[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 30 - Provação
Capítulo 30 – Provação
De
tantas e inúmeras formas somos provados, desafiados, passamos por testes que
colocam ao fogo nossa resistência, que mensuram o tamanho da nossa força. E
durante tais provações o medo pode aparecer, o sentimento de desamparo pode nos
assustar, a solidão talvez pareça nossa única companhia e a descrença quanto ao
sucesso a única certeza.
Com
as mãos imobilizadas, colocadas às suas costas, Artur via apenas a escuridão
mesmo mantendo os olhos abertos, desesperados por um pouco de luz, desejosos
por contemplar o mundo e sua liberdade. O ambiente além de apertado era quente,
o silêncio horripilante permitia que o som de animais peçonhentos fossem
ouvidos nitidamente. O suor começou a escorrer. A alma se apavorou. O choro
assistido por ninguém e colhido por nenhuma mão foi derramado. A tortura era
grande. A crueldade era intimidadora.
Sempre
ouviu os conselhos de sua mãe e dos demais antigos escravos, conselhos que
tentavam despertar o medo naquele espírito rebelde, conselhos que retratavam as
desprezíveis experiências que homens guerreiros foram obrigados a viver, a
suportar, muitos dos quais não tiveram a sorte de resistir aos infortúnios.
Porém,
se acreditavam piamente que o torturando daquela forma causariam sua
intimidação, estavam ironicamente enganados, ao invés de enfraquecerem seus
braços enchiam-no de forças, de vontade por vencer, de calar os opressores para
que nunca mais tivesse que ouvir suas ordens nefastas e suas humilhações
arrogantes. O choro não era apenas pelo medo momentâneo que arrepiou sua pele
nem pela sensação de indignidade que experimentava, ia muito além de suas
íntimas questões, era derramado em memória daqueles que estiveram em seu lugar,
que sofreram as mesmas dores, que foram entregues a vertigens ainda maiores,
que morreram da forma mais indigna possível, sem estarem com o seu povo, sem
terem a chance da despedida.
Reuniria
coragem.
Sairia
do lugar sombrio mais forte de como chegara.
¤
Em
mais uma manhã de glorioso sol, à beira do longínquo rio que não se cansava de
oferecer suas águas, Ana estava sentada sobre a relva observando os animais
aquáticos que se agitavam de um canto ao outro. Estava sozinha, sem a
costumeira e querida companhia, o que era curiosamente estranho já que Artur
nunca se atrasava, ao contrário, era sempre o primeiro a chegar, era quem a
recebia com o lindo sorriso estampado na face. A filha do poderoso barão
descobriu o quanto valorizava aqueles encontros, o quanto era especial ser
recebida com afetos infinitos, percebeu que se algum dia aquilo acabasse nada
mais teria razão.
Mas
ao som de passos cautelosos seus próprios lábios desenharam a curva do
contentamento. Os olhos brilhantes se viraram para trás. No entanto, o
semblante alegre mudou a feição, ficou surpreso, não era Artur quem se
aproximava, mas sua mãe vestindo um rosto angustiado.
—
Deve estar se perguntando sobre o que aconteceu, temo não ter as melhores
notícias — Adelaide, decifrando o olhar da jovem mulher, adiantou-se em falar —.
Artur não virá hoje, foi castigado por Frederico durante a noite e desde então
não o vemos.
O
anúncio soou como soa o furioso trovão.
Ana,
perplexa pelo que ouvira, empalideceu-se instantaneamente, parecia provar de
uma surra impiedosa, além do corpo, o coração se sentiu espremido.
—
Não pode ser... — a voz embargou, os olhos se encheram d’água, a alma se
apavorou —. Isso não pode acontecer... — encarou Adelaide como se quisesse
mudar a verdade, como se tivesse a esperança de que tudo não passava de uma
péssima brincadeira —. Precisa dizer que é mentira! — as lágrimas rolaram pelo
rosto sereno, imaginar por quais dores passava o amado era altamente
angustiante.
—
Gostaria de atender ao seu rogo, mas jamais mentiria sobre algo tão
estarrecedor... — a escrava, também aflita por aquele que gerou, alimentou e
protegeu enquanto pôde, acolheu a moça em um abraço de consolo, o abraço que
sempre necessitariam quando as adversidades se apresentassem —. Não se
desespere dessa forma, acalme o coração e mentalize esperança, acredite que
tudo ficará bem, que Artur está seguro...
