[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 24 - Recomeçar


Capítulo 24 – Recomeçar

Muitos não acreditam, tantos desconfiam e se entregam aos pensamentos contrários, mas para que haja mais uma chance de recomeçar basta que estejamos vivos, que tenhamos o fôlego da vida, que tenhamos a consciência de um futuro melhor.
É compreensível que o medo trave as pernas e escureça os horizontes, passar por dores traumáticas não é nem um pouco vantajoso, diversas almas são afligidas por lembranças pesadas, memórias cruéis, nuvens que escondem a luz. Mas precisam ter esperanças, precisam ter forças, precisam ter crença que o dia de paz e alívio chegará se por ele buscarmos incansavelmente.
Rute, encarando-se no espelho, ajeitando os cabelos sob a luz do lampião, sentia o coração ansioso, sentia nervosismo, um misto de sensações entre coragem e temor, vontade e desânimo, força e fragilidade. Preparava-se para o jantar com o vizinho gentil, preparava-se para uma noite que transformaria sua vida, mudaria o padrão que há tantos anos repetia, traria novidade, poderia atrair de volta a luz que se fora.
Queria crer, queria acalmar a alma e se encher de paz, de certeza que merecia dias melhores, que merecia recompensa pelas muitas lágrimas derramadas, pela triste solidão a qual sucumbiu. Merecia contemplar novos olhares, novos sorrisos, ouvir novas histórias, criar amizades, voltar a viver. Porém o medo ainda existia, o medo de ser feliz, medo de se mostrar e servir de aberração, de zombaria, medo de ser vista como uma coitada, medo de ser rejeitada.
— Está linda! — Sara, acostumada a ver sua ama sempre vestida de preto e com os cabelos presos, espantou-se ao entrar em seu quarto e encontrá-la ainda com vestimentas escuras, mas com os fios soltos, libertos para acompanharem o vento em uma agradável dança, libertos para exibirem brilho, suavidade e elegância.
— Achou mesmo? — a pobre mulher, sempre negligente com a beleza desde que sua história tomou rumos inimagináveis, abriu um discreto sorriso motivado pelo elogio, o mesmo sorriso de quando mais jovem se preparava para os bailes da cidade e sua mãe a enaltecia com elogios imensos. Sentiu-se bem, como há tanto não se sentia.
— Se soubesse que se entusiasmaria tanto com uma noite diferente do habitual, teria marcado algo há muito tempo! — a adolescente celebrou —. Fico feliz que esteja vencendo seus anseios e se permitindo a momentos de novidade, precisa se convencer de que a vida flui, não é estática, sempre haverá boas novas!
— Tenho minhas dúvidas — levou os olhos ainda ofuscados à jovem adolescente —. Não me sinto tão segura quanto possa parecer, não sei se o que estou fazendo é o certo, mas também não poderia deixá-la sozinha, sei o quanto aprecia a música que soa aos nossos ouvidos e sei que possui certa simpatia pelo vizinho, mas ainda assim sinto medo do que possa ouvir, presenciar, de como reagirão...
— Fico grata por se esforçar dessa forma, não acho que mereço, mas se é uma forma para que respire novos ares, não posso me arrepender por ser tão insistente — aproximou-se de Rute, apoiou as mãos em seus ombros, encarou-a através dos reflexos no espelho —. Não se importe tanto com os outros, não se incomode de maneira sofredora com as palavras de pessoas que nada sabem e nem representam, deve se preocupar apenas em estar feliz e fazer com que aqueles que ama sintam a mesma felicidade — aconselhou.
— Você é uma boa menina — a mulher cobriu a mão que a tocava —, sua mãe se sentiria muito orgulhosa — confessou o próprio sentimento, o que precisava encobrir, o que para sempre esconderia, queria evitar dores, choros, dissensões, queria evitar ser tida como fraca, vulnerável, alguém que não teve a capacidade de lutar pela única coisa que possuía.
O assunto mãe era algo que tocava Sara, conhecia a história lhe contada e acreditava nela, porém não dizia que desejava alcançar esclarecimentos maiores, que pudessem machucá-la, que lhe revelassem o porquê de ter sido renegada.
— Conheceu minha mãe? — questionou.
Rute, acompanhada além das memórias de um passado sombrio, tinha também a companhia de um segredo cruel. Incomodou-se com a pergunta, mas não pôde se desesperar nem se revoltar, tinha ciência de que um dia Sara se voltaria ao próprio passado, faria perguntas delicadas, todos almejam saber quem são e como chegaram onde estão.
— Muito pouco, nada extraordinário.
— E o que seria esse pouco?
— Era uma pessoa agradável, tinha os seus sonhos, não era dominada por maldades, mas foi ferida, não soube como reagir, não teve estrutura para acolher uma filha, foi quando suplicou a minha ajuda e o restante você já conhece...
— E quanto ao meu pai?
Seu primeiro amor.
Sua primeira grande decepção.
— Estamos atrasadas — Rute se esquivou de mexer numa ferida ainda aberta —, teremos outras oportunidades para que alcance todas as respostas...

