[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 27 - Corações Perversos


Capítulo 27 – Corações Perversos

A perversidade é quem impera sobre os corações corrompidos, seduzidos pela maldade, atraídos por sombras que sufocam e dissipam a vida. Os perversos, cheios de más intenções em suas almas repletas por desafetos, criam situações, tiram vantagens e manipulam aqueles que se colocam em seus tortuosos caminhos. São desumanos. Importam-se somente com o próprio prazer. Desprezam a dor daqueles que padecem através de suas malignas mãos.
Sebastião, o servo no qual Frederico mais confiava, era um homem de ações e pensamentos perversos, tirava proveito das mais diversas condições, não perdia a oportunidade de perseguir os mais fracos, os mais vulneráveis, aqueles que possuíam segredos descobertos pelos seus olhos. É claro que aproveitaria a chance de infernizar a vida do casal que às escondidas se permitia ao amor, é claro que através de angústias causadas teria a egoísta satisfação.
Pela manhã, quando os pássaros cantarolavam contentes por mais uma vez o sol resplandecer sua força, o capanga se dirigiu ao rio onde as escravas lavavam roupas, comemorou o fato de lá estar apenas uma mulher, a que atraía seus impuros desejos, a que participava de seus nojentos intentos. Lá estava a pobre Adelaide.
— Está um belo dia, não acha? — fez soar a grave e indesejável voz, tirou a mulher dos devaneios, das preocupações, da viagem que fazia a mente entristecida pela incerteza de como se encontrava o filho mais novo.
— É um dia como os outros — debaixo daquela injusta e eterna servidão, os dias já não possuíam brilho, não se diferenciavam, eram sempre envoltos por desânimo e descrença, o sol ardia e o vento açoitava, para os injustiçados seres humanos como Adelaide o céu poderia ser o mais límpido, ainda assim não existia motivo para celebrar a vida.
— Não. Não é um dia como os outros... — aproximando-se da escrava, Sebastião se sentou ao seu lado, exalava a crueldade de seu objetivo —. Aliás, há dias que são ainda mais belos por conta das conquistas que fazemos, das experiências que vivemos e dos segredos que a nós são revelados sem precisarmos mover um dedo — malicioso, levou a mão pesada à perna da mulher, pressionou-a causando o desconforto naquela que sabia de um triste fato: aos olhos de homens como aquele, ela era tida por objeto —. Você teria algum surpreendente segredo?
Adelaide interrompeu o serviço, tentou se esquivar de Sebastião, mas em vão, este intensificou o horripilante toque sobre a pele que se arrepiava de pavor. Ela tinha segredos, um dos quais poderia custar sua vida, verteria o seu sangue.
— Segredo? — encarou o capataz lhe dirigindo semblante incrédulo —. Qual de nós teria segredos se a vida que levamos se resume a determinações daqueles que nos aprisionam? Diga-me você se tenho algum segredo.
— Eu a observo até quando não percebe, não posso dizer seguramente que possua segredos, acredito que não seria tão ousada — tocou o rosto apreensivo, deslizou sobre ele o dedo áspero —. Mas não posso dizer o mesmo de Artur... — sorriu vitorioso, naquele gesto revelava que era conhecedor daquilo que incansavelmente procuravam ocultar.
— Não fale nada sobre o meu filho! — no instinto materno de proteger aquele que lhe pertencia, Adelaide segurou a mão que acariciava sua face, encarou o olhar intimidador sem transmitir receio, se fosse para defender os seus filhos ela se transformava na pior das feras.
— Como suspeitava, o segredo não é seu, mas você age como cúmplice! — forte, o homem perverso forçou que a mão que o continha se abaixasse, segurou com maior força a perna exposta, tornou a acariciar o semblante surpreso, mas desta vez com despudor —. Ele e Ana, a filha do barão, do homem que o mataria sem pestanejar, vivem uma relação às escondidas! — anunciou o que sabia, o que era verdade —. Nem queira distorcer o que sei, meus olhos a tudo assistiram! — foi convicto em sua defesa.
— O que você quer? — não adiantava negar, muito menos confrontar, a escrava confessou que a sorte estava sendo grande, ao invés de delatá-los o interesseiro homem dava a chance para negociações, em nome do amor que cultivava pelo filho se disporia a quaisquer caprichos.
— Você não é tão sonsa quanto imaginei, chegou direto ao ponto que eu tracei — o sorriso amarelado foi exposto astuciosamente —. Não conto nada a Frederico e assim poupo de dores insuportáveis aquele negrinho esperto e você me fará algo que há tempos anseio — atraiu nervosamente sua vítima contra o próprio corpo, aproximou-se de seus lábios, encarou-a maliciosamente —. Deverá ser minha!
Histórias de amor nem sempre são fáceis, simples, livres de luta e combate, aliás, na maioria delas há lágrimas densas, há choros intermináveis, há momentos nos quais o futuro parece um tormento. Mas elas terminam com regozijo, com a oferta de paz, com a concessão de alívio. Adelaide, repudiando as investidas de seu molestador, sentindo-se reduzida a um mero instrumento de prazer, entregou-se a Sebastião como ele almejava, fazia aquilo porque acreditava no amor, porque queria que o filho fosse feliz e vivesse algo que arrancaram de seu domínio. Lutaria junto ao casal pelo amor puro, inspirador e cobiçado.

