[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 29 - O Sonho da Liberdade
Capítulo
29 – O Sonho da Liberdade
As
coisas mais naturais são também as mais valiosas, no entanto esse valor só é
revelado em momentos de escassez, quando a falta prevalece sobre a abundância e
o fim é a única certeza. Assim é com a saúde, como o amor, com a paz. Assim é
com a liberdade.
O
homem nasceu para ser livre, para estar liberto de amarras, solto de correntes,
para dar asas ao seu poder, à sua mente, à sua vontade. O maior castigo que um
homem pode passar é a privação de sua preciosa e sagrada liberdade. É um ataque
ao espírito criativo. É uma infâmia à alma sonhadora. É sufocante. É opressor.
É revoltante.
Estavam
fartos pelos muitos anos de árdua servidão, estavam exaustos de serem
amedrontados pela tortura, ameaçados pelos instrumentos de dor, coagidos pelos
meios de insuportável sofrimento. Estavam cansados de imaginarem uma liberdade
distante, liberdade que nunca chegava, que ao parecer próxima se revelava uma
grande miragem. Queriam voltar a sonhar, a acreditar, a viver uma vida digna.
Aos
gritos de guerra, aos clamores de luta motivados pela ânsia de glória, os
homens voltaram a treinar golpes aprendidos com seus ancestrais. A senzala
fervia, a esperança ressurgia.
As
mulheres, ansiosas pela paz, desejosas por uma realidade justa e segura,
juntavam-se naquela comunhão guerreira, naquela união que visava a derrocada do
inimigo, a derrubada do opressor e o enterro de um sistema perverso, cruel, que
fortalecia a liberdade de uns a partir da sangrenta prisão de outros.
No
entanto foram descuidados.
Foram
imprudentes.
Sebastião,
atento ao agito da senzala, contemplando as sombras agitadas do ambiente
iluminado pela fogueira ao seu centro, aproximou-se a passos sorrateiros,
concluiu que levantavam um motim contra a fazenda, a partir dos golpes
ensaiados teve a certeza de que dessa vez não atacariam precipitadamente, ao
contrário, planejavam seus passos.
Comportando-se
da bárbara forma como sempre agiu, o capanga correu ao encontro do poderoso
barão, encontrou-o no escritório da casa grande, não hesitou em denunciar o que
acreditava ser a intenção dos negros exauridos das muitas lágrimas.
Frederico,
permanecendo em sua arrogante forma de viver e enxergar seus iguais,
revoltou-se atrás da mesa abarrotada de papéis. Levantou-se furioso, exigiu a
companhia de soldados, resolveria pessoalmente o impasse que se apresentava antes
que a situação tomasse força e saísse de controle.
Disparos
seguidos.
Os
escravos se imobilizaram.
O
sujeito impiedoso escancarou os portões revelando sua assombrosa presença.
Um
silêncio estrondoso tomou conta da senzala, silêncio de temor e pavor, silêncio
que ardia aos ouvidos de Artur, o rapaz destemido que interpretava tal quietude
como consequência do pânico que constantemente afrontava o seu povo.
—
Bando de ingratos! — o barão enraivecido esbravejou, sua voz rude causava
arrepios nos oprimidos —. Comem às minhas custas, bebem por minha causa e abrem
os olhos todas as manhãs porque assim permito e ainda ousam intentar um
confronto? — espantou pela afirmação que fazia, pela ágil descoberta que fizera
—. Esquecem-se de que possuo em mãos o poder da morte? Ela pode ser tão rápida
quanto prazerosamente demorada, tudo depende do meu humor, o qual, asseguro,
não tem passado por bons dias! — angustiou.
O
silêncio persistia.
Ninguém
se atrevia a quebrá-lo.
—
Quem é o insensato que estimulou essa loucura?
Ninguém
se apresentou. Ninguém se apresentaria.
Artur,
contudo, irado pelo duro pesar que assolava os seus irmãos, desejoso por
conquistar a confiança daquela gente, fazê-la acreditar na própria força e,
assim, liderar a batalha contra o cativeiro, colocou-se diante de todos,
manteve a cabeça erguida e o peito aberto, encarou o tirano de igual para
igual.
—
Fui eu! — a voz cravou nos ouvidos de Frederico.
¤
Os
pássaros, em cada amanhecer, cantam alegres e fervorosos, garantem música ao
espetáculo do nascer do sol, do dissipar das trevas e do ressurgir da luz.
Porém, se forem aprisionados, injustamente encarcerados, o canto cessa, a
música se encerra e a beleza do amanhecer perde uma importante parte de seu
admirável fulgor.
Assim
é com seres humanos privados da independência, perdem o prazer pela vida, a
fulgência dos olhos, a vivacidade da alma.
Assim
estava sendo com Pedro, o rapaz destinado a se casar com Ana, obrigado a se
voltar contra sua própria felicidade, contra os seus próprios sonhos. Estava
desesperançoso, descrente, desanimado, não era mais o poeta sonhador cujas
palavras escritas ou faladas tocavam o coração de quem as ouvisse.