—
Seguro nas mãos daquele monstro? — Ana discordou completamente —. O que mais
dói é saber que ele experimentará amargas angústias a partir da crueldade do
homem que a vida me deu por pai, aquele que deveria se alegrar pela minha
felicidade será quem atormentará aquele que mais amo, o único que
verdadeiramente se fez especial na minha história! E o que eu posso fazer para
evitar?! — dirigiu o olhar questionador à mulher que trouxera ao mundo o ser
humano que fazia dos seus dias os mais românticos e floridos.
—
Não se condene pelo que não pode fazer, sabe que seria pior — limpou o rosto
molhado pelo pranto —. Aquilo que está ao seu alcance tem feito sem hesitar,
tem amado o meu filho como ele merece, tem tornado essa realidade injusta um
pouco mais suportável a ele e vê-lo tão feliz por possuir o seu amor é o que me
conforta, é o que me ajuda a também suportar tanta desventura.
—
Qual foi a justificativa da vez?
—
Artur nos incentivou a treinar nossa luta, a nos prepararmos para embates
futuros, mas o barão descobriu, exigiu que o responsável se apresentasse e o
meu filho, sempre tão valente e honesto, colocou-se imponente perante aquele
homem... Sei que todas as manhãs se encontram nesse lugar, não poderia deixá-la
sem explicações, conheço o seu amor, tenho a certeza de que é verdadeiro, e a
noção do quanto padece por ele.
—
Farei o possível para encontrá-lo!
—
É imprudente — a escrava alertou —. Haja com sobriedade, se em sua busca
desenfreada acabar descoberta, nenhuma desculpa convencerá. Vá para casa, faça
suas preces, tão logo Artur nos seja devolvido darei um jeito de avisá-la para
que consiga ter paz.
Compreensiva,
Ana deu razão ao conselho, entendeu que era perigoso sair à caçada, o mais
sensato seria se manter em alerta e aguardar pacientemente.
—
Perdoe-me por tudo isso, imagino o quanto esteja sofrendo — antes de partir, a
jovem mulher suplicou o perdão daquela que teria por sogra.
—
Não se preocupe com isso, não é você a responsável por essa loucura, é tão
vítima quanto nós e desejo boa sorte na empreitada...
¤
Ainda
cedo, quando a brisa da manhã era fria e suave, Frederico montou em seu cavalo
pomposo, faria ele mesmo a ronda pela fazenda, verificaria se após a noite
aprisionados os escravos estavam cuidadosos em seu comportamento.
—
Quer que traga o rebelde? — Sebastião, acompanhando o cruel barão, lembrou-se
do jovem escravo.
—
Não ainda, quero que passe o dia todo com os próprios pensamentos, quem sabe
assim aprenda a se recolher ao seu devido lugar? Terá sorte se sobreviver!
—
Acredito que sobreviver não será difícil, ele é como os animais que para abater
precisamos de árdua violência, mas também não acredito que vá sair do castigo
agindo com humildade, vejo nele uma ousadia sem tamanho — sabia do que estava
falando, conhecia o segredo tão bem guardado, há muito tempo sustentado —. Das
próximas vezes precisará ser mais enérgico.
—
Não queria confessar, mas tem razão, domá-lo não será fácil, mas preciso
fazê-lo antes que contamine os demais com essa valentia enojante — mantinha o
olhar severo sobre os incansáveis trabalhadores, intimidava-os com sua
cautelosa observação.
—
O rapaz que ordenou que vigiasse Laís em sua ida à cidade trouxe informações,
acredito que não se agradará delas — o capanga mudou de assunto, mudou o foco
de sua astúcia à pobre baronesa.
—
Com o que devo me preocupar agora?
—
Ela visitou um homem, entrou em sua casa e com ele ficou não pouco tempo.
Frederico
não disse nada.
O
silêncio falava no lugar das palavras.
Estava
enfurecido pelas imaginações que subiam ao pensamento.
##
No próximo capítulo:
— Não permita que a violência desses
homens coloquem em dúvida o que sempre procurou manter no coração, eles são
muitos, mas não são todos, eles têm muito, mas não possuem tudo, sempre é
possível acreditar — encarou o escravo com olhar encorajador, com palavras de
valente objetivo —. Seus sonhos não valem menos que os meus, somos igualmente
humanos, precisamos desfrutar de igual liberdade, nem que para isso tenhamos
que juntos lutar!
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