¤

Naquela mesma manhã que fortalecia a cruel realidade vivida por um povo escravizado, Laís despertou com o corpo molhado pelo orvalho do amanhecer, nem se dera conta de que adormecera sentada no chão repousando a cabeça sobre o banco de madeira, a primeira coisa que veio a sua mente quando os olhos se abriram foi a lembrança da agressão traumática que sofrera nas mãos de um sujeito maligno, a segunda coisa que sobreveio aos seus pensamentos foi a imagem de Heitor e a certeza de que ao seu lado jamais passaria pela covarde humilhação.
Sentia a sua falta. Sentia saudade da sua voz, do som de sua risada, da intensidade de seu olhar e do seu cheiro aconchegante. Sentia falta da sua companhia, dos tantos encontros que viveram às escondidas quando ainda mais jovens, da noite especial que os envolvera na véspera de todo o pesadelo se iniciar e dos inúmeros reencontros que mantiveram mesmo sob a ameaça e o perigo de serem flagrados. Queria tê-lo. Desejava pela sua presença. Almejava mais que tudo dividir com o eterno e único amado as dores que ardiam em chamas devastadoras.
As portas se abriram.
Revelaram o monstro por trás delas.
— Dormiu bem? — cínico, Frederico questionou.
— Poupe-me de suas provocações — a mulher cansada de tanto desgosto encarou o marido com desprezo, o medo pela própria vida se foi, depois do bárbaro episódio que precisou suportar nada mais a abateria.
— Há pessoas que só entram na linha quando passam por severas punições, o castigo é um bom instrumento para que moldemos o comportamento delas — o barão, sem qualquer arrependimento pelas ações derradeiras, mostrou que se considerava correto em seus sórdidos gestos —. Espero que tenha aprendido a lição, não hesitarei em aplicar novos corretivos, mas sei que não me dará motivos para isso, o próximo castigo é sempre pior que aquele que o antecedeu.
Laís, recebendo a ameaça do homem que lhe obrigaram a ter em sua história, irou-se enormemente, revoltou-se em seu espírito rebelde, não acreditava que estava sendo tratada como marionete pelas mãos do indivíduo frustrado, nem aceitaria ser feita de fantoche, iria à guerra.
Mas antes precisava de conforto.
Precisava cuidar das feridas.
Precisava do auxílio de seu intenso amante.
Pouco se importando se Frederico estava ou não próximo a ela, pouco se importando com a estadia do barão na fazenda, a mulher maltratada ordenou que a levasse à cidade, inventou que tinha obrigações, deu a desculpa que encontrou.
Em poucos minutos estava diante a casa de Heitor.
Bateu na porta.
Foi prontamente atendida.
Como em todos os agradáveis e pretendidos reencontros, quando a distância cedia lugar à proximidade e a dor da saudade ao alívio da união, Heitor procurou os lábios da amada, mas desta vez ela os negou, rejeitou e não pôde esconder os olhos marejados.
— O que houve? — o cavalheiro se preocupou, nunca entre eles existiu o embaraçoso momento, ao contrário, a paixão descontrolada era a responsável por saciar a sede que um sentia pelo amor do outro.
Laís não conseguiu responder, a dor da humilhação fechou sua garganta e incentivou as lágrimas, silenciou sua doce voz.
— O que aquele miserável fez?
A mulher se recostou sobre a parede.
Fechou os olhos.
Não conseguiu dizer.
— Desgraçado! — Heitor se perturbou, o silêncio respondia, a resposta era inquietante.

O que o casal não imaginava era que o cocheiro que levou Laís à cidade recebera uma ardilosa recomendação: seguir os passos da baronesa. Foi o que fez. Estacionou em frente à igreja, desobedeceu a ordem para que ali ficasse, rastejou-se aos passos de sua presa, viu-a entrar na casa do homem desconhecido. Aquela era uma valiosa e perigosa informação em mãos perversas.


Continua...


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No próximo capítulo:

— Ouçam-me! — pôs-se em pé no meio da senzala, atraiu os olhares cansados e curiosos para si, conseguiu a preciosa atenção de todos —. Sei que já tentamos e falhamos, sei que não alcançamos êxito quando nos dispusemos a lutar contra essa indigna realidade e a fim de alcançar nossa liberdade. Mas as falhas não querem dizer que é o fim, que não nos resta nenhuma outra tentativa, elas apenas indicam que não fomos felizes em nossos passos, que precisamos redefini-los, a cada nova tentativa alcançamos maior força! Por isso convoco-os a levantarem suas cabeças, erguerem os seus olhos e combaterem em nome dos próprios sonhos, dos próprios desejos. Se não lutarmos pelo que almejamos, ninguém o fará!

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