—
Não vai falar nada? — durante o jantar, como há dias vinha acontecendo, o jovem
permaneceu em sua mudez, comportamento que incomodava o pai, sempre acostumado
com as boas conversas, saudoso pelo amigo que encontrara no filho embora não o
confessasse.
Pedro
agiu como se nenhuma pergunta fora feita.
—
Já chega! — Egídio lançou os talheres sobre a mesa, atraiu a atenção do rapaz
—. Está agindo desse modo infantil apenas por que terá que casar com uma linda
moça? Gostaria de compreender as razões para essa estranha revolta!
—
Não me importo com belezas exteriores, nem com condições materiais, para mim o
que basta é que exista uma alma nobre por trás de qualquer que seja o rosto! —
respondeu citando a filosofia que cultivava.
—
Está dizendo que Ana não é uma valorosa pessoa?
—
Quero dizer que preciso amar para, então, me entregar a alguém ao ponto de
construir uma vida, ter conquistas, escrever uma história! — encarou o severo
olhar do homem que sempre se mostrara compreensivo, gentil, mas que se deixara
encantar por palavras ardilosas de um sujeito desumano —. Não amo Ana, não a
desejo como alguém com quem passaria o resto dos meus dias, esperava que
compreendesse minha vontade...
—
Não ache que sou um homem cruel, se aceitei essa proposta foi pensando no seu
futuro, procurando valorizar seu talento para os negócios, a inteligência que
possui, estar próximo ao barão é a garantia de ascensão!
—
E acha justo usar as pessoas dessa forma? Acha justo mexer em seus sentimentos
por uma razão tão simplória? É melhor ser miserável, mas feliz, do que ser o
mais poderoso dos homens, mas submerso em lastimável melancolia! Além do mais,
muito me espanta vê-lo de comum acordo a um homem que escraviza seres humanos e
os trata com aperto.
—
Não levante falsas acusações ao querer se defender!
—
O tempo dirá se minhas palavras retratam a realidade ou se não passam de um
desesperado argumento — retirou-se, deixou plantada a dúvida, só não sabia se
era o suficiente para evitar que sua vida fosse conturbada por decisões alheias
à sua vontade.
¤
Frederico
se sentiu afrontado, desafiado, desrespeitado. Seus severos e obscuros olhos
analisaram o filho de Adelaide, o rapaz que outras vezes já o desagradara, o
escravo que em diferentes ocasiões se mostrara um rebelde destemido.
—
Estou farto de suas perturbações! — cedeu um forte tapa contra o rosto de Artur
—. Levem-no! Passou da hora de aprender a me respeitar! — proclamou —. Quanto a
vocês, passarão a noite trancados, terão muito tempo para recuperarem a
sensatez e retornarem à certeza de que além de inútil é um ato suicida se
voltar contra as minhas ordens! — deixou a senzala despertando o medo, a angústia,
e a receosa curiosidade quanto ao que sucederia ao escravo destemido.
Abaixo
da casa grande existia uma construção subterrânea, onde funcionava a masmorra,
lugar de tortura, dor e calor opressor. Para lá levaram Artur, para os momentos
de crueldade que teria que enfrentar, que desejaria amargamente esquecer.
—
É tão difícil se comportar como o insignificante que é? — algemando o rapaz,
Frederico o lançou contra o chão —. O que almeja ao me provocar?! — chutava o
vulnerável escravo —. Por acaso é mais um dos pecadores que a partir da dor
alcançam prazer?! — seus pontapés causavam hematomas no corpo exposto —. Mas
terá tempo e privacidade para reorganizar os pensamentos, acalmar esse espírito
doentio e implorar por misericórdia! — ergueu Artur de maneira violenta,
puxando-o pelos cabelos encaracolados —. Depois dessa noite duvido que voltará
a me desafiar!
Impiedoso,
o barão de São Pedro lançou o rapaz maltratado contra uma espécie de quartinho,
era apertado, mal cabia o filho de Adelaide em pé, seu corpo sofreria com o
desconforto de um ambiente espremido.
A
porta de metal foi trancada.
Artur
foi largado na indesejável solitária.
Continua...
##
No
próximo capítulo:
Com as mãos imobilizadas,
colocadas às suas costas, Artur via apenas a escuridão mesmo mantendo os olhos
abertos, desesperados por um pouco de luz, desejosos por contemplar o mundo e
sua liberdade. O ambiente além de apertado era quente, o silêncio horripilante
permitia que o som de animais peçonhentos fossem ouvidos nitidamente. O suor
começou a escorrer. A alma se apavorou. O choro assistido por ninguém e colhido
por nenhuma mão foi derramado. A tortura era grande. A crueldade era
intimidadora.
De segunda a sexta, aqui no blog!
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