[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 25 - Arriscar-se
Capítulo 25 – Arriscar-se
Arriscava-se...
Quem não quer
sofrer nenhum risco, quem vive fugindo das adversidades que podem se levantar
quando decidimos progredir e inovar no nosso caminhar, corre o maior dos
riscos, arrisca-se a uma perigosa aventura, coloca-se à beira da ruína: corre o
alto risco de paralisar-se na vida.
Viver é isso,
arriscar-se às frustrações, às amarguras, às falhas, mas também é se arriscar
aos sorrisos, à felicidade e ao prazer de em todas as manhãs ter o direito de
abrir os olhos, libertar as pulsões e usufruir da nova oportunidade de escrever
um lindo capítulo no livro da vida.
Mas tanto foi o
choro, imensa foi a for, ao ponto de Rute viver amedrontada, aturdida pelo medo
do recomeço, pelo pavor de arriscar-se a virar a página. Mas respirou fundo,
reuniu forças, mostrou-se disposta a tentar, pelo menos tentar.
Felipe, por
tanto tempo coibido das belezas do mundo e dos prazeres da singular experiência
do existir, desde que conhecera Sara e se encantara pelo seu olhar não
conseguia idealizar outra coisa se não o jantar no qual teria a chance de
conhecer alguém interessante e se mostrar a esse alguém igualmente atraente.
Queria perfeição. Perdera a conta do número de vezes que verificou a afinação
do violino. Estava entusiasmado.
— Mas afinou não
faz nem cinco minutos! — Victor, divertindo-se com a afobação do querido
hóspede, provocou-o —. Todo esse cuidado por que uma garota o ouvirá? Não será
a primeira vez e ela já demonstrou aprovação.
— Não é por ela,
digo, não é apenas por ela — falou atrapalhado, envergonhado, como se desconfiasse
de que o hospedeiro desvendara sua mente —. Virá acompanhada, preciso
impressionar!
— Sei bem quem é
que pretende impressionar — estreitou os olhos.
— Tem certeza de
que sou o maior interessado em causar admiração? Nunca o vi tão bem arrumado! —
foi a sua vez de levantar suspeitas —. Não seria por que a vizinha misteriosa
finalmente se revelará?
— Não diga
bobagens e aprenda que para receber convidados devemos ser elegantes e gentis!
— no fundo sabia que era verdade, sabia que fora motivado pela curiosidade de
conhecer a mulher que morava ao lado, o que não sabia era que seus sentimentos
corriam o risco de se agitarem.
Suavemente,
alguém bateu à porta.
Os rapazes se
prontificaram à pronta recepção, mas Victor cedeu à vez, permitiu que o
adolescente acostumado a rudes tratamentos experimentasse mais uma coisa da
liberdade: o prazer de receber pessoas queridas, amigas, pessoas que não
oferecem açoites, pessoas que compartilham afetos.
Os dois jovens,
já conquistados pelos poucos minutos que juntos passaram, permitiram que os
sorrisos fossem trocados, aguardaram ansiosos por aquele reencontro, queriam e
tinham muito a conversar.
Rute, receosa
pelas reações que causaria, também se espantou ao contemplar Felipe, um espanto
admirado, contente, apesar de se trancar no casarão sabia o que acontecia ao
seu redor, conhecia a sociedade estagnada que perseguia tantas gentes em nome
de razões repletas de ignorância. O anfitrião ganhou seu respeito, era alguém
que pensava como ela, alguém que não pensava apenas, agia contra o impossível
de entender.
— Sejam
bem-vindas e sintam-se em casa! — cheio de gentilezas, Victor abriu passagem,
estava contente, estava também intrigado pelo rosto cuja metade era coberta por
uma máscara misteriosa e a outra metade permitia que as íris castanhas
exibissem sua intensidade.
— É com
satisfação que aqui estamos — Rute, conseguindo acalmar os pensamentos
pessimistas, aceitou o cumprimento do anfitrião, estendeu-lhe a mão para que
fosse respeitosamente beijada, sentiu-se aliviada por perceber que sua condição
não era motivo para estranhezas.
