[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 26 - Pequena Luz


Capítulo 26 – Pequena Luz

É quando menos esperamos que as surpresas aparecem, que as reviravoltas nos envolvem e a página é virada, um novo capítulo é iniciado, uma nova  e agradável fase nos é oferecida para que vivamos sorridentes, confiantes, leves, desejosos por aproveitar cada gota daquilo que um dia nos foi negado ou arrancado de nossas mãos.
Felipe, confuso ao que sentia, sem entender ao certo os estranhos sentimentos que nasceram em seu ser, apenas agradecia por ter a oportunidade de viver dias impensáveis. Quando poderia pensar no simples direito de conversar com alguém de igual para igual? Quando poderia pensar que alguém cujo povo o dominava barbaramente mais se assemelharia a um amigo? Agradecia pela reviravolta, agradecia por ter a chance de se sentir humano.
— Admiro tanto aqueles que conseguem fazer magia através de instrumentos que ao meu conhecimento são complexos demais... — Sara, permitindo-se à descoberta, tomou entre as mãos o violino tão bem afinado, observava-o curiosa, arriscou colocá-lo no ombro e assumir a posição dos admiráveis violinistas —. Não é para mim! — atrapalhada na forma como aprumava o instrumento de cordas, a jovem garota desistiu da intenção.
— Admito que não foi fácil no começo, mas com observação e persistência consegui aprender o básico — o adolescente recuperou o violino —. Fique ereta — sugeriu —, não sairá daqui sem ao menos fazer soar uma nota! — mostrou-se prestativo a ensinar.
— Quanta ousadia a minha — atendendo à recomendação, Sara sentiu um pequeno frio percorrer seu corpo quando o mais novo amigo se aproximou ajudando-a a segurar o instrumento.
Felipe, por sua vez, despretensioso ao oferecer ajuda, ficou ainda mais curioso quanto aos próprios sentimentos ao tocar os dedos delicados e posicioná-los no braço do violino. As desconhecidas sensações ganharam intensidade quando endireitou os ombros da garota e auxiliou no manuseio do arco.
Afastou-se.
Embora quisesse permanecer naquela proximidade, afastou-se.
— É só isso? — Sara, apesar de rígida pela inexperiência, já se sentia uma verdadeira musicista, começava a cultivar admiração pelo violino, talvez seu interesse ganhasse proporções e ela se dedicasse ao estudo da música.
— Basicamente... — o jovem músico, encantado pela figura diante os seus olhos, procurou conter os pensamentos, esquivar-se de desconhecidas emoções, julgou-se desequilibrado em seu juízo —. Agora escolha qualquer corda e deslize sobre ela o arco, não precisa usar a força, mas seja firme — como um verdadeiro técnico, o jovem garoto instruiu.
Com certa dificuldade a adolescente seguiu as recomendações, mas o som saiu desconfigurado, arranhando, seco aos ouvidos. Era o resultado da inexperiência.
— Acho que agredi seus ouvidos — Sara sorriu constrangida.
— Não se incomode, nem o melhor dos músicos soube como tirar as primeiras notas — atencioso e sempre gentil, Felipe voltou à aproximação que o confundia, colocou-se atrás da aprendiz, cobriu o braço que sustentava o violino e envolveu a mão que guiava o arco, ajudou a curiosa moça em sua aventura, ajudou-a até mesmo a soar uma melodia.
O toque estava agradável.
Para ambos.
Nenhum dos dois compreendia o que se passava nos corações inocentes ao amor, inexperientes nas questões sentimentais, apenas tinham uma certeza: desde o primeiro momento no qual se viram foram atingidos pelo desejo de se conhecerem, de passarem algum tempo juntos, de vencerem as horas através de agradáveis diálogos.
Até então concentrado em auxiliar a amiga em sua primeira experiência com a música, Felipe desviou a atenção para o rosto próximo ao seu, admirou-se pela suavidade da pele, pela maciez convidativa ao toque, quando percebeu estava prestes a beijar a face de Sara.
Afastou-se mais uma vez.
Recobrou a consciência.