¤

É quando mais precisamos desabafar nossas angústias, recostar a cabeça num ombro amigo, ouvir palavras que confortem nossas almas contristadas, que recorremos àqueles que amamos, nos quais depositamos confiança, aos quais entregamos nossos maiores sentimentos e revelamos os mais íntimos segredos. Quem nos ama de verdade sabe como nos acolher, mesmo que não digam nada, nem uma palavra, a fiel companhia assegura que não estamos sozinhos nesse mundo.
Artur, abalado, recorreu àquela que amava, àquela que dominava seus pensamentos e guiava seus desejos. Tão logo anoiteceu e cada um se colocou em seu lugar, o jovem escravo escalou a parede, pulou a varanda, bateu na porta de madeira ansioso por contemplar o meigo olhar que lhe transmitia segurança.
— O que houve? — nem teve tempo para se espantar, tão logo abrira a porta Ana acolheu o choroso rapaz, nunca o vira daquela forma, tão desesperado —. Sente-se — levou-o à cama, trancou a porta que dava acesso ao corredor do casarão, precisavam se proteger —. Acalme-se! — levou a mão ao rosto molhado, colheu as lágrimas, sentiu o peito arder —. Não é tão tarde, correu um grande risco, só pode ser por um importante motivo.
— E é... — recomposto, controlando as fortes emoções, Artur levou o olhar à atenciosa namorada —. Minha mãe recebeu uma notícia desagradável e intrigante, algo que nem queremos imaginar, mas é impossível de fugir dessa dúvida... — começou a revelação —. Naquela noite que tentamos vencer os homens de seu pai, aproveitando a distração de todos, minha mãe levou meu irmão à estrada, ajudou-o a fugir, estávamos confiantes de que chegaria ao quilombo... — o choro voltou —. Mas ele não chegou... Semanas se passaram e só agora ficamos sabendo que ninguém conhece o seu paradeiro... Pode ter sido capturado por outros fazendeiros... — respirou fundo —. Pode estar morto... — aquela era a hipótese menos desejada, mas a mais provável aos corações atribulados.
— Não pense dessa maneira, não cultive pensamentos de desesperança, não permita que seu constante otimismo seja abalado... — Ana, condoída pelo namorado, ofertou suas palavras esperançosas —. Ele é um garoto especial, talentoso, a vida não seria tão injusta...
— Vida? Nós não temos vida. Já nascemos sem ela — revelou o sentimento de tantos seres humanos tratados com crueldade, forjados de sua dignidade.
E mais uma vez, acompanhando o drama de um povo sequestrado de suas origens, capturado de seus costumes, privado de sua cultura, Ana se revoltou internamente, enquanto na sua realidade nasciam com um glorioso futuro a viver, do outro lado nasciam à espera da morte.
— Vai ficar tudo bem... — abraçou o amado —. Prometo que descobrirei o que está acontecendo, não se preocupe tanto, sempre terá a mim em tudo que precisar — era o que prometia, oferecia e cumpria.
Um pouco mais consolado, Artur se despediu da eterna amante, tornou a escalar a parede e pulou sobre o chão empoeirado. Antes de partir olhou para cima, sorriu ao encontrar o sorriso da bela moça.
Mas olhos astutos os assistiram.
Olhos maldosos e traiçoeiros.
Os olhos de Sebastião a tudo acompanharam.

¤

Pela primeira vez após tantos anos de isolamento, Rute tornou a pisar na calçada da própria casa, tornou a sentir o ar livre, a brisa da rua, a sensação de liberdade. Libertava-se ao novo. Ao recomeço. Arriscava-se...

Continua...


##
No próximo capítulo:

— O que foi agora? — Frederico, revoltado pelo distanciamento da esposa, tendo negado o que pensava ser seu direito de marido, dispensou um soco contra a cama, sua voz soou áspera aos ouvidos singelos, suas mãos cruéis forçaram que o rosto sereno se voltasse a ele —. Acha sensato repudiar a mim? Acha inteligente recusar-se a mim? — encarava-a com olhos que ardiam de desejo, um desejo sem sentimento, um desejo indecente, simplesmente carnal.
— Como consegue ser tão egoísta e insensível? — a baronesa, querendo se livrar da possessão de um sujeito descontrolado e nojento, encarou-o intimando explicações para os comportamentos malvistos —. É um esposo mesquinho, pensa apenas em seus prazeres e pouco se importa com o amor... É um pai autoritário, exige da própria filha um sacrifício insuportável e age como se não sentisse nem uma gota de remorso... Acha mesmo que sinto algum desejo por você?

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