¤
Em mais uma
noite, repousando o corpo sobre a cama na busca pelo sono, os pensamentos de
Laís foram levados a Heitor, ao quanto o amava, o quanto almejava tê-lo ao seu
lado, usufruir da sua agradável e calorosa companhia, ter a certeza de que ao
amanhecer seriam os seus olhos os primeiros a contemplar, sua voz a primeira a
ouvir e seu toque o primeiro a sentir. Mas aquela não era a realidade. O seu
sonho não fazia parte do mundo real. A verdade dos seus dias era outra,
assolava sua alma, sufocava a garganta.
Alguém se
colocou ao seu lado.
Lábios
impiedosos e desagradáveis procuraram pelo seu corpo.
Mas ela não se
moveu, há tempos não se movia, há tempos não satisfazia os desejos de um homem
lascivo.
— O que foi
agora? — Frederico, revoltado pelo distanciamento da esposa, tendo negado o que
pensava ser seu direito de marido, dispensou um soco contra a cama, sua voz
soou áspera aos ouvidos singelos, suas mãos cruéis forçaram que o rosto sereno
se voltasse a ele —. Acha sensato repudiar a mim? Acha inteligente recusar-se a
mim? — encarava-a com olhos que ardiam de desejo, um desejo sem sentimento, um
desejo indecente, simplesmente carnal.
— Como consegue
ser tão egoísta e insensível? — a baronesa, querendo se livrar da possessão de
um sujeito descontrolado e nojento, encarou-o intimando explicações para os
comportamentos malvistos —. É um esposo mesquinho, pensa apenas em seus
prazeres e pouco se importa com o amor... É um pai autoritário, exige da
própria filha um sacrifício insuportável e age como se não sentisse nem uma
gota de remorso... Acha mesmo que sinto algum desejo por você?
Palavras
ambiciosas.
Palavras
ousadas.
Palavras que
foram respondidas através do forte e covarde tapa que Frederico cedeu ao rosto
que nunca fora capaz de acariciar ternamente.
— Quem pensa que
é para me confrontar assim? — usando de força, lutando contra a mulher
angustiada, o barão a imobilizou entre os lençóis que estavam prestes a
testemunhar a barbaridade, colocou-se sobre ela sem qualquer pudor, invadiu-a
com sua amarga perversão —. Quem pensa que é, desgraçada?! — puxava seus
cabelos enquanto a molestava iradamente —. Nunca mais queira me desafiar! —
falava com raiva, pressionava a face de Laís com seus dedos ferozes —. Não
adiantará lutar contra mim, nem tentar me convencer a tornar em minhas
decisões, você e Ana pertencem ao meu domínio! — encerrou o ato humilhante,
degradante, desonroso.
As lágrimas
corriam contra sua vontade, ainda que fizesse força, a mulher violentada não
conseguia conter o choro, fora usada como um objeto, um mero e insignificante
objeto.
— Não é
possível! — levantando-se bruscamente, Frederico arrancou a esposa da cama,
lançou-a na varanda, trancou a porta e voltou a se deitar como se sua violência
fosse natural, como se sua maldade fosse aceitável.
Sentindo-se
humilhada, desrespeitada, forjada de sua dignidade, Laís encolheu-se no canto,
escondeu o rosto atrás dos joelhos e, sentindo a brisa fria da noite, permitiu
que a alma sangrasse. Como queria se recostar sobre os ombros de Heitor, como queria...
¤
Após o delicioso
jantar embalado por agradáveis conversas, Felipe se ofereceu para encerrar a
noite com música e emoção. Sara logo concordou e Rute muito se alegrou por ter
a chance de conhecer o autor de tão inspirador som.
A música soou
aos ouvidos.
Tocou os
corações.
Rute,
experimentando algo novo, permitindo-se a um agradável recomeço, não conseguiu
esconder a emoção por muito tempo, discretas lágrimas rolaram pelo seu rosto,
era o efeito da paz que há muito tempo não sentia, a paz que a esperança de
dias melhores é capaz de ofertar.
Continua...
##
No próximo capítulo:
Felipe, por sua vez,
despretensioso ao oferecer ajuda, ficou ainda mais curioso quanto aos próprios
sentimentos ao tocar os dedos delicados e posicioná-los no braço do violino. As
desconhecidas sensações ganharam intensidade quando endireitou os ombros da
garota e auxiliou no manuseio do arco.
Afastou-se.
Embora quisesse permanecer
naquela proximidade, afastou-se.
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