Enquanto os dois sonhadores adolescentes fortaleciam a amizade que entre eles nascera, Victor e Rute, duas pessoas já marcadas por tantas e intensas vivências, permaneciam na sala de jantar, desvendavam-se, conheciam um ao outro, mal percebiam o correr do relógio.
— Sua coragem me surpreende, poucos teriam tamanha valentia ao ponto de combaterem a opressão colocando-se ao lado dos oprimidos. Você é o verdadeiro reacionário! — a mulher, que também discordava da realidade escravocrata, valorizava aqueles que iam além das palavras, aqueles que davam vida aos discursos.
— Devo confessar que não me sinto nenhum herói ou nenhum ser humano extraordinário, tenho a convicção de que o que faço é apenas seguir a humanidade que possuo. Sou livre, tenho direitos, por que os meus iguais não podem usufruir da mesma liberdade? — questionou para si mesmo, era a reflexão que constantemente fazia a fim de obter explicação para a crueldade —. Mas Felipe é um garoto especial, tão jovem, mas já maduro quando ao que quer nessa vida. Possui esse talento incrível, seria injusto que continuasse silenciado.
— Também não posso aceitar que pessoas como ele, cheios de sonhos e talentos, sejam privadas de seus anseios barbaramente, fico ainda mais incomodada com a concordância de uma sociedade hipócrita que apregoa sua religião, mas não vive seus princípios — atenta aos brilhantes olhos que a encaravam, vendo o reflexo da luz dos lampiões nas íris castanhas, a mulher mascarada expôs a indignação que cultivava —. Mas por que se dedica a essa luta?
— Meu pai era um reacionário que odiava os opressores, detestava o funcionamento dessa civilização que trata como bicho uma parcela e à outra concede toda a sorte de privilégios. Ele não ficava apenas na fala, agia sem medo algum, mas sua conduta o levou a ser morto por aqueles que se apavoram quando sentem que seu poder está ameaçado — fez uma pausa, como em todas as vezes que se recordava do amado e admirado pai, sentiu o coração ser espremido pela dor da saudade —. Permaneço nessa batalha por ele, para honrar a memória de alguém que amei, alguém que me livrou da ignorância e permitiu que hoje eu fosse um homem do bem, um homem capaz de sentir a dor do seu igual...
— Linda fala... — Rute se emocionou —. Quem me dera ter tido essa sorte: ter um pai compreensivo e humano, seria mais feliz...
— Seu passado não foi agradável?
Diante de tão íntima pergunta a mulher solitária fez silêncio, observou o anfitrião do agradável jantar enquanto rememorava a própria história, os dias passados, os tempos sombrios. Abrir-se-ia a Victor, sentiu confiança no homem que com tanta boa vontade a recebeu, que com tanto respeito a tratava, que em momento algum se mostrou um sujeito grosseiro ou intolerante. Naquela noite, depois de tantos anos isolada do mundo e de seus prazeres, Rute decidiu desabafar.
— Vivi um amor inconsequente quando mais jovem. Entreguei-me cegamente a uma paixão que existia apenas para mim. Ao invés de aproveitar a rara oportunidade de escolher com quem me casaria, ao invés de usufruir desse direito que meu pai me concedeu e fazer uma escolha certa e sábia, optei pelo errado, deixei-me cegar pelo encanto e terminei desrespeitada pelo único que acreditava jamais ser capaz. Engravidei. Não pude esconder por muito tempo e nem pude escapar da ira de um homem rígido em seus princípios. No dia que revelei a verdade ganhei marcas no coração, marcas que até hoje doem e incomodam, mas, além disso, ganhei marcas no rosto... — levou a mão a mascara jamais removida —. Todos os dias revivo os piores momentos da minha história.
Tudo foi esclarecido. Como de costume, as pessoas estavam tremendamente equivocadas, Rute não se tratava de uma mulher arrogante ou má, ao contrário, Victor descobriu uma mulher machucada, sensível, que queria seus sonhos de volta, mas não possuía coragem de procurá-los.
— Eu sinto muito... — querendo transmitir apoio, demonstrar que poderia ser um amigo sincero, o homem de valente e destemido coração tocou a mão que descansava sobre a mesa, seus olhos não se desviaram das íris ofuscadas —. Eu sinto muito que tenha passado por experiências ruins, que tenha confiado em pessoas duvidosas, mas se me permite a um conselho, acredito que todos nós passamos por dias difíceis, no entanto não podemos deixar que eles nos afoguem... Veja Felipe, mesmo com uma realidade sofredora lutou para que hoje tivesse um pouco de paz, somos capazes de ascender às frustrações e proibir que interferências externas prejudiquem nosso futuro — rompeu o agradável toque, desfez a união entre as peles –. Há grandes oportunidades esperando para serem vividas.

Rute não verbalizou, mas aquele discurso mexeu em seu íntimo, em sua visão, despertou uma pequena luz na mente cercada por sombras.


##
No próximo capítulo:

— Não fale nada sobre o meu filho! — no instinto materno de proteger aquele que lhe pertencia, Adelaide segurou a mão que acariciava sua face, encarou o olhar intimidador sem transmitir receio, se fosse para defender os seus filhos ela se transformava na pior das feras.
— Como suspeitava, o segredo não é seu, mas você age como cúmplice! — forte, o homem perverso forçou que a mão que o continha se abaixasse, segurou com maior força a perna exposta, tornou a acariciar o semblante surpreso, mas desta vez com despudor —. Ele e Ana, a filha do barão, do homem que o mataria sem pestanejar, vivem uma relação às escondidas! — anunciou o que sabia, o que era verdade —. Nem queira distorcer o que sei, meus olhos a tudo assistiram! — foi convicto em sua defesa.

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