[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 38 - Estar com quem se ama
Capítulo 38 –
Estar com Quem se Ama
Estar
com quem se ama. Para alguns pode ser a mais prazerosa experiência da vida, a
mais satisfatória conquista realizada, a realidade mais bem vivida, instantes
de liberdade, desfrute e regozijo. No entanto, o que para uns é uma dádiva do
curso natural do viver, para outros pode ser razão de insegurança, medo e
pavor, estar com quem se ama pode ser um risco perigoso a correr, imã de
fatalidades, de finais trágicos e infelizes.
Mas
quem resiste ao ímpeto de provar do amor de quem se ama?
Como
é possível vencer a desejos intensos que nascem do coração?
Ana
e Artur, desde sempre amantes, condenados a se amarem, sim, condenados. Talvez,
se tivessem domínio sobre as próprias emoções, se tivessem a liberdade de
mandar sobre o amor, não teriam escolhido um ao outro para amar, não optariam
por viver perigosamente, experimentar algo que custaria suas vidas, mas foram
condenados a esse amor tão intenso, íntimo, que nunca se esvaía de suas almas
sedentas por carinhos inesgotáveis e afetos inexprimíveis.
—
Hoje é o grande dia... — deitados sobre a relva, envoltos pela mata que os
escondia para que o amor resplandecesse, rapaz e moça estavam virados um para o
outro, encaravam-se com ternura, acariciavam os rostos cheios de apreço —. A
nata dessa sociedade apodrecida se reunirá para exibicionismos enjoativos,
muitos lucrarão expondo negros talentosos, repletos de dom às artes, que não
receberão a menor das quantias por tornarem a noite dessa gente detestável em
algo agradável... — Ana, sem o menor desejo de no baile estar, reclamou seu
pensamento, a forma como julgava aqueles encontros dos quais participava —.
Queria ao menos que estivesse ao meu lado...
—
Leve-me, leve-me com você... — seus olhos suplicavam junto às palavras —.
Leve-me em seus intentos, aconchegue-me em seu coração, não poderia estar em
melhor lugar! — assegurou sua maior verdade, mas no fundo, mesmo conhecendo as
tantas e maléficas limitações, também era seu anseio estar ao lado da amada
perante toda uma sociedade, expondo seus sentimentos, declarando seus sinceros
afetos —. Felipe sempre sonhou em participar dos saraus que seu pai promovia,
sempre quis ser uma das estrelas que tocavam nas festas, de longe admirava os
músicos, em especial os violinistas, seus olhos brilhavam, ficava dias
treinando os movimentos que observava... Quem dera tal pretensão fosse
alcançada.
—
Conheço o talento de seu irmão, sua música é capaz de acalmar as tempestades e
aliviar o coração, sempre apreciei ouvi-lo, não entendo como alguém como o meu
pai, cheio de ganância, não se aproveitou desse ornamento, ao menos ele estaria
praticando o que amava...
—
Seu pai sempre o desprezou por ser negro, a maior justificativa, e por ser
manco, algo que o desqualificou ainda mais aos olhos altivos... Mas não sei se
seria realmente feliz tocando por obrigação, tocando a fim de aumentar as
riquezas de alguém que transborda tesouros...
—
Mas não se abata, lembro-me perfeitamente da promessa que fiz, vou encontrá-lo
e lutarei com todas as forças para que seja aplaudido e venerado pelo próprio
trabalho! — a promessa que fazia estava reforçada pelos sentimentos que o
namorado em seu ser excitava.
—
Fico feliz pela certeza de que posso contar com o seu apoio, mais que apenas
isso... — aproximou-se da encantadora dama, provou da doçura de seus lábios —,
sinto-me afortunado pelo seu amor... — acariciou os cabelos castanhos, fios
dançantes e charmosos —. Mesmo que ao seu lado esteja um outro alguém, não se
esqueça de mim, do quanto estimaria lhe fazer companhia, procuro acreditar que
um dia serei o companheiro que merece...
—
Sei disso, meu querido, e você sabe que não desejo outro alguém além de você
para que me faça companhia... — levou os dedos singelos aos cabelos
encaracolados, queria para sempre experimentar a sensação de ter os dedos
cobertos pelos fios agradáveis ao toque —. Continue nessa crença, eu a alimento
todos os dias...
