[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 44 - Sentimento Traiçoeiro


Capítulo 44 – Sentimento Traiçoeiro

Os olhos não contemplavam a luz. Ao corpo pouco era permitido se mexer. Os ouvidos não recebiam estímulo. A percepção sobre o tempo denunciava que horas de tortura naquela assombrosa prisão já haviam se passado. Mas as lágrimas não cessavam. Laís tentava compreender como alguém era capaz de tanta maldade, como não se importava com os males que causava, tentava compreender também o que errado fizera para ter uma vida tão árdua.
Mas nem sempre as adversidades são a consequência de algo, uma punição merecida, às vezes representam testes que colocam à prova o nosso desejo por vencer, por concretizar nossos sonhos, por alcançar objetivos traçados. Nesse caso, na batalha da vida, é vitorioso o persistente.
Para o agrado da baronesa alguém abriu a porta metálica.
O ambiente fracamente iluminado pelos lampiões espalhados foi revelado aos espantados olhos de Laís que se condoeu pelas correntes grudadas às paredes, pelos diversos instrumentos de tortura ali dispostos e pelas marcas de sangue sobre o chão.
Bruno era o libertador.
Alguém cuja nobreza conhecia.
— Sente-se — o rapaz sugeriu —. Trouxe água e comida — mostrou os mantimentos —. Precisa se alimentar.
— Faz ideia do que está fazendo? — surpresa, a mulher descansou sobre o solo frio, preocupou-se com os riscos que corria aquele bom amigo.
— Cansei de fazer isso — sorrindo, o rapaz se sentou ao lado da boa senhora, gesto que com tanta frequência e com diferentes pessoas realizou —. Acredito que nunca esteve nesse sombrio lugar, mas aqui é onde os escravos são castigados por alguma desobediência e torturados para que revelem algum segredo, onde esteve presa é a solitária, por muitas vezes Frederico lançou alguém aí, nunca tive medo, sempre que pude libertei o injustiçado até que alguém voltasse... Jamais feriria um ser humano, nem contribuiria para essa ignorância, não entendo como chegamos aqui...
— Ao menos não são todos que possuem mentes tão depravadas e perversas, ao menos alguém é dominado por sobriedade e alivia as dores daqueles que agonizam — não resistindo à fome, comendo o que lhe ofertavam, Laís expôs sua reflexão, a que gostaria que todos tivessem.
— É melhor que tome cuidado. Frederico nunca aceitaria ser destratado, a conversa pelos arredores é que a senhora e sua filha o confrontaram perante os escravos, pode ser altamente fatal insistir nesses gestos —. Bruno aconselhou.
— Devo lhe dar razão, hoje senti de perto o poder da fúria do homem com quem me casei, mas não posso esconder que estou preparada para qualquer ameaça, já suportei coisas terríveis ao lado desse monstro, tudo me fortaleceu! — achava que teria forças para novos combates, esquecera-se de que não poderia perder o bom senso na luta contra alguém que desprezava as leis, que se colocava acima das regras —. Além disso, o amor nos engrandece, faz-nos fervorosos à batalha.
— O amor? — o soldado de Frederico dirigiu o olhar descrente à mulher, não tinha razões para acreditar em tal frase —. Estou nessa luta por defender o ser humano, sua dignidade, se agisse por esse sentimento tão traiçoeiro há muito não estaria mais nesse mundo... — desabafou.
— Traiçoeiro? — Laís se interessou.
Suspirando profundamente, o rapaz decidiu dar voz à alma, colocar para fora aquilo que o incomodava, sabia que alcançaria da baronesa a compreensão de que muito necessitava.
— O que fazer quando amamos alguém que não deveríamos? Ou, o que fazer quando o nosso amor jamais seria aceito? Insistir naquilo que nos vitimaria? — levou os olhos ao ambiente de terror, enquanto questionava tentava encontrar as respostas, algo que sempre fizera.
— O amor poderia transformá-lo em vítima?
— Seria perseguido. Até morto.
— Quem você ama?
— Alguém que não deveria...
— Sei o que sente, também amo alguém que não deveria — com a revelação, Laís atraiu a atenção do ouvinte —. Ao contrário de Ana, que ainda tem a chance de passar o resto dos dias ao lado de seu verdadeiro amor, fui privada disso ainda jovem, quando fui entregue a esse sujeito desequilibrado, quando fui obrigada a me distanciar do homem que jamais deixou meus sonhos, meus desejos, que sempre se fez presente em meus devaneios... — os lábios desenharam o singelo sorriso quando o rosto de Heitor surgiu aos olhos apaixonados —. É verdade, sofro por amar esse alguém, padeço por almejar a sua companhia, mas esse mesmo sentimento que me açoita é o que me incentiva a combater, a acreditar que vale a pena persistir para que no futuro possa senti-lo completamente.
Perante tão belo conselho Bruno teve de volta a esperança lhe forjada. Talvez precisasse daquilo: um pouco de persistência.

