nos quais seremos livres dessas ignorantes amarras, livres para
vivermos com igualdade e união.
—
Acredita mesmo nesse desejo? — Artur questionou, parecia vacilar na esperança
que sempre procurou alimentar, no mantra que o incentivava a avançar em seu
propósito —. Por muito tempo foi no que acreditei, na fé que busquei alimentar,
mas não acho que valha a pena confiar nisso, talvez morramos querendo ser
livres...
—
Não permita que a violência desses homens coloquem em dúvida o que sempre
procurou manter no coração, eles são muitos, mas não são todos, eles têm muito,
mas não possuem tudo, sempre é possível acreditar — encarou o escravo com olhar
encorajador, com palavras de valente objetivo —. Seus sonhos não valem menos
que os meus, somos igualmente humanos, precisamos desfrutar de igual liberdade,
nem que para isso tenhamos que juntos lutar!
Embora
fosse difícil diante de tantos motivos plausíveis para sucumbir à descrença,
Artur deu razão à fala de força e garra, culpou-se pelos instantes de fraqueza,
jurou a si mesmo que se manteria firme naquilo que por tanto tempo sustentou,
naquilo que manteria sustentando até que a vitória fosse certa.
—
Obrigado — demonstrou gratidão —. Nem sempre temos a sorte de nos sentirmos
humanos.
—
Isso me incomoda, saber que é necessário permitir a alguém que sinta o que é,
que se sinta humano... — lamentou a dura verdade —. Mas não se incomode, a
partir de hoje ganha mais um amigo! — firmou a amizade entre um branco e um
negro, dois seres humanos distintos apenas pela cor da pele, algo que embeleza
a diversidade humana, algo que deveria ser visto como singular característica
de cada um, aliás, ninguém é completamente idêntico a ninguém, essa é a nossa
maior igualdade: somos diferentes, somos únicos, carregamos particularidades
apenas nossas.
¤
A
mente fervia pela descoberta que fizera, o coração ardia pelo humilhante
sentimento que ali nascia, a ira dominava um sujeito intransigente, que jamais
aceitaria trapaças, que nunca se permitiria a motivo de fofocas e zombarias, um
homem cuja ideia de traição já o atormentava.
—
Quem você pensa que é para me enganar com mentiras? — arrastando Laís pelo
braço, Frederico levou-a até o quarto, jogou-a contra a cama e exigiu
explicações.
—
Do que está me acusando agora? — a baronesa encarou o marido com receio, nunca
imaginava o que se passava pela mente doentia.
—
Acha mesmo que sou ingênuo ao ponto de confiar cegamente nos passos que dá? Se
acredita mesmo nisso é a verdadeira tola! Você foi vista entrando na casa de um
homem! — revelou o que sabia, o que era verdade, o que poderia causar sérios
transtornos —. E as idas à igreja? As visitas a antigas amigas? Tudo isso foi
disfarce para a sua podridão! — acusou com veemência.
—
Como pode se referir a mim dessa maneira? — Laís se mostrou indignada —. O que
quer insinuar com esse descabível discurso? — conhecia a verdade, mas a negaria
enquanto conseguisse.
—
Não queira me enganar, não queira fugir do que agora não consegue enfrentar,
deveria ter pensado nisso quando se entregou às sórdidas lascívias!
—
Não vou ficar ouvindo acusações sem fundamento — a mulher se levantou, caminhou
na direção do homem enraivecido, cheio de dúvidas que o apavoravam —. Como se
já não bastasse o que me faz passar agora se dirige a mim como uma qualquer?
Está enlouquecendo! — prosseguiu em seus passos.
—
Não, não sou eu o louco, o insano, o imprudente — conteve a esposa pelo braço,
encarou-a no íntimo de seus olhos —. Averiguarei eu mesmo essa história, é bom
que seja inocente, é bom que não tenha me desrespeitado, não por mim, mas pela
sua medíocre vida! — ameaçou.
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No próximo capítulo:
— Apesar de dolorido, cansado
pelas horas de angústia, sinto-me ainda mais desejoso por liberdade, com maior
sede de vitória! — declarou que o medo não era o bastante para intimidá-lo,
somente a morte poderia interromper seu caminhar —. Se pensam que com castigos
e torturas podem me adestrar estão iludidos, lutarei pelo meu povo, por mim,
custe o preço que custar — apenas a mulher o ouviu, ninguém mais escutou a
promessa, palavras que trouxeram aflição à mãe sempre prestativa.
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