¤
Examinando
o próprio reflexo no espelho enquanto abotoava o paletó que vestia, Felipe se
sentiu galante pela primeira vez estar tão bem vestido como um nobre
cavalheiro, como os homens de ricas fazendas e grande importância se vestiam.
Colocou os óculos que garantiram à sua face um aspecto diferente, sobre a
cabeça repousou o chapéu que o deixou ainda mais impecável, um cortês
galanteador.
—
Estamos indo a um casamento ou a um simples sarau? — Victor, igualmente bem
apresentável, elogiou o jovem garoto que auxiliou na arrumação —. Temo que
saiamos de lá com um matrimônio selado!
—
Fico grato pelo elogio, mas não é para tanto — respondeu um tanto envergonhado
—. É minha primeira apresentação para um público tão grande, repleto de pessoas
inteligentes, estudiosas, melhores do que eu naquilo que faço — deixava-se
dominar pela humildade —. Preciso dar o meu melhor a começar pela aparência! —
pensava como um profissional, o que buscava incansavelmente ser.
—
Sinto-me enormemente feliz por estar participando desse novo e deleitável
capítulo em sua história, vê-lo tão contente e entusiasmado, sem a preocupação
de ser tratado com a frieza que os escravos vivem, faz valer a pena toda a luta
que promovo, tudo aquilo que defendo!
—
Sou eu quem já não encontra palavras para agradecê-lo! Tudo que fizer essa
noite será dedicado àqueles que me ajudaram, em especial a você, um amigo que
nunca imaginei ter, alguém por quem daria a vida em um gesto de gratidão!
Amistosos,
abraçaram. Representavam boas coisas, agregavam mutuamente um ao outro.
Dado
o horário, homem e adolescente colocaram-se à porta de suas acompanhantes que,
tão logo ouviram o chamado de seus gentis parceiros, foram ao seu encontro.
Felipe,
aturdido por tantos pensamentos que não o deixavam, que a cada hora insistiam e
o levavam a rememorar o harmonioso semblante de Sara, sentiu o coração acelerar
ao vê-la pessoalmente em seu vestido sofisticado, feito para uma dama como ela:
meiga, delicada, simpática e de presença aprazível. Estava vislumbrante tanto
quanto Rute que também fez seu admirador parecer um sujeito enfeitiçado.
—
Está linda... — vencendo os próprios receios, Felipe se arriscou a um elogio enquanto
oferecia o braço para que nele a donzela se enganchasse.
—
Devo dizer o mesmo, caro cavalheiro... — sorridente, como sempre se
apresentava, Sara experimentou a prazerosa ardência que o amor causa no corpo
dos apaixonados, aceitou o que lhe era oferecido, enlaçou-se naquele que também
não se afastava de sua mente dominada pelo início da paixão.
Contemplando
o admirável comportamento de seu amigo, Victor rompeu as próprias barreiras e
imitou sua cordialidade.
—
Quanta elegância em uma só mulher! — o cortês homem cedeu o braço para que ali
se colocasse aquela que tanto admirava, aquela que o conquistara de uma maneira
impossível de resistir, impossível de negar.
—
Gentileza vindo de um nobre sujeito, é uma noite de sorte! — unindo-se ao
companheiro, Rute ofertou o belo sorriso, permitiu-se à brincadeira, decidia
arriscar-se à felicidade.
Os
rapazes encaminharam as damas à carruagem que alugaram, estavam sorridentes,
estupefatos, vislumbrados quanto ao futuro que nunca planejaram, mas que soava
anúncios de aproximação aos seus ouvidos.
O
que ninguém notou foram os olhares severos a eles dirigidos, olhares de
indignação por uma mulher esquisita se dar ao deleite de sair acompanhada e
condenação por um negro e uma branca esbanjarem uma convivência inaceitável.
Olhares de reprovação.
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Você não
precisa aceitar o que pessoas arrogantes determinam, não precisa aceitar uma
vida que não lhe pertence, ao contrário, tem todo o direito de ser quem
verdadeiramente é, só precisa acreditar nesse poder — querendo convencer,
disposta a conquistar o jovem moço com palavras amistosas, Ana enlaçou os
dedos, transmitiu segurança, gesto assistido pelo barão que sorriu satisfeito,
não imaginava que o diálogo desenrolado dava volume à uma conspiração contra o
seu reinado —. Sei que ama ou que ainda amará alguém, mas essa pessoa não sou
eu, nunca seria, meu coração já foi conquistado e não posso negar isso, é
impossível, é inútil, causa dor...
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