Passado um dia inteiro da prisão de Laís, Frederico voltou à masmorra ao entardecer do outro dia, abriu a porta metálica, tirou da solitária a esposa, encarou-a de maneira intimidadora, soberba, prepotente.
— Está vendo esse lugar? — apontou para o espaço à sua volta —. Aqui é o cenário de espetáculos muito bem produzidos, emocionantes, que não deixam o espectador experimentar momentos entediantes.
— Isso é loucura... — a baronesa relutou contra a voz embargada, as lágrimas logo se manifestaram.
— Silêncio! — o homem sórdido ordenou —. Se ficar calada, se conseguir silenciar até mesmo a respiração, será capaz de ouvir os gritos, os choros apavorados, as súplicas estrondosas por compaixão e misericórdia — seu semblante doentio esbanjava satisfação pelas lembranças de dores que ali causara.
— Eu não aguento mais... — dando às costas ao marido, Laís olhou para o topo da escada onde, de braços cruzados, estava Sebastião encarando-a com malícia, passou a fitá-lo com ira, como desejava pela ruína daqueles sujeitos desumanos.
— Se não aguenta um simples relato será capaz de aguentar a dor de ter um dente arrancado? Aguentaria ficar presa por horas em um pau-de-arara? Suportaria a ardência de salientes vergões que as chicotadas no tronco causariam às suas costas? — violento, virou o rosto da mulher para si —. Responda-me!
— Não! — o pavor motivou o pranto.
— Então aproveite essa oportunidade, não queria se fazer de criança mimada, não costumo ser um pai tão paciente — seu conselho era, na verdade, uma séria ameaça.

¤

Dominado por seus malditos intentos, desejos pecaminosos, quando as estrelas já povoavam o céu e a noite tragara o dia, Sebastião estacionou o cavalo em frente à senzala, exigiu que Adelaide se colocasse à sua presença, disse que precisaria acompanhá-lo, deu a desculpa de que a baronesa a chamava.
Era mentira.
Ao invés de seguir o trajeto rumo à casa grande, alterou a rota para o meio do mato. Desprezou as palavras da escrava. Avançou por entre as árvores iluminadas pelo luar da noite fria.
À força, tirou a mulher do animal no qual montaram.
Começou a molestá-la deixando claro os seus interesses.
Mas Adelaide, farta de tamanha humilhação, sedenta por justiça nem que precisasse fazê-la com as próprias mãos, empurrou seu abusador, à insistência deste respondeu com ímpeto maior, tapeou-o na face, lançou-o por entre as folhas caídas.
Irado, o capanga pressionou sua vítima contra a robusta rocha que marcava grandiosa presença na floresta, deslizou o afiado canivete sobre a rígida superfície, fez o som vibrar e faíscas brilharem.

— Esqueceu que conheço o seu segredo? — nervoso, falou ao pé do ouvido de Adelaide, fez a barba mal cheirosa roçar sobre o pescoço da oprimida —. Se não se recorda do nosso acordo é bom que saiba que tenho excelente memória! — arrancou a saia da pobre mulher —. Faça prevalecer o amor que sente por seu filho! — deu início à nojenta violência, ao tormento de tantas escravas, à tortura que muitas vezes Adelaide passou em suas mãos desgraçadas.


##
No próximo capítulo:

— E por quem seria que está convicta a lutar dessa maneira?
— Pelo mais especial dos seres humanos — com discrição levou os olhos ao escravo bem vestido, aprumado para a noite na qual trabalharia na casa grande sob a recomendação de evitar ao máximo se aproximar de Ana —. Ele é o meu amor!
Pedro se atentou ao sujeito que abrilhantava o ser de Ana, dirigiu a ele um tímido cumprimento, Artur retribuiu com cautela, encarou os olhos da namorada, abriu o singelo sorriso.
Mas ao grito de Frederico os olhares se dissiparam.
Voltaram-se ao barão que exigiu a atenção de todos.
— Caros amigos, a festa ainda não acabou, mas para quê fique ainda melhor farei uma revelação, a que me enche de orgulho e prazer por compartilhá-la com pessoas queridas para mim — também tinha bebido, estava um pouco mais cortês —. Hoje está acontecendo o noivado entre Pedro e minha filha — surpreendeu —, o casamento se aproxima! — mas cortesia não é o mesmo que compreensão ou